Antevisão — Milano-Sanremo Donne

Se eu não conseguir dormir. Não é cafeína. É culpa da Lorena. Do beijo da Lorena.

Antevisão — Milano-Sanremo Donne
Milano-Sanremo Donne

Introdução

Pelo segundo ano consecutivo, o pelotão feminino celebra a chegada à Via Roma. E logo no mesmo dia da corrida masculina — o que é sinónimo de maior atenção mediática para as senhoras. O que também aumenta a responsabilidade: o ano passado ninguém conseguiu droppar Lorena Wiebes, apesar dos esforços de Demi Vollering, ausente para esta edição. Eu acho que faz bem, ia sempre ser muito difícil chegar isolada e torna-se difícil imaginar um cenário em que chegaria com um grupo onde seria a mais rápida ao sprint. E assim pode sempre dizer que nem tentou, que se tivesse participado podia ter ganho, bem jogado, Demi. Este ano, é bom que unam esforços para evitar a chegada da mais letal sprinter da história.

Início de transmissão às 11h30, ou seja, perfeito. Dá para ver o Inspector Max antes, dizer adeus a Sérgio Calado e a Jorge Mendes, ajeitar a manta, sacar dos frutos secos ou uvas sem grainha e fingir que é Natal. Pena que não seja compatível com BBC Vida Selvagem, mas vá lá, malta, hoje em dia a tecnologia já permite puxar para trás. O Eduardo Rêgo perdoa-vos. Agora é só decidirem por quem vão torcer.

"ma come?" parece proferir Lorena Wiebes, vencedora em 2025 na Via Roma.

O percurso

Igualzinho ao ano passado. 156 quilómetros entre Génova e Sanremo. Uma distância já considerável para uma prova feminina — relembro que a Primavera Rosa, prova antecessora desta Sanremo Donne que teve seis edições entre 1999 e 2005, partia de Varazze e tinha apenas 118 quilómetros. O resto é o menu do dia habitual: os três Capi, Cipressa (leia-se Txipressa) e Poggio di Sanremo.

Genova - Sanremo (156km)

O que esperar

Bom, mais importante do que a previsão meteorológica — dizem sempre que vai chover horrores e que o vento vai ser muito forte, mas depois o cenário tem sido de sol —, é que o Mercúrio Retrógrado termina hoje, sexta-feira, dia 20 de Março, portanto, há todas as condições para as corredoras protagonizarem uma grande corrida. A lua, já agora, parece estar a favorecer Peixes, signo que hoje acaba o seu ciclo — a partir de amanhã entram em rotação os Carneiros. Querem saber quem é que é pisciana? Lorena Wiebes. Ah pois. Fez anos na passada terça-feira, dia 17, há quem diga até que foi por isso que não marcou presença na Danilith Nokere Koerse — os aniversários são para estar junto da família. Perante esta informação determinante, a bola está do vosso lado.

Então, como em qualquer corrida onde Wiebes está, a questão passa ser se a neerlandesa chega ou não. Os últimos anos têm-nos dito que ela está cada vez mais completa, isto é, que passa cada vez melhor ligeiras dificuldades. Por outro lado, sendo esta a segunda edição da nova da versão feminina da Milão-Sanremo, a música pode tocar de forma distinta. Por muitos reconhecimentos que se façam, o facto de as corredoras terem feito a Cipressa e o Poggio em prova — num ritmo e num esforço mental quase impossível de repetir em treino — adensa o conhecimento; a memória do seu estado naquela curva final da subida, naquela pendente mais atrevida do Poggio. Tudo conta.

E se a presença de Wiebes é um por-maior, as ausências de Demi Vollering e Pauline Ferrand-Prévot também o são. Não são só das duas mais ferozes atacantes do planeta, são duas atletas muito completas; e a técnica multidisciplinar da francesa daria seguramente muito jeito àquelas que mais interessadas estão em evitar a chegada de Wiebes. De qualquer forma, o plano tem de ser esse.

