Antevisão — Tirreno-Adriatico
Uma semana de clássicas. É pouco bom é.
Introdução
Sempre tive um fraquinho pelo Tirreno. Quando a maior parte dos olhos estão postos em Paris durante esta semana, eu sempre fiz um esforço para ser estrábico durante estes 7 dias em inícios de março. Também gosto do Paris-Nice, claro, eu no fundo gosto mesmo é de ver gente a matar-se a andar de bicicleta, já devem ter percebido isso.
Esta edição promete bastante. A organização apostou num percurso anti-domínios de aliens, removeu as chegadas em alto a sério e temos praticamente uma semana de etapas corridas sempre em jeito de clássica. Se isto é uma receita para o sucesso? Eu diria que sim. Alta montanha é overrated, bros. Os classicómanos responderam à chamada e além de Alaphilippe temos outros nomes menores como Mathieu van der Poel e Wout van Aert. Se a corrida for estranha o suficiente, quem sabe se podemos até ver Pippo Ganna, 2.º classificado da edição transata, a quebrar o jejum italiano que já dura desde 2013, quando o Tubarão de Messina não deixou o Tridente sair de terras transalpinas. Ainda assim, os favoritos são outros, são os clássicos GC guys, mas deixem-me sonhar.
Eu estou entusiasmado, espero que vocês também. Vamos lá então analisar em maior detalhe a semana que temos pela frente. Uma semana para racers, como o meu povo gosta.

O percurso
Etapa 1 (ITT) — Se está bom, não mexe. O clássico esforço individual a abrir a semana mantém-se inalterado e também não vejo que o vencedor sofra alguma alteração. Ganna de azul, organizadores contentes. Entre os principais favoritos à vitória final, a história diz-nos que as diferenças aqui não são particularmente relevantes para o desfecho final da prova, mas é sempre melhor arrancar à frente do que atrás.

Etapa 2 — Esta longa jornada conta com uns 70 quilómetros finais infernais de sobe e desce que deixam o melhor para o fim. Um bocadinho de sterrato que nos levam ao quilómetro final a 7%. MvdP for MVP.

Etapa 3 — É um sprint, acho eu. Mas se quiserem mais informações vão ter de perguntar aos atacantes de serviço que podem perfeitamente armadilhar isto e deixar os Milans e Magniers desta vida a conversar alegremente num grupetto. A corrida são os corredores que a fazem, e este dia é um bom exemplo disso. Pode ser tudo, pode não ser nada.

Etapa 4 — Tour of Guangxi vibz no Tirreno, adoro. Dois belos e extraordinários e incríveis falsos planos gigantes abrem o apetite do dia. Depois mais sobe e desce, no terceiro dia consecutivo acima dos 200 quilómetros, com destaque para o kick final. Tortoreto (1.5km a 8.4%) deixará os ciclistas a uma dezena de quilómetros da meta e tem tudo para ser o key point da jornada.

Etapa 5 — Esta malta vai ficar enjoada de tanto sobe-e-desce ao longo da semana. Já estive em montanhas russas cujos percursos eram mais planos. Há uma montanha mais ou menos a sério a meio do dia e depois entramos num terreno diabólico, sem períodos de descanso. Destaque para a subida ao Santuário del Beato (conta com um quilómetro final acima dos 9%) que deverá assistir às principais decisões do dia. Será ultrapassada por duas vezes, a última praticamente coincidindo com a meta.

Etapa 6 — Aqui é que a porca (e por porca leia-se Van der Poel/Ganna/Van Aert) pode torcer o seu belo traseiro. É verdade que não é bem alta montanha e que a subida mais longa a Sassotetto (13km a 7.3% - maior dificuldade de toda a semana) se encontra muito longe da meta, mas se quiserem descartar estes classicómanos aqui será o local perfeito. Caso queiram adiar o problema, a tripla passagem pelo paredón de Camerino deve resolver a questão. O último quilómetro a 12% deverá coroar o novo dono do Tridente que serve de troféu a esta prova. Até choram.

Etapa 7 — Depois de terem obrigado os homens a sofrer até aqui, sejam gentis, não inventem, e deixem a malta rápida divertir-se e discutir entre si a vitória.

