Antevisão — UAE Tour

Vento, colinas a meio de etapas, nova chegada em alto, esta edição é Uaué.

Antevisão — UAE Tour
UAE Tour

Introducão

Emirados Árabes Unidos, um país que até à descoberta do ouro negro era conhecido por ser um país simples, cheio de areia, atualmente é um dos países mais exóticos do mundo. Olho para a edição deste ano e é incontornável não fazer a comparação entre o desenvolvimento da corrida e do país que a organiza. Esta corrida, inicialmente conhecida como Dubai Tour era uma corrida tranquila, praticamente 100% plana, um verdadeiro oásis para os sprinters como Mark Cavendish e Marcel Kittel que venceram a geral desta competição (Kittel por duas vezes seguidas). Desde então a corrida tem evoluído, apareceram as montanhas Jebel Hafeet e Jebel Jais e os contrarrelógios (por equipa e individuais). Este ano a organização esmerou-se em tornar esta corrida bastante diversificada.

Como informei no nosso estimado videocast, a presente edição do UAE Tour vai ser a mais dura de que há memória. Uma chegada em alto nova em Jebel Mobrah, que é uma montanha que faz parecer a Green Mountain de Omã uma montanha para sprinters. Temos também um contrarrelógio, duas etapas de sobe-e-desce para todos os gostos (primeira mais ao estilo clássicas belgas, segunda mais clássicas de Maiorca) e para rematar a Jabel Hafeet, os sprinters Mareczko vão ter apenas duas de sete etapas para brilhar, e é se o vento deixar.

No ano passado tivemos um cenário já habitual: Tadej Pogačar a celebrar a vitória na geral. (Foto: UAE Tour)

O percurso

Etapa 1 — Tal como em 2025, o início da corrida faz-se de Madinat Zayed Majlis até Liwa Palace (144 km). É uma etapa que tem uma fase inicial fácil, mas a partir do quilómetro 60 entramos numa zona de várias pequenas colinas que podem complicar as contas a alguns sprinters puros. De destacar também o final em ligeiro punch (1,4km a 4,2%) que abre a possibilidade não só a sprinters como Jonathan Milan que venceu aqui o ano passado, mas como também a puncheurs estilo Finn Fisher-Black que fez segundo após a relegação de Jasper Philipsen.

Madinat Zayed Majlis - Liwa (144 km)

Etapa 2 (ITT) — Continuamos a copiar o roteiro do ano passado com um contrarrelógio em Hudayriyat Island de 12.22 quilómetros (tal como em 2025). É uma etapa 100% plana onde os puros contrarrelogistas têm tudo para brilhar e onde Remco vai garantir não só a etapa como assumir a liderança, adquirindo tempo que poderá ser decisivo para a vitória na geral.

Hudayriat Island - Hudayriat Island (12.22 km)

Etapa 3 — A maior novidade e a etapa que gera mais expectativa desta edição. Os ciclistas vão ter de ter cuidado com o vento, mas mal cheguem ao quilómetro 169,5 vão desejar que fosse uma etapa plana com vento até ao fim. A Jebel Mobrah faz a sua estreia no ciclismo internacional, é uma montanha de 13,2 quilómetros a uma média de 8,1% onde os últimos 6 quilómetros tem uma média sempre acima dos 11%, exceto no último onde passa a "apenas" 9%. O Angliru das Arábias promete dar espetáculo — etapa imperdível.

Umm Al Quwain - Jebel Mobrah (193 km)

Etapa 4 — As novidades continuam. Desta vez um circuito em Fujairah com bastante sobe-e-desce. As subidas não são extremamente duras, mas podem complicar a vida a alguns sprinters e aumentar as chances de uma fuga triunfar.

Fujairah - Fujairah (182 km)

Etapa 5 — Finalmente uma etapa inclusiva para todo o tipo de sprinters, 100% plana. Vamos ver que papel terá o vento neste dia corrido junto à costa.

Dubai (Al Mamzar Park) - Hamdan Bin Mohammed Smart University (166 km)

Etapa 6 — Dia da tradicional subida a Jebel Hafeet. Muitas vezes decisora da classificação geral, este ano poderá ter ainda esse papel, no entanto, acredito que já haja diferenças significativas antes da montanha e que o lote de potenciais vencedores à geral esteja significativamente reduzido.

Al Ain Museum - Jebel Hafeet (168 km)

Etapa 7 — Última etapa desta corrida, é um rebuçado para os sprinters que estiverem em competição, vamos ver é se o vento não os põe fora de prazo de validade.

Abu Dhabi (Zayed Museum) - Abu Dhabi (Breakwater) (149 km)

O que esperar

Ao contrário do ano passado, em que a presença de Tadej Pogačar tornou a luta pela geral uma mera formalidade, este ano podemos ter disputa até Jabel Hafeet. Remco Evenepoel parte teoricamente como o principal favorito à vitória, porém a combinação Jebel Mobrah e Isaac Del Toro podem tornar-se um grande desafio para o belga. Mesmo que Remco ganhe alguns segundos ao mexicano no crono (o que será natural), não será suficiente para fazer um resto de corrida descansado e tudo aponta para termos o primeiro grande duelo de montanha da temporada.

Muito se fala de Del Toro e já há quem diga que ele é melhor que Remco na alta montanha, no entanto, se analisarmos friamente os resultados, Remco quando em boa condição não perde chegadas em alto para Giulio Ciccone. Naturalmente que Del Toro sendo mais novo tem mais potencial e tem tudo para evoluir e até acredito que se consiga tornar melhor que Remco na alta montanha já esta época (Tour), mas para o UAE ainda acho cedo.

