Antevisão — Volta a Catalunya
Finalmente uma prova de World Tour com dureza a sério.
Introdução
A prova de uma semana do primeiro escalão mais antiga acontece desde 1911 e costuma ser das primeiras corridas disputadas em solo europeu onde temos verdadeira alta montanha. Este ano curiosamente, com o percurso punch do Tirreno e o mau tempo no Paris Nice, acaba por ser aqui a estreia das verdadeiras chegadas em alto de corridas World Tour europeias.
O ano passado tivemos a vitória de um senhor que já está em pré-reforma Primož Roglič, que bateu o “simpático” bebé promessa Juan Ayuso e o ciclista que originou a melhor página de sempre do X espanhol, Ataque de Enric, Enric Mas. De resto convido-vos mesmo a dar uma espreitadela na página https://x.com/EnricAttack , "Suenan las trompetas ataca la Enriqueta".
O percurso este ano, caso o tempo deixe, acaba por ser algo semelhante ao do ano passado. Contando que a chegada a Queralt se irá realizar desta vez, vamos ter três chegadas em alto exigentes. Uma etapa em sprint punch, duas etapas que tanto podem acabar em sprint como em fuga e o tradicional circuito em Barcelona como cereja no topo do espetáculo que tem sido para esta competição.
Não vai estar presente o detentor do título Primož Roglič, mas o seu novo colega, o ex-futuro-Merckx Remco Evenepoel parte com ambições de dar a vitória novamente à Red Bull. Isto se a neve permitir, pois o talento belga está retido em cima do monte Teide em Tenerife devido a um nevão. Depois do ar condicionado estragado agora a neve?
No entanto podem estar descansados porque caso não tenhamos Remco, quem vai cá estar de certeza é Jonas Vingegaard. Venceu recentemente o Paris-Nice em modo fácil e vai ter como principal adversário um velho conhecido, João Almeida. O português já teve a sua gripe habitual pelo que também podemos dizer que é seguro que se vai apresentar no início da corrida. Dito isto, haverá outros excelentes nomes a ter em atenção pela luta da geral, nomeadamente o homem que fez pódio na última edição do Tour e venceu a juventude, Florian Lipowitz (por ele podia continuar a nevar em Teide certamente). O único a aguentar com Pogačar em San Remo, Tom Pidcock, e depois outros nomes como Richard Carapaz Felix Gall, Matthew Riccitello, Lenny Martinez e Oscar Onley. Nota também para o facto do "Landismo" presente .

O percurso
Etapa 1 — Começo já bem tradicional com a chegada a Sant Feliu de Guixols. São 600 metros a 4,2%. Um sprint punch que tem tudo para proporcionar um bom espetáculo tal como em edições anteriores.

Etapa 2 — No ano passado, o pelotão partiu de Banyoles rumo a Figueres no segundo dia, este ano é exatamente o contrário. Ao longo de 167,4 quilómetros vamos ter cerca de 2000 metros de acumulado mas ainda assim espero ver os velocistas a disputar a vitória.

Etapa 3 — Tanto pode dar fuga como sprint. É uma etapa estilo Qinghai, alta montanha no início que se vai tornando mais acessível com o aproximar da meta. Não vejo os favoritos a fazerem diferenças aqui e uma fuga bem coordenada pode ter as suas hipóteses. No entanto, temos aqui alguns homens rápidos que não são nenhuns pinos nas montanhas e as suas equipas vão trabalhar para controlar os escapados.

Etapa 4 — Primeiro dia verdadeiramente duro com a subida até ao Vallter 2000 (não, não é o Attila). São 11,4 quilómetros a uma média de 7,6%. Uma chegada em alto que vai pôr a limpo quem está aqui com pernas para vencer. O último vencedor aqui foi o astro Pogačar, será que João Almeida vai pedir conselhos ao esloveno?


Etapa 5 — Se na véspera foi duro, então aqui mais duro será, naquela que é a etapa rainha desta corrida. 5 montanhas categorizadas com final em alto no Coll de Pal (16.4 quilómetros a 7,2%). É uma etapa digna de grande Volta e atenção que as montanhas desta etapa são duras e com pendentes pouco constantes, algo que não será do agrado de João Almeida.


Etapa 6 — Como se não bastasse, os ciclistas têm novamente etapa dura. 3 primeiras categorias, com chegada em alto. Foi esta etapa que não se realizou no ano passado por mau tempo, felizmente para nós e para os ciclistas de geral, este ano o tempo parece ser mais clemente. Se ainda não tivermos a geral decidida, podemos contar com uma etapa muito atacada feita a um ritmo alucinante, algo cada vez mais normal no ciclismo atual.


Etapa 7 — Última etapa no tradicional circuito de Montjuic em Barcelona. Dada a natureza deste percurso tanto pode ganhar um ciclista que esteja bem posicionado na geral como um ciclista de fugas ou até um puncheur sprinter, o que é garantido é o espetáculo pois esta chegada nunca desilude.