O que esperar
Como já perceberam, eu acho que a forma como o percurso está desenhado nos proporciona a possibilidade de sonhar com vários desfechos, e eu sou daquelas pessoas a defender (opinião polémica) que não se saber quem vai ganhar as provas antes delas começarem dá assim um gostinho extra. Apesar desta esperança, acho que no fim de contas vão ser os homens convencionais a levar a melhor, mas não sem antes sofrerem um bocadinho e apanharem uns sustos.
Conto com uma corrida de certa forma dividida em duas partes. Uma primeira até à etapa 5, onde penso que me encontrarei refastelado no sofá a assistir a ataques e contra-ataques numa corrida bastante anárquica e imprevisível na luta por cada uma das mini-clássicas. E uma etapa 6 onde a GC se irá efetivamente definir, com os principais nomes desse departamento aqui presentes a fazerem valer o seu estatuto. Apesar de dizer que são duas partes, é naturalmente impossível desassociá-las uma da outra, porque as diferenças formadas nos primeiros dias (nomeadamente através de bonificações e do contrarrelógio) serão fundamentais para definir as dinâmicas que marcarão a etapa rainha do próximo sábado. Além disso, não descarto ver alguns favoritos serem apanhados no meio do caos e terem de esperar até ao próximo ano para procurarem obter um bom resultado aqui.
Além dos nomes que já mencionei e dos nomes que irei mencionar na próxima secção, queria deixar aqui alguns avisos sobre mais malta que conto ver andar bem. Ciccone, Carapaz, Lapeira, Jan Christen, Ben Healy, Buitrago, Tobias Johannessen e Van Wilder serão animadores desta corrida e podem almejar não só a lugares de top-5 como também a surpreender levantando os braços num dos dias caóticos. E deixar um abraço para Jonathan Milan e Paul Magnier, que ou muito me engano ou vão andar a ver passar navios até ao último dia. Dos homens rápidos, há alguns com mais resistência e que podem entrar em ação antes. Refiro-me a gente como Jasper Philipsen, Corbin Strong, Tobias Lund Andresen, Arnaud de Lie e Danny van Poppel que têm aqui a oportunidade de, deixando para trás os mais puros velocistas, vencerem numa prova deste calibre.
Informação final e essencial: Alessandro Pinarello estará à partida, pelo que o falso plano já tem um favorito no seu coração.
Favoritos
Isaac del Toro — Está na sua época de afirmação e depois de se ter estreado a vencer provas por etapas WT nos Emirados, este pode ser mais um passo em frente para o prodígio mexicano. Adora este tipo de terreno acidentado, é super explosivo e parte como o principal favorito à vitória final.
Matteo Jorgenson — Nos últimos dois anos andou a correr nesta semana mas em França. E os mais atentos sabem no que resultaram essas duas participações no Paris-Nice: duas vitórias da classificação geral. O americano adora aproveitar a liberdade quando lhe é concedida, deverá ganhar vantagem aos rivais no contrarrelógio e sente-se como peixe na água neste terreno meia ganga. A meu ver, o principal adversário do Torito.
A não perder de vista
Primož Roglič — Sabem aquele meme do Bart a escrever mil vezes a mesma coisa num quadro? Claro que sabem. É isso só que sobre descartar Roglão das contas e dizer que ele já está com os pés para a reforma. Ele renasce, surpreende, usa e abusa da sua experiência e frieza para conseguir continuar a encontrar caminhos para o sucesso. Numa hierarquia cada vez mais apertada dentro da equipa, tem aqui uma boa oportunidade para mostrar que ainda tem direito ao seu espaço, e logo num percurso que se tivéssemos em 2021 a vitória seria quase garantida.
Antonio Tiberi — Belo inicio de época do italiano que fechou o pódio da edição transata. Acho que preferiria um pouco mais de dureza mas também se pode bater bem aqui e será dos melhores na etapa inaugural.
Giulio Pellizzari — Mais um italiano com qualidade. Mais um italiano que preferiria mais montanha mas que terá a sua palavra a dizer.
Filippo Ganna — Se não fosse a etapa 6 eu acho que ele até podia ganhar a geral. O ano passado fechou na 2.º posição mas temo que a explosividade necessária nesse dia o irá tirar dessa discussão. Ainda assim, grande candidato a andar quase toda a prova com a camisola de líder e já se sabe que muitas vezes a camisola de líder faz os ciclistas superarem-se e atingirem níveis teoricamente inimagináveis.
Mathieu van der Poel — Eu acho que ele pode ganhar as etapas 2,3,4 e 5. Se o tivermos aqui focado, pode ser uma grande semana para o senhor que já mostrou na Omloop ter a forma necessária. É sempre um pouco como o melão nas provas por etapas, às vezes parece que não lhe apetece. Mas com estas subidinhas todas tão boas para ele, eu acho que lhe vai apetecer muito e ficaria surpreendido se não ganhasse por múltiplas ocasiões. E, quem sabe, na loucura absoluta, ainda dar uma perninha na GC final.
Wout van Aert — Já aqui fez 2.º, em 2021, naquele que foi o grande momento do potencial projeto "Wout GC" que depois nunca se realizou. Eu gostei do que vi das suas pernas na Strade, pelo que estou muito curioso em relação à sua semana. Poderemos vê-lo frente a frente com o seu amigo MvdP e, se o seu sprint estiver de volta, aproveitar os grupos reduzidos para se estrear a vencer em 2026.
Julian Alaphilippe — SE FOSSE 2020 ELE LIMPAVA ISTO FÁCIL. Na minha cabeça ainda é 2020 e na dele também. E acho que será sempre.
Apostas falso plano
André Dias — Sei lá, manos, acabei de vir de Itália e estou uma desgraça. O Pinarello vai a esta?
Fábio Babau — Os votos de um feliz aniversário a este membro do falso plano.
Henrique Augusto — Jorge(nson). Agora decidi que são todos portugueses.
O Primož do Roglič — Matteo Augustenson.
Miguel Branco — Torito. Agora não vai deixar ninguém ganhar.
Miguel Pratas — Tritão Del Toro.
Nuno Silva — Nao está cá o Paulo por isso vai ser o Isaac.
Rogério Almeida — Vai Jorjão que esta é tua.
Vítor Ferreira — Isaac Jorglic.