Antevisão — Tour Down Under

Ivo vencedor da primeira etapa World Tour de 2026? Elementar, meu caro Watson.

Antevisão — Tour Down Under
Santos Tour Down Under

Introdução

Após meses de seca regada a pó, lama, areia e neve do ciclocross, o ciclismo está de regresso! Se os nossos antípodas, os australianos, são sempre dos primeiros a entrar no novo ano, no ciclismo a lógica é exatamente a mesma. Também eles são dos primeiros a abrir oficialmente a nova temporada, com o Tour Down Under já mesmo à porta.

É certo que esta é a primeira prova do WorldTour, mas atenção: o ciclismo já anda na estrada há alguns dias. Os campeonatos nacionais australianos já ocorreram, tal como a Vuelta a Táchira. Ainda assim, quando falamos de WorldTour, o primeiro capítulo escreve-se sempre na Austrália, com o Tour Down Under. Uma edição publicitada pelos organizadores como a mais dura de sempre, a verdade é que não faltarão oportunidades para haver espetáculo sob o calor do verão australiano.

Uma edição que conta com o vencedor do ano passado Jhonatan Narváez e o de 2023 Jay Vine. Ambos na mesma equipa, será que o equatoriano conseguirá fazer a dobradinha ou o possível tempo perdido no prólogo revelar-se-á decisivo? O que é certo é que a UAE com Vine e Narváez parte com os principais favoritos e pode começar já a amealhar vitórias rumo ao objetivo das 100, que escapou por pouco em 2025.

Jhonatan Narváez vencedor do ano passado foi o mais forte na já mítica Willunga Hill. (foto: gettyimages)

O percurso

Prólogo — Tal como em 2023 a organização optou por um prólogo plano na cidade de Adelaide, no entanto, em vez de 5 quilómetros e meio, este ano será apenas 3 quilómetros e 600 metros. Uma redução que favorece os velocistas. Haverá algumas curvas ao longo do percurso, ainda assim, o que contará mais será a potência.

Adelaide - Adelaide (3.6km)

O percurso em Adelaide.

Etapa 1 — A primeira etapa em linha termina e começa em Tamunda, um percurso já bem tradicional do Down Under com a Mengler Hill (2.1 km a 3,4%) a ser ultrapassada três vezes. Uma dificuldade que não assusta os sprinters e tudo aponta para uma chegada em sprint massivo tal como em anos anteriores.

Tamunda - Tamunda (120km)

Etapa 2 — A segunda etapa começa e termina nas mesmas localidades que na terceira etapa da edição do ano passado, Norwood e Uraidla, com uma quilometragem semelhante (148,1 km 2026; 147,5 km 2025). A diferença será no percurso. Este ano vamos ter a subida de Corkscrew (3,6km a 6,7%) a ser ultrapassada duas vezes, sendo que a última deixa os ciclistas a 13 quilómetros da meta. As dificuldades não se regem apenas por esta montanha, é uma etapa com um perfil de sobe e desce com topos duros que prometem uma corrida ofensiva e que pode já começar a definir a geral.

Norwood - Uraidla (148km)

Etapa 3 — A terceira etapa entre Adelaide e Nairne traz-nos um percurso com algumas colinas marotas que podem estragar os planos de alguns sprinters. Muita atenção em especial para uma subida de 700 metros localizada entre o quilómetro 137.1 e 137.8 com pendentes entre os 6 e os 12% que deixa os ciclistas apenas a 3 km da meta. Cuidado com os ciclistas do tipo caça etapas atacantes que podem tirar a vitória aos corredores mais rápidos.

Adelaide - Nairne (141km)

Etapa 4 — Tradicional etapa rainha com a chegada ao topo da famosa Willunga Hill (3.2 km a 7,5%). Este ano será ultrapassada 3 vezes, a primeira bastante longe da meta, mas as últimas duas vão certamente aquecer ainda mais a corrida. Quanto à geral, é teoricamente a etapa com maior potencial para decidir, porém, como vimos em edições anteriores, não é incomum os principais favoritos chegarem juntos ou com diferenças de segundos alargadas apenas pelas bonificações. Deste modo, os ciclistas que saírem mais prejudicados do prólogo e que ainda se encontrarem com pretensões na geral terão de correr da maneira mais ofensiva possível para conquistar a primeira corrida World Tour da época

Brighton - Willunga Hill (176km)

Etapa 5 — Para terminar, vamos ter um percurso com 8 passagens pela colina de Stirling (2 km a 3,7%). Um trajeto que favorece claramente os puncheurs nomeadamente pelo final ser de 400 metros a 4,9%. Este circuito foi utilizado mais recentemente na corrida feminina de 2025 onde após 4 voltas Chloe Dygert levantou os braços. Vão haver bonificações à chegada e dependendo do quão apertada possa estar a geral, esta etapa poderá ainda ter um papel nesse campo.

