Antevisão — Paris - Roubaix

Se ganha Pogačar, é histórico. Se ganha Mathieu van der Poel, histórico. Se estes 2 perdem, temos finalmente surpresa num monumento. Não há como nós perdermos.

Antevisão — Paris - Roubaix
Paris-Roubaix

Introdução

Sem querer elevar demasiado as expetativas, acho que a introdução do artigo que se segue se podia resumir nas palavras do nosso querido amigo Pedro Barata.

Sempre sábio este homem.

O Inferno do Norte (melhor nickname do ciclismo mundial, já agora) não precisa de grandes antecipações, grandes rivalidades ou de ter muito em jogo para ser espetacular. É uma corrida que, de tão única ser, vale por si mesmo. Há ciclistas que existem para este dia (que o diga John Degenkolb), carreiras que são feitas aqui (que o diga Matthew Hayman), homens feitos que, cheios de lama, se rebolam pelo chão tal a emoção sentida ao atingir a glória em Roubaix (que o diga Sonny Colbrelli).

Mas, apesar de não precisar, este ano é inegável que há ainda mais em jogo do que é habitual, tornando esta edição numa que promete deixar-nos a todos agarrados ao ecrã. Só há 3 desfechos possíveis, e qual deles o melhor:

Desfecho 1 — O mais provável, na minha opinião, é Mathieu van der Poel, com maior ou menor dificuldade, vencer pela quarta vez consecutiva. Tornando-se no primeiro ciclista a atingir tal feito e igualando os lendários Roger De Vlaeminck e Tom Boonen como maiores vencedores da prova. Além disso, dando uma lufada de ar fresco ao ciclismo provando que Tadej Pogačar é só praticamente imbatível e não completamente imbatível.

Desfecho 2 — Pogačar volta a contrariar toda a lógica existente no ciclismo e vence em Roubaix, tornando-se o 4.º ciclista a vencer todos os monumentos na carreira e abrindo caminho para um feito absolutamente extraordinário de vencer os 5 não só na carreira, mas no mesmo ano. Em teoria, a Liège e a Lombardia são as mais acessíveis para ele, pelo que as portas ficariam escancaradas para a história ser reescrita mais uma vez pelo esloveno. Tornar-se-ia também o primeiro ciclista da época moderna a vencer o Tour e Roubaix. Só recordes para este menino.

Desfecho 3 — O ciclismo nos últimos anos tem sido pobre em surpresas, tal o domínio dos denominados aliens, pelo que uma supresa seria muito bem-vinda. E a vitória de alguém que não os dois nomes de cima seria uma surpresa tremenda. Justiça de carreira para Wout ou para Mads, ou outsider a vencer.

Acabando este raciocínio descobri que nós, adeptos, não temos como perder no Inferno do Norte. Venha pavé, venham estradas apertadas, venham florestas, venham quedas e furos, venham ataques e quebras, venha ciclismo. Vai ser um belo dia de sofá, este Domingo.

O abraço dos campeões em 2025.

O percurso

258 quilómetros, 55 deles em estradas que já só existem para os sádicos que inventaram esta corrida se possam continuar a refastelar no sofá desfrutando do sofrimento alheio. 30 setores de pavé. Trintaaaaaaaa caralho!

Se a corrida seguir o guião dos últimos anos, a intensidade e a tensão vão acumular-se desde o primeiro setor, mas as principais movimentações acontecerão em Haveluy (setor 20) rumo ao decisivo Arenberg (setor 19). Daí para a frente, quem está está, quem ficou ficou.

Destaque claro para os lendários setores Mons-en-Pévèle e Carrefour de l'Abre e para a tão icónica chegada ao velódromo de Roubaix que já viu tantos gladiadores usarem a sua última réstia de forças para sprintarem rumo à glória.

Chamem-me antiquado, mas se se chama Paris-Roubaix não devia começar em Paris e acabar em Roubaix? Foi estas brincadeiras que arranjaram a fazer o Paris-Dakar na Arábia Saudita. Respeitem os nomes das coisas.

O que esperar

É Roubaix, pelo que saber o que esperar é um exercício complexo. Ainda assim, há que encher este espaço do artigo por isso vamos lá.

A primeira coisa que espero é uma luta diabólica pela entrada na fuga. Se há prova com um histórico simpático para os audazes atacantes é esta, até porque o segredo é passar Arenberg no grupo da frente. Se o fizeres, eliminaste 90% da concorrência e podes sonhar com o top-10. Permitam-me que deixe alguns nomes que gostava de ver nestas funções — Per Strand Hagenes, Dan Hoole (anda Nunapps), Tarling, Baarle/Lampaert, Frits Biesterbos, Segaert, Tiller, Teunissen, Asgreen, Sheehan, Cortina, Tomáš Kopecký e António Morgado.

