Antevisão — Ronde van Vlaanderen
Pogačar ou Mathieu Van der Poel? Com Remco e o falso plano presentes, tudo é possível.
Será mais uma para Pogačar ou Mathieu Van der Poel vai empatar a contagem este ano? Com Remco e o falso plano presentes, tudo é possível.
Introdução
Para mim, esta é a clássica / monumento mais emblemática de todo o ciclismo. Não só pelo espetáculo que sempre proporciona, mas pela história e o local onde se realiza, existe toda uma mística que não se consegue explicar. Mas que se sente. Imenso.
A Ronde tem as suas origens em 1913 (ganha pelo belga Paul Deman), ainda antes da 1.ª Guerra Mundial, e serve como palco de homenagem para os soldados que tragicamente faleceram durante as guerras mundiais na região da Flandres. Acabo sempre por sentir um arrepio não por só pelo espetáculo dos ataques, das fugas e da luta constante pela vitória que torna este dia especial. Mas porque cada quilómetro percorrido por estas estradas é também um tributo aos ciclistas, que foram soldados e perderam a vida nas guerras mundiais que marcaram esta região. Ver hoje esta batalha desportiva num lugar que, outrora, conheceu batalhas bem reais, dá à corrida uma dimensão ainda mais bonita e comovente.
Pequeno regresso a 2025. Esperávamos um duelo entre Tadej Pogačar e Mathieu Van der Poel. No entanto, tivemos também um Mads Pedersen bastante forte que conseguiu, a muito custo, acompanhar os dois aliens. E não esquecer Wout Van Aert, que nunca baixou os braços e conseguiu apanhá-los até ao Oude Kwaremont. Aí, Pogačar mostrou porque é um dos melhores ciclistas de sempre (o melhor?) e despachou toda a concorrência, Van der Poel incluído. Foi uma edição absolutamente épica com ataques atrás de ataques onde cinco ciclistas se evidenciaram: menção honrosa a Jasper Stuyven que fez uma corrida brilhante; Mads Pedersen muito deve o seu 2.º lugar ao colega de equipa.
Este ano, os cinco metem-se em sarilhos. Vamos primeiro ao duelo entre Tadej Pogačar e Mathieu Van der Poel. De um lado, o esloveno pretende igualar o número de vitórias de Van der Poel na Flandres (3). Do outro, Van der Poel quere voltar a empatar o duelo entre ambos: está 2-1 para Pogačar. Desde Kasper Asgreen em 2021 que não conhecemos outro vencedor da prova sem ser os dois showmen. Até há um padrão: um ano ganha um, no seguinte ganha o outro. Será que vamos manter esta tendência?
Tenho as minhas dúvidas. Tadej Pogačar acabou de vencer a Milano-San Remo de uma maneira que será recordada enquanto existir humanidade (para aí mais uns 30 anos, portanto) e MvdP, apesar de forte, já demonstrou pequenas fragilidades.
Mathieu van der Poel está a uma vitória de se tornar o maior vencedor de sempre desta corrida. E a uma derrota de ser apanhado por Pogačar. Se assim for, para o ano lutam os dois por se tornarem os vencedores com maiores números na Flandres. Sem pressão, Mathieu, sem pressão.

Mas a Ronde não é só deles. Wout Van Aert é dos poucos que pode dizer que já conseguiu batê-los. Está em crescendo de forma e é um ciclista que, no seu melhor, bate-se bem com (e até vence?) o duo de favoritos. Um azarado Mads Pedersen também vai estar presente: caiu no início da temporada, regressou, recuperou forma, adoeceu e não sabemos muito bem como se encontrará aqui. Já Jasper Stuyven mudou-se para a Soudal, teoricamente uma mudança que tem tudo para dar certo, mas ainda não vimos o melhor Stuyven esta temporada.
Isto é tudo muito bonito mas há uma adição de última hora que vem baralhar as contas e potencialmente estragar a festa. Falamos de Remco Evenepoel, que anunciou a sua presença na Ronde durante o dia 1 de Abril. Pensávamos que se tratava de uma brincadeira do dia das mentiras, mas não: é sério e bem sério. E ele vem a sério. Apesar de já não correr há muito uma corrida semelhante a esta, Evenepoel joga em casa e tem um talento natural para este tipo de terreno. Se há alguém capaz de seguir Pogačar neste tipo de corridas? É ele.

O percurso
Olhamos para o início da corrida e pensamos: ok, muito terreno plano, vai uma fuga para a frente e eles ficam a conversar tranquilamente como em Milano-Sanremo. ERRADO.
Flandres é sinónimo de vento e os abanicos podem selecionar logo o pelotão ainda antes da passagem pela primeira pedra, por isso o posicionamento será importante desde início. Ainda bem que o João nunca fez a Flandres. A partida em Antuérpia potencializa ainda mais esta situação do vento, pois é uma região bastante turbulenta: prova disso é a clássica de Antuérpia nunca ser disputada por um pelotão grande, apesar de ser 100% plana.
A partir do quilómetro 142, o vento passa a ser a menor preocupação dos ciclistas: entramos nas subidas e logo no Oude Kwaremont. A corrida ganha uma nova dimensão onde qualquer sprinter que se tenha aventurado para esta prova é rapidamente eliminado pelas colinas belgas. Esta fase até à segunda passagem pelo Kwaremont e Paterberg serve essencialmente para isto; eliminar ciclistas em modo "não estavas capaz, não vinhas".