E se não há cão, caça-se com Elisa Longo Borghini (mais um bocado ganhava o ano passado), com Kasia Niewiadoma (embora me pareça que a polaca, apesar de boa descedora, terá sempre muitas dificuldades em vencer na Via Roma, dado o seu fraco sprint e a moderada inclinação do Poggio; para Niewiadoma vai ser preciso atacar de muito longe) e com Puck Pieterse (alguém falou em descer bem?). Há aqui outra questão, há um nome na sombra, à espreita, que em teoria se poderá refugiar no argumento "eu não trabalho porque a Lorena está a tentar fechar o espaço". Falo, naturalmente, de Lotte Kopecky, que acabou de vencer a Danilith Nokere Koerse, numa importantíssima vitória em direcção à Via Roma no que à recuperação de confiança diz respeito. Mais fresca do que as suas mais directas rivais, a belga, que parece ter 20 vidas (e que sim, apesar da vitória na quarta-feira não pareceu em super forma), pode ter aqui uma oportunidade de ouro. Parecem existir indícios nas declarações da SD Worx e das próprias Wiebes e Kopecky que o cenário do ano passado em que a segunda rebocou a primeira nos últimos quilómetros pode não acontecer.

Vamos ver. É, como sempre, uma apaixonante corrida de Primavera, as primeiras flores, um xadrez táctico, uma orquestra onde cada classe de instrumentos rema para o seu lado — o som não deixa de ser belo.

Favoritas

Lorena Wiebes — Basta seguir na roda. Só que este "basta" rompe as pernas e de que maneira. Quererá que tudo seja o mais pacífico possível, mas tem contra si o desespero do tudo ou nada: todas as suas rivais sabem que a única esperança é livrarem-se de Lorena pelo caminho.

Elisa Longo Borghini — A forma é boa. A ousadia é muita. O sprint? Podia ser melhor. Mas se tivesse de dizer alguém que vai embora, diria Borghini.

Puck Pieterse — Confesso que esperava mais das três clássicas italianas que marcaram o arranque da sua época de estrada. A forma como fura das pernas na Via Santa Caterina, durante a Strade Bianche, deixou-me reticente. No entanto, as características de Puck são perfeitas para esta prova: desce lindamente e se chegar um grupo reduzido sem Lorena e Vos, é uma forte candidata.

Marianne Vos — Vos tem um problema. Bom, talvez dois. Ferrand-Prévot não vem, o que podia ser uma ajuda ou não, depende se a francesa ia embora ou ajudava a Rainha (com sorte ainda iam as duas). E o segundo e maior bico-de-obra é que Vos sabe que não pode ir para a linha de meta com Wiebes, mas também não lhe resta outra opção, isto é, também lhe interessa que a corrida não seja muito atacada para tentar sobreviver; um cenário que Vos chega e Wiebes não parece-me altamente improvável.

A não perder de vista

Lotte Kopecky — Já dizia Luís Represas na célebre canção do Trovante: "Há sempre alguém nos diz tem cuidado / Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco / Há sempre alguém que nos faz falta / Ahhh, saudade." Kopecky pode ser uma das grandes beneficiadas de uma corrida com uma enorme dimensão táctica.

Noemi Rüegg — Já tem um pódio nesta corrida. E a forma é muito idêntica à do ano passado. Cuidadinho.

Kim Le Court Pienaar — Correu pouco até agora e admito que o facto de a sua camisola de campeã nacional ter mudado por imposição da UCI possa estar a ser um fardo. No entanto, a qualidade não se perde só por dá cá aquela palha. É uma corredora fantástica. Vai aparecer, mais cedo ou mais tarde.

Apostas falso plano

André Dias — Puck Pieterse, CX style.

Henrique Augusto — Kim vai fazer as adversárias Pienaar.

O Primož do Roglič — Eu digo Wie vocês dizem bis. Wiebis.

Miguel Branco — Elisa Longo Borghini. Nascida a 10 de Dezembro de 1991. Signo: Sagitário. Esta era fácil.

Miguel Pratas — Cada um Persico.

Nuno Gomes — Puck Pieterse. [nota do autor do texto: tenho quase a certeza que o Nuno acha que a Pieterse nem sequer vai fazer top-5, mas quer enganar o falso plano e favorecer os Lingrinhas; um clássico.]

Nuno Silva — O vento trocou-me as Vollerings, por isso vai ser Wiebes.

Rogério Almeida — Oh Célia, estás ouvir? E AGORA, CÉLIA, ESTÁS A OUVIR?

Vítor Ferreira — Isto está com Wiebes de Lorena.