Antevisão — Paris-Roubaix Femmes
Ganha quem cair menos vezes.
Introdução
Proponho um exercício: enquanto estiverem a ler este artigo (só este acto já é tremendamente corajoso) pensem que estão no pavé de Roubaix. Ou seja, leiam como se estivessem aos tremeliques, como se não conseguissem empregar um discurso perfeito. Alllggoooo desstteeee géenneerroooo. Retenham essa imagem. Eu só não escrevo o artigo todo assim porque dá muito trabalho, percebem?
Vamos lá então. Fazer uma antevisão de Roubaix é como jogar búzios ao nosso futuro, é como imaginar onde estaremos daqui a dez anos, ou seis meses. Ninguém sabe. No limite, é como tentar adivinhar qual o próximo anúncio televisivo bombástico com Paulo Futre: sabemos que ele vai estar no banco de trás de um carro, mas não fazemos ideia qual a marca em questão. Roubaix é das provas onde o factor sorte — ou azar, se preferirem — mais impera. Furos a torto e a direito. Outras avarias mecânicas devido ao desgaste intenso a que as bicicletas estão sujeitas. Quedas à fartazana. Tudo isso.
É claro que nem tudo é sorte. Há quem domine melhor a arte de manusear a bicicleta. Há quem se deixe menos vezes em situações que potenciam quedas. Mas, vá lá, pode acontecer a qualquer um. E isso também torna esta a melhor corrida do mundo.
Esta será a 6.ª edição da Paris-Roubaix Femmes que tradicionalmente tem sido disputada no dia anterior à masculina. Este ano, no entanto, decorre no mesmo domingo, o que não deixa de proporcionar um ambiente mais real ao pelotão feminino, com mais público presente. Isso também significa que há menos horas de emissão e que os sectores de empedrado estejam mais desgastados depois da passagem do pelotão masculino, mas enfim, são opções, há prós e contras em cada gesto humano.

Em 2025, a vitória sorriu a Pauline Ferrand-Prévot, que viria também a vencer o Tour. Nunca nenhuma mulher conseguiu defender o título em Roubaix. Vamos ver se é desta.
O percurso
É sempre o mesmo, sendo que no caso das senhoras não há, infelizmente, Arenberg. Mas há, no entanto, os duríssimos Mons-en-Pévèle (a 48,6kms da meta) e o já tipicamente decisivo (2025 que o diga) Carrefour l'Abre (a 17,1kms da meta). São, no total, 20 sectores de pavé (num acumulado de 33,7kms) que são garantia de show e uma quilometragem de 143,1 quilómetros — a nível de monumentos é o mais curto em 2026, o que não significa que seja menos duro. Não há subidas, mas há buracos.

O que esperar
É Roubaix, o que é que vocês acham que é de esperar? Esta malta que decidiu este subtítulo não sei onde andava com a cabeça. Espera-se pó, caos e uma enorme batalha. Pode sempre acontecer antes — e sobretudo vai existir quem fique pelo caminho devido a infortúnios —, mas eu diria que a coisa começa a ficar mais sensível a cerca de 60 quilómetros para o fim. Temos, num espaço de 12 quilómetros três sectores exigentes: Orchies (três estrelas e 1,7kms), Auchy-lez-Orchies à Bersée (quatro estrelas e 2,7kms) e Mons-en-Pévèle (cinco estrelas e 3kms). Se não for antes, os principais blocos vão mexer aqui. Visma, SD Worx, Lidl-Trek e FDJ. Quando digo mexer é, provavelmente, aumentar ritmo, testar, perceber como se sentem as rivais.
Será muito importante perceber com que números estes blocos chegam a esta fase da corrida — e, já agora, numa fase mais inicial, quem metem na fuga; isto se houver fuga, porque como bem se recordam pode não ser boa ideia deixar escapar quem quer que seja. Se a corrida começar a partir desde logo, ui, então sim, será a total carnificina. Como sempre: a SD Worx tem Lorena Wiebes. Se a sprinter estiver recuperada da queda sofrida na Ronde van Vlaanderen é sempre um perigo, não só porque se chegar ao Velódromo está feito, mas porque é uma corredora completa o suficiente para deslizar neste empedrado de Roubaix. A formação neerlandesa conta ainda com Kopecky e Kata Blanka Vas como duas muito aptas corredoras neste terreno. Isto significa que estão na melhor posição possível enquanto Lorena sobreviver — podem dar liberdade a outros elementos, mas não precisam de estar em pânico para atacar.
Isso significará que a Visma (mesmo tendo Marianne Vos de regresso), não só porque tem a vencedora de 2025, quererá a corrida mexida. O mesmo se pode dizer da FDJ, que traz a super Franziska Koch, bem como Guazzini, Géry e Kraak, isto é, em teoria o sprint não é a melhor ideia para a formação gaulesa. A Lidl-Trek encontra-se também a meio caminho: algures entre não se importar de levar Elisa Balsamo num grupo reduzido, mas com a certeza de ter muito e boa gente para ataques de longe: Brand, Van Anrooij e Noorsgaard.
Temos ainda duas duplas de revelo que podem endiabrar o Inferno do Norte: Borghesi e Bossuyt na AG Insurance e Zoe Bäckstedt e Chloé Dygert na Canyon. E nós sabemos como em Roubaix aquilo que é uma equipa rapidamente passa a um trio ou a um dupla. Sem o peso da responsabilidade, estas podem ser dois blocos que surpreendem de longe e que obrigarão Visma e SD Worx a manter vigilância.
No fundo, tantas palavras para dizer o que disse no início: não faço a mais pequena ideia de como isto se vai desenrolar. Ganha quem cair menos vezes.
Não há favoritas porque é Roubaix
Lorena Wiebes — Wiebes é Wiebes.
Pauline Ferrand-Prévot — Venceu em 2025 e está em forma, como comprovou na Ronde.
Lotte Kopecky — Sabe o que é vencer esta prova e segundo manda a regra máxima Kopecky-ganha-uma/Kopecky-perde-uma agora é tempo de ganhar.
Franziska Koch — Está tudo a pensar no mesmo: Koch está a voar. Claro que, quando assim é, pode dar azar. Chamada ao papel de protagonista, pode correr mal. Mas isto sou eu que acredito nestas danças do karma.
Marianne Vos — A Rainha está de volta e quererá dedicar a vitória ao seu pai. Vai ser difícil deixá-la para trás.
Elisa Balsamo — A corrida assenta-lhe lindamente. A forma é, no entanto, questionável. Mas a equipa é um abuso.
Zoe Bäckstedt — Se andou como andou na Ronde, imaginem sem subidas.
Apostas falso plano
André Dias — Faço minhas as palavras de Ana Malhoa: "a Rainha está de volta".
Fábio Babau — Pauline, à boleia, na bicicleta do Pogi.
Henrique Augusto — Cat Ferguson. Que se foda o Tiberi.
O Primož do Roglič — Pauline Ferrand-Pravé.
Miguel Branco — Lonneke Uneken. Fuga desde o quilómetro zero.
Miguel Pratas — Lorena.
Nuno Gomes — Koch, em francês, rima com papa-paralelos!
Nuno Silva — Zzzzoenhei que ganha a Bäckstedt.
Rogério Almeida — Tata top-10 fácil.