Chegamos à segunda passagem e entramos numa nova fase da corrida. Tadej Pogačar e Mathieu Van der Poel atacaram aqui em edições anteriores e tudo indica que o farão novamente nesta. Adeus, pelotão; olá, grupettos. A partir deste momento, quem não estiver na frente já não vai conseguir disputar a corrida.

Em 2025, após a passagem por mais uns bergs, Tadej Pogačar chegou à 3.ª escalada pelo Oude Kwaremont e seguiu sozinho, despachando toda a concorrência. É a terceira e final fase da corrida, onde se fazem as diferenças e seleções decisivas para a classificação final. Seguem-se cerca de 13,5 quilómetros quase planos até à meta.
O que esperar
No ano passado, Tadej Pogačar despachou todos os rivais e chegou à meta sozinho. Este ano, o cenário provável... é o mesmo. Pogi é o claro favorito para esta corrida. Depois de ter feito o "impossível" ao descarregar Mathieu Van der Poel no Poggio e vencer a Milano - Sanremo, tem tudo para despachar novamente a concorrência.
Na segunda linha de luxo, Mathieu van der Poel, Wout van Aert, Mads Pedersen e (em dia sim) Remco Evenepoel têm mais ponta final numa chegada em plano que Pogačar. E atenção: Remco Evenepoel, na sua melhor condição, pode ser o Pidcock da Ronde.
Para Pogi vencer à vontade, a estratégia passará por fazer uma corrida difícil e chegar à última subida do Oude Kwaremont com o menor número de adversários possível, antes do ataque decisivo. Idealmente, com uma boa performance de Florian Vermeersch e António Morgado, a UAE tem capacidade para que este cenário se concretize.
Mas podem sempre acontecer imponderáveis (quedas como a de Van der Poel no ano passado) e as outras equipas vão tentar antecipar-se às jogadas na UAE. A Red Bull está com um bloco muito forte de clássicas, sempre com vários ciclistas na frente nas fases finais da corrida. Em termos de bloco, são superiores à UAE. Remco vai fazer uso deste grupo para estragar as contas à equipa dos Emirados. E cuidado com os ataques antes da fase decisiva: Gianni Vermeersch e Tim Van Dijke vão obrigar a UAE a desgastar-se mais do que o previsto.
A Visma, embora já sem o fulgor de outros tempos, também poderá entrar neste jogo. Hagenes e Laporte têm andado bem e são dois bons escudeiros de Wout van Aert. Ou seja, a melhor chance seria todas estas equipas (Visma, Lidl, Red Bull) se unirem numa espécie de aliança anti-UAE para deixar Pogačar isolado o mais cedo possível. Uma tarefa difícil, mas não inteiramente impossível.
Dito isto, independentemente dos cenários, Pogačar está numa forma do caraças e, mesmo sozinho, tem tudo para arrancar num berg qualquer e rebentar com a concorrência.

Favoritos
Tadej Pogačar — Não há muito mais a acrescentar. É não só o claro favorito como o vencedor final. Sem azares, leva mais uma Ronde para casa e está cá para o ano para desempatar vitórias com van der Poel.
Mathieu Van der Poel — Hesitei em colocá-lo como favorito, mas a verdade é que Mathieu é dos poucos que se pode gabar de já ter batido por mais que uma vez Tadej Pogačar em competição sem ajuda de fatores extra. Não gostei do seu desempenho em Sanremo. Se quebrou no Poggio para Pogi, então quebrará aqui ainda com mais facilidade. Mas vamos acreditar que foi um dia mau.
A não perder de vista
Remco Evenepoel — Uma presença surpresa (para nós, o zé povinho; dentro da Red Bull, isto era objetivo desde que foi contratado). É um joker que vem baralhar as expetativas desta Ronde. Vem de um desempenho positivo na Volta a Catalunha - mesmo sem vitórias - e chega aqui em boa forma. Convido-vos a verem highlights da vitória na segunda etapa da Volta à Bélgica de 2019. Vão perceber o que quero dizer.
Wout Van Aert — Está em boa forma e parecido ao velho Wout, só que não ganha. Acontece sempre alguma coisa: apanhado no último quilómetro na Gent, na reta da meta na Dwars... existe algum ciclista mais azarado que ele? Mesmo assim, tem tudo para ser um dos protagonistas e candidato ao pódio. Wout é Wout e, num dia super, consegue bater qualquer um. Não seria novidade.
Mads Pedersen — Num patamar inferior aos restantes, Pedersen tem tido uma época para esquecer com lesões e doenças. Mas sempre que correu, esteve a um bom nível, mesmo que inferior ao do ano passado. Não esperamos um super Pedersen, mas um Pedersen de pódio já não é nada mau.
Apostas falso plano
André Dias — Evan der Poel o primeiro a chegar, o Diogo o primeiro a sair.
Fábio Babau —Wout Van Aert. Azar mais azar é igual a sorte.
Henrique Augusto —O melhor dos Jonas. Viking Abrahamsen ❄️.
O Primož do Roglič — Remco que não é mentira nenhuma.
Miguel Branco — Remco. A verdade da mentira.
Miguel Pratas — 2/5 Pog.
Nuno Gomes — Mvdp 1 - Poga 1.
Nuno Silva — Pogishow.
Rogério Almeida — Vai Remco, a derrota é tua.
Vítor Ferreira — Team Evanepoel.