O que esperar
Se no ano passado tivemos essencialmente uma luta entre Primož Roglič e Juan Ayuso, com Enric Mas, Mikel Landa e companhia a assistirem de perto, este ano poderemos ter um domínio de Jonas Vingegaard. Teoricamente é o grande alvo a abater desta corrida, está em grande forma e leva o seu gregário favorito Sepp Kuss. Porém, o facto de não ter conseguido despachar Lenny Martinez na última etapa do Paris-Nice, deixou-me um pouco preocupado com o dinamarquês. Aqui a competição será mais forte, tal como o perfil das etapas. Vingegaard é Vingegaard, mas acredito que não seja tão fácil levar a geral aqui.
João Almeida tem aqui uma corrida com um percurso favorável às suas características e vai querer já começar a ganhar a Vingegaard, ainda antes do Giro, nem que seja pelo fator psicológico. Já o vimos bater o dinamarquês o ano passado na Vuelta, por que não novamente? Com Brandon McNulty e Jay Vine, o português estará bem rodeado (esperemos nós), exceto se vierem com ambições próprias. De qualquer forma na minha opinião parte como o principal adversário de Vingegaard.
No entanto, se há aqui um bloco forte esse é o da Red Bull-BORA-hansgrohe, que conta com Remco Evenepoel, Florian Lipowitz e Jay Hindley. Muito curioso para saber o que fará Evenepoel, já que começou a temporada com sete vitórias mas no UAE Tour precisava de um ar condicionado portátil enquanto subia. Remco vem de treino em altitude o que tanto pode ser bom como mau, pois há ciclistas que não lidam muito bem com competições logo a seguir a este tipo de camps. Ponto de interesse também será a prestação de Florian Lipowitz. Após um Algarve que serviu para ganhar quilómetros, o alemão tem aqui uma prova à sua medida e sabemos que na sua melhor forma é dos poucos a conseguir acompanhar Jonas Vingegaard.
Convém também chamar a atenção para outro ciclistas. Tom Pidcock provou na Vuelta do ano passado que a alta montanha já não é um problema e tem feito um grande arranque de época, embora mais focado para as claássicas. O objetivo aqui será ganhar quilómetros em alta montanha mas, estando bem, Pidcock não perde uma boa oportunidade de triunfar.
Por fim dar nota também de Mikel Landa, Oscar Onley, Felix Gall, Matthew Riccitello, Richard Carapaz, Lenny Martinez, Giulio Ciccone, Enric Mas, Derek Gee, Lorenzo Fortunato e Cian Uijtdebroeks. Todos eles capazes de poderem disputar a classificação geral, ou os seus lugares honrosos, desta corrida.
Favoritos
Jonas Vingegaard — O principal favorito. Vingegaard provou que está em forma após um final de pré-época atribulado e é o homem que todos vão procurar bater.
João Almeida — Regressa após a sua habitual gripe pré-primaveril e num percurso quase perfeito para ele. Apenas preferia que algumas montanhas fossem mais constantes, mas com três chegadas em alto pedir mais já seria abuso.
Remco Evenepoel - Diz que o UAE Tour o trouxe de regresso à realidade e que trabalhou para melhorar o seu rendimento na alta montanha, vamos ver sequer se a neve o deixa estar aqui presente. Dos favoritos é o mais volátil, tanto pode fazer uma super prova como passar a caça etapas.
A não perder de vista
Florian Lipowitz — No fundo, a sua temporada começa verdadeiramente aqui. É um percurso perfeito para as suas características e para mim é praticamente um favorito, ainda para mais dadas as dúvidas que há em relação a Remco na alta montanha.
Lenny Martinez — Conseguiu acompanhar e ganhar a Jonas Vingegaard a última etapa do Paris-Nice. O pequeno Lenny tem aqui um percurso que não lhe vai proporcionar muitos sobressaltos, pois não há etapas propriamente propicias a cortes no pelotão em momentos inesperados. Falta-lhe consistência, mas estando em dia sim, pode até bater os favoritos desta prova.
Tom Pidcock — Vem para aqui mais numa perspectiva de treino, no entanto, da maneira como anda não me surpreendia se fizesse um top 5. É um forte candidato à vitória na etapa inicial e na final.
Felix Gall — Após um UAE Tour bastante positivo onde terminou em 5.º lugar, após andar bem em ambas as chegadas em alto, o austríaco vai novamente a uma prova com alta montanha, com o beneficio de aqui nem haver contrarrelógio. Sinto que muitas vezes não lhe é dado o devido respeito, pois é um dos melhores puros trepadores da atualidade.
Matthew Riccitello — Venceu uma chegada em alto na neve e não, não foi em Teide, foi na Provença, e não ficou lá retido. Nesse campo já parte em vantagem face a Remco Evenepoel. Vimo-lo fazer um grande trabalho para Paul(o) Seixas no Algarve, acredito que aqui tenha mais liberdade apesar da presença de Gall.
Mikel Landa — O Landismo está de regresso, nas últimas três edições o pior que fez foi quinto lugar. Se espero mais do mesmo em 2026? Tenho algumas dúvidas, mas não quero ser excomungado pelos Landistas.
Oscar Onley — Azarado no Paris-Nice que teve de abandonar devido à queda, começando logo a reunir forças para esta corrida. É um bom percurso para ele e se estiver verdadeiramente recuperado da queda é um forte candidato ao pódio.
Giulio Ciccone — Em grandes voltas Ciccone tem sempre um azar, a Catalunha até pode ter percurso que faz lembrar uma destas provas, mas é só de uma semana, pelo que podemos considerar Ciccone um bom nome a reter para um resultado nos lugares mais elevados da geral.
Apostas falso plano
André Dias — Vai dar Lipo-aspiração.
Fábio Babau — Jonas Vindegrade, porque já estou cansado destes packs de sete.
Henrique Augusto —Visca Ving.
O Primož do Roglič — Ving aqui só dize que ganha o Jonas.
Miguel Branco — Pidders. A caminho do pódio no Tour.
Miguel Pratas — Mais um cromo para a caderneta do Vingegaard.
Nuno Gomes — Muitos tubarões apanhados na rede do pescador Vingegaard.
Nuno Silva — O bacalhau é nosso, mas a Catalunha é dos nórdicos (Vingegaard).
Rogério Almeida —Desculpa estou no Lidl, vim buscar GEElado. Depois falamos.
Vítor Ferreira — É preciso Catalunhas para tocar Almeidarra.