Dito isto não vamos ter só estes dois craques, Adam Yates colega de Del Toro e ex-vencedor da corrida, também marca presença e vai ter um papel importante. António Tiberi já provou estar em boa forma, Derek Gee quarto no Giro da época passada, Tobias Halland Johannessen sexto e Felix Gall quinto no Tour 2026. Estes nomes, aos quais até poderia acrescentar outros, prometem dar boa luta pelo pódio.

Já no capítulo da velocidade, a alteração de trajeto fez-se sentir no nível de sprinters aqui presente. Esta prova, que era antes vista como um género de campeonato do mundo de velocistas, tem talvez a startlist menos imponente de que existe memória neste capítulo.

Destaca-se a presença de Jonathan Milan o único dos big four (Merlier,Milan, Philipsen, Kooij), com o seu habitual comboio. Milan parte como principal candidato a todas as chegadas ao sprint e, naturalmente, à camisola dos pontos. No entanto, já vimos Milan a ser batido por sprinters que não pertencem ao clube dos quatro, por exemplo Matteo Malucelli, que vai estar aqui presente após lhe ter ganho uma etapa no Saudi Tour. Temos também outras opções interessantes como Alberto Dainese, Sam Welsford, Sebastian Molano, Erlend Blikra, Ethan Vernon e Gerben Thijssen (destes só Dainese e Thijssen não venceram esta época). Destacar ainda alguns jovens com potencial, como Daniel Skerl, Emmanuel Houcou, Steffan De Schuyteneer e Matteo Milan. Este último é irmão de Jonathan Milan, tem muito potencial e acredito que possa dar já um ar de sua graça aqui. Por fim, temos Jakobsen e Casper Van Uden.

Concluo que esta corrida tem todos os ingredientes para dar um bom espetáculo, por isso aproveitem e tentem ser camelos porque se forem beber água, podem perder um momento importante da corrida.

Favoritos

Remco Evenepoel— Ano novo, equipa nova para o prodígio ex-novo Merckx. Remco Evenepoel tem voado por todas as corridas que tem feito durante esta temporada, porém, este vai ser o seu primeiro grande teste não só pelo percurso como pela concorrência. Parte como principal favorito, mas não me agradou não ter conseguido deixar para trás com facilidade Mathys Rondel (bom ciclista) numa das corridas de Maiorca.

Isaac Del Toro — Craque mexicano, que já teve o seu nome envolvido em algumas polémicas entre falsoplanistas relativamente ao top 5 de melhores ciclistas da época passada, parte como o principal rival de Remco. Vai perder algum tempo no crono, mas nada de preocupante,

A não perder de vista

Antonio Tiberi — Não é o ciclista mais pet friendly, mas é um voltista talentoso, andou muito bem em Valência e foi curiosamente no UAE, em 2023, terminando em sétimo, que começou a mostrar todo o seu potencial de voltista. Por fim, um fun fact é o facto de o apelido de Tiberi fazer alusão ao imperador romano Tibério, um governador competente, mas não muito popular. Podemos então dizer que Tiberi mantém a tradição que vem com o nome.

Derek Gee — Depois de um nono lugar no Tour de 2024, Gee fez quarto no Giro de 2025, a correr por uma equipa de segundo escalão. Agora na Lidl-Trek Gee quererá aumentar a parada. Ainda assim, preocupa-me estar sem competir desde junho do ano passado, pode acusar alguma falta de ritmo.

Tobias Haaland Johannessen — A principal figura da Uno-X, o nórdico está a provar todo o potencial que demonstrou ao ganhar o Avenir. Fez sexto no Tour do ano passado e parece estar finalmente a subir de rendimento.

Felix Gall — O esforço individual vai ser um problema, mas a nova montanha facilita as hipóteses do sólido trepador austríaco de terminar no pódio.

Adam Yates — Vem de uma Volta a Omã desapontante onde se esperava que vencesse com tranquilidade, terminou em terceiro atrás dos C(h)ristians e Astanas Scaroni e Rodriguez. No entanto, Yates já venceu esta corrida no passado, corre pela equipa da casa e é um dos melhores trepadores em competição que pode ser uma alternativa a um eventual infortúnio do seu colega Isaac Del Toro.

Ilan Van Wilder — Dos que mais agradeceu a saída de Remco, Van Wilder é um ciclista ambicioso que sempre quis ter as suas oportunidades. Nada melhor que no UAE frente ao seu antigo líder.

Jonathan Milan — Tem tudo para ser o rei dos sprints nesta edição e vencer a camisola dos pontos tal como em 2025.

Matteo Malucelli — Já bateu Milan esta temporada, Malucelli parece estar cada vez melhor de ano para ano, apesar de já não ser nenhum miúdo. Curiosamente a sua segunda vitória como profissional foi em Lisboa na Volta a Portugal de 2015, na altura corria por uma equipa cheia de ideias, a team Ideia 2010.

Apostas falso plano

Henrique Augusto — Remco limpa o Angliru e a GC

O Primož do Roglič — Remco, só porque há contrarrelógio. Se não era Del Toro.

Miguel Branco — Isaactamente

Miguel Pratas — Derek Hafeet

Nuno Silva — Remco a tocar o Remco reco no topo de Jebel Hafeet.

Rogério Almeida — Gall vence a solo.

Vítor Ferreira — Remco arruma a geral em Al Hudayriat Island.