Stirling - Stirling (170km)

O que esperar

O início de época é sempre imprevisível, com ciclistas em diferentes estados de forma, o que proporciona corridas abertas e animadas. No papel, é um percurso que convida ao ataque e incentiva uma corrida ofensiva. O prólogo e mesmo a etapa 2 retiram aquela segurança de que quem vencer na Willunga Hill vence a geral. Não esperem grandes diferenças, tudo indica que a geral se vai decidr por segundos, com muitos ciclistas ainda na luta pela vitória final até aos últimos dias.

A UAE Team Emirates parte claramente como a equipa a abater. Têm várias cartas fortes, incluindo vencedores recentes e ciclistas que já demonstraram rendimento neste tipo de percurso. Jay Vine e Jhonatan Narváez destacam-se como candidatos naturais e vão, sem dúvida, atrair grande parte das atenções.

Ainda assim, está longe de ser uma corrida controlada por uma só equipa. Nomes como Luke Plapp, Santiago Buitrago, Finn Fisher-Black, Javier Romo, Adam Yates (colega de Vine e Narváez) e Lennert Van Eetvelt merecem também destaque, entre outros. O leque de candidatos é alargado e há muitos ciclistas capazes de fazer uma boa classificação geral.

Tal como a organização sublinhou, esta é uma edição exigente. As oportunidades para os sprinters serão poucas, provavelmente apenas a primeira etapa em linha se adapta verdadeiramente aos velocistas puros. As restantes etapas apresentam sempre algum grau de dificuldade, o que deve impedir um controlo total do pelotão e favorecer a combatividade.

O percurso foi desenhado para promover a corrida e promete um início de temporada de WorldTour animado e com bom espetáculo.

Favoritos

Jhonatan Narváez — Vencedor do ano passado, poderá perder algum tempo no prólogo, mas os restantes dias assentam-lhe que nem uma luva.

Jay Vine — Vencedor da edição de 2023, corre em casa e está em boa forma pois sagrou-se campeão australiano de ITT recentemente com facilidade.

Santiago Buitrago — Sim é colombiano, mas não é tão mau contrarrelogista quanto isso. Caso se consiga defender no prólogo, é um nome a ter em muita atenção, por norma começa bem a temporada e tem a explosividade necessária para este percurso. Para além disto vai correr os campeonatos da Colômbia no inicio de fevereiro, um grande objetivo para ele, tem tudo para já estar em excelente forma aqui.

A não perder de vista

Finn Fisher-Black — O nosso pescador favorito tem aqui uma boa oportunidade para brilhar, foi terceiro o ano passado e tem aqui novamente um percurso perfeito para ele. Falta-lhe ainda alguma regularidade, mas com os astros alinhados, vai brilhar.

Luke Plapp — Claro que não podia escapar neste artigo um ciclista da casa que corre pela equipa da casa. Teve umas declarações surpreendentes durante a pré-época onde revelou que quer ser um voltista. Nada melhor que começar já a dar cartas nesta corrida para levarmos a sério este desejo.

Javier Romo — Chegou a andar o ano passado com a camisola da liderança e só a perdeu na Willunga Hill, concluindo a corrida em segundo. Desde que chegou ao conjunto da Movistar tem evoluído de ano para ano e quer certamente evoluir no histórico desta corrida.

Apostas falso plano

André Dias — À falta de Zac Marriage, GC Narváez vira tudo ao contrário.

Fábio Babau — Lennert Van Eetvelt.

Henrique Augusto — Seguro que vence Plapp.

O Primož do Roglič — Jay voa, voa.

Miguel Branco — Corbin Strong. Em direcção ao top-10 no Tour.

Miguel Pratas — É o tri para Jay Nárvaez.

Nuno Gomes — 2026 cheira a boa colheita de Vine.

Nuno Silva — Jay Vine o homem que antecedeu ao Tiktok (Vine).

Rogério Almeida — Claro que tinha de apostar em Joris Nieuwenhuis.

Vítor Ferreira — Nárvaez a dar hipóteses.