"Então mas o Morgado não é da equipa do Pogi? Alguma vez ele vai para a fuga? Pára de ser patriota, seu pino", dizem vocês. E com alguma razão. No entanto eu acho que o plano da UAE passará por tentar aproveitar um bloco menos forte da Alpecin este ano para jogar com a superioridade numérica. E Morgado na fuga seria bom tanto para forçar a Alpecin a trabalhar como para se certificarem que os crónicos problemas de colocação do português não o impediam de colaborar na altura decisiva da prova. Quem diz Morgado, diz Politt ou Bjerg.

Não vou tentar prever o impossível de prever, não sei quem vai cair ou furar em momentos decisivos e ficar assim afastado da corrida. Mas posso prever uma luta intensa pela colocação nos primeiros setores de pavé, onde a corrida por eliminação se iniciará. Depois, na combinação Haveluy/Arenberg, as pernas falarão à boleia da iniciativa dos tubarões. A partir daí são 100 quilómetros a fundo, com ciclistas espalhados pela prova, com grupos mistos entre fuga e favoritos. Pode haver quem tente antecipar-se aos favoritos, mas com blocos tão fortes como os da UAE e Alpecin será difícil terem o seu sucesso. Ainda assim, blocos como a Visma (Van Aert, Brennan, Laporte, Hagenes), a Trek (Mads, Milan, Vacek, Walscheid), a Ineos (Ganna, Tarling, Turner) e a Red Bull (manos Van Dijke, Meeus, Vermeersch), entre outros, terão de tentar a sua sorte, pois todo o pelotão sabe que se chegarem a Mons-en-Pevéle e ao Carrefour de l'Abre com os dois tubarões, será entre eles que a corrida será disputada.

O que eu acredito que acontecerá será, em suma, um grupo de 20 que sairá de Arenberg que se transformará num grupo de 2 à saída do Carrefour com 1001 peripécias pelo meio. Esse grupo de dois vocês sabem quem são, e depois tudo se disputará ao sprint entre eles, com Mathieu van der Poel a adiar um bocadinho mais o sonho de Pogačar.

Favoritos

Mathieu van der Poel — Deve estar de orgulho ferido. Perdeu em Sanremo e perdeu novamente, de forma clara, naquele que era antes o seu terreno na Flandres. Apesar de se darem muitíssimo bem, o neerlandês já deve estar farto de ver Pogi de braços no ar e quererá bater com a mão na mesa e mostrar que ainda está aí para as curvas e que, no terreno que é seu, ainda é ele que manda.

Tadej Pogačar — Já não há palavras para este rapaz. Se ele consegue este feito põe (ainda mais) em causa todos os pressupostos sobre os quais o ciclismo assentava. Impossível não é, ele já o provou, mas continuo a ver com dificuldade ele a deixar para trás Mathieu van der Poel e com igual dificuldade ele a batê-lo ao sprint. Por isso acho que ainda vai ter de esperar mais um ano. Acho e quero.

A não perder de vista

Wout van Aert — Ganhei um carinho extra por ele depois da nossa passagem pela Bélgica. É um Deus por lá e já merecia uma vitória destas. Uma vitória que, apesar de muito difícil, é em Roubaix que acho mais provável ainda poder ser alcançada. Pode aproveitar alguma marcação entre os favoritos e escapar por entre os dedos deles.

Mads Pedersen — Outro classicómano com azar na geração em que despontou. O ciclismo deve uma a Mads, a questão é se alguma vez pagará. Ele estará por lá, à espera que a sorte e o engenho venham ter com ele.

Filippo Ganna — Ganna é um motor do caraças e o pavé não o assusta, como já provou em edições anteriores desta prova e, mais recentemente, na Dwaars onde tirou o pão da boca a Wout van Aert. É daqueles que, se lhe dão uns metros, boa sorte.

Florian Vermeersch — Está numa forma surreal o braço direito de Pogačar nesta prova e até já disse que aqui queria ser co-líder. Amigo, co-líder não vais ser, mas pode ser que apareça uma oportunidade, Roubaix nunca está escrito antes de ser corrido, como mostraste e bem quando, sendo ainda um desconhecido em 2021, fechaste no pódio de uma das melhores edições de que há memória.

Jasper Stuyven — Velhos são os trapos e o belga sabe muito disto. O ingresso na Wolfpack está a correr bem e esta é das suas corridas favoritas, seria bonito vê-lo no pódio.

Apostas falso plano

André Dias — Frits Biesterbos a partir da fuga.

Henrique Augusto — Mathieu van der Poel. O outro jovem não pode ganhar tudo tudo tudo tudo tudo tudo tudo tudo.

O Primož do Roglič — Andas Mads. É sempre a Arbrir no Carrefour.

Miguel Branco — Jonas Rutsch. A partir da Fugazi.

Miguel Pratas — 3/5 Pogi.

Nuno Gomes — Sprint a deux que o mundo quer ver. Wout vence Florian Vermeersch..

Nuno Silva — 5 em 5 Tadej Pogačar.

Rogério Almeida — Quem Pogi, Pogi; quem não Pogi, se sacode.

Vítor Ferreira — Aaron Gate. Que se foda o Tiberi.