Cycling Fantasy — European Championships ME - RR
A crónica de sete cães a um Remco.
Introdução ou uma breve lição de geopolítica barata
Há muito muitos anos, quando a Eurásia decidiu que era tempo de se fragmentar, deixar partir, aceitar que o nosso corpo pode, muitas vezes, ser maior do que nós e do que o nosso propósito, que aquilo que conhecemos como Europa veio ao mundo. De um lado o Atlântico, do outro o Cáucaso e os Montes Urais como fronteiras físicas e psicológicas de uma civilização que nasceu da Grécia Antiga e que tem mais anos do que a marisqueira O Farol, em Cacilhas, para que se perceba quão idosa é a Europa.
Esta breve aula de geopolítica aconteceu com recurso meramente às memórias do fraco ensino público português que fui obrigado a frequentar, o que também pode significar que está tudo errado; nada que me pareça muito grave na era da inteligência artificial e dos posts de Elma e Kátia Aveiro nas redes sociais. Interessa lá se é verdade. A seu tempo ficaremos a saber toda a verdade.
Bom, onde é que eu ia, apesar da antiguidade da Europa, os seus campeonatos de ciclismo de estrada só se iniciaram em 2016. O facto de Elia Viviani e Giacomo Nizzolo terem sido campeões demonstra bem que estes percursos começaram por ser bem menos duros do que a forma como hoje os conhecemos. Recordo, no entanto, com muito amor, o título vencido pelo enorme Matteo Trentin em 2018, em Glasgow, batendo Van der Poel e Wout van Aert, numa Glasgow bastante mais europeia do que na actualidade, diga-se. Entretanto, a coisa endureceu e estes campeonatos na Eslovénia estavam feitos para El-Rei Tadej Pogačar vir brilhar perante os seus súbditos. Só que não, não é verdade? Será, por isso, muito interessante perceber o que lhes acontecerá.
Análise ao percurso
Ora bem: 85 quilómetros planos antes da entrada no circuito de Šenčur, onde o pelotão vai enfrentar a curta mas temível ascensão de Možjanca (2.1kms a 10.3%) em cinco ocasiões consecutivas. Pelo caminho, zona de estradas rápidas, num circuito que tem na sua totalidade 22 quilómetros. O final, faz-se em plano, e a descida não é particularmente desafiante. O que significa que cada passagem em Možjanca vai ser para partir pedra e deixar tudo na estrada.

O que esperar ou sete cães a um Remco
Sejamos sinceros: Remco Evenepoel é o alvo abater. A ausência do rei (e de outros rivais que estiveram nos Mundiais e se encontram a preparar a Lombardia) faz com que o corredor belga seja, de longe, o principal favorito. E se nos Mundiais os holofotes se dividiam, aqui não há volta a dar, todos os caminhos vão dar a Remco e Remco não esteve propriamente no melhor das suas faculdades junto à Universidade de Montréal. Olhar para esta lista partida é ter a certeza de toda a gente vai estar à espera de Evenepoel — e ele gosta pouco de dar boleias de borla. Será motivo para o belga antecipar a sua movimentação? Ou tendo em conta que a forma não parece ideal e que o seu sprint melhorou muito, podemos ver aqui um Remco conservador (algo quase nunca antes visto)? Vamos ter de esperar por domingo. Os rivais são evidentes e servem para concluir esta antevisão antes de me atirar às escolas da CyclingFantasy App: Giulio Ciccone, Giulio Pellizzari, Cristian Scaroni, Jan Christen, Juan Ayuso e Primož Roglič.
Shortlist falso plano
1200:
- Remco Evenepoel — A pergunta é sempre a mesma: vão arriscar deixar de fora?
- Juan Ayuso — Acredito cada vez mais no Ayuso-classicómano e cada vez menos no Ayuso-voltista. Mas a gente no ciclismo tem sempre esta mania de definir as pessoas e os corredores, em vez de os deixar fazer o que quiserem. A mim também não me dão conselhos sobre o que eu devia fazer ou ser, não é verdade? Bom, tem dias. Onde é que eu ia? Ah, sim, Ayuso, pode correr bem. Mas é 1200. Não ajudei? Desculpem.
- Mads Pedersen — É assim, eu de Mads Pedersen já não digo nada. Em teoria, acho que não, mas eu sei lá, o homem às vezes faz coisas que não estavam escritas. E convenhamos que o facto de a startlist não ser um luxo e de o final ser plano…
1000:
- Primož Roglič — Era bonito? Era. Mas eu confesso que nunca fui à bola com o esloveno. Não lhe quero tirar o mérito: é um corredor dedicado, muito inteligente, com ampla capacidade; mas não deixo de ter aquela imagem que é alguém que construiu as suas vitórias com sprints no último quilómetro. Dito isto: é um evidente candidato e tendo em conta a prestação nos mundiais um dos maiores candidatos ao pódio.
- Giulio Ciccone — Provavelmente, o maior candidato à vitória a seguir a Evenepoel. A forma é muito boa. E convenhamos que o italiano já merecia andar o ano todo com uma camisola distintiva.
- Giulio Pellizzari — Está feito um especialista de clássicas acidentadas. Dois Giulios pode bem ser a conta certa.
- Kévin Vauquelin — Eu sei, a época não é feliz. Mas não deixa de ser uma opção nas várias setas que se encontram no arsenal francês. Não é a minha favorita, mas deve ser pouco escolhido.
800:
- Cristian Scaroni — O ano passado falhou o bronze porque não resistiu a um tal de Paul Seixas na última passagem do Val d'Enfer, em Ardèche. Este ano volta a ter um percurso que lhe assenta lindamente. Um Cristian e dois Giulios se calhar também resulta.
600:
- Alex Baudin — Já estou a ver o filme: não o deslocam e ele depois da última passagem em Možjanca atira-se descida abaixo. Depois não digam que não avisei. Ou isso é demasiado duro para ele, também pode dar-se o caso.
- Mathys Rondel — Acho que o pior que fará é top-10 e pode almejar a top-5. Pena não ter grande sprint para ascender ao estatuto de candidato.
- Iván Romeo — É assim, quem faz o que o Romeo fez por Enric Mas merece o seu lugar no Céu. E é daquelas motas que pode enganar os favoritos.
- Jan Christen — A forma é francamente má, mas Christen é Christen.
400:
- Jakob Omrzel — A prioridade é clara: auxiliar Roglič. Mas quem disse que trabalhando não se podem tirar dividendos pessoais? A Vuelta foi a confirmação do que já se suspeitava. E será seguramente dos últimos elementos da turma eslovena a abandonar o seu líder.
- Maxim Van Gils, Jenno Berckmoes & Ramses Debruyne — E agora três escudeiros de Remco Evenepoel que além de grande forma se adaptam lindamente ao percurso. Escolham vocês.
- Alessandro Fancellu — Pensemos que não foi assim há tanto tempo que o víamos ser um corredor combativo na estrutura japonesa da Ukyo. O seu estatuto é hoje a de um corredor muito fiável, que aqui estará provavelmente tapado pelos seus líderes.
- Marco Brenner — Temporada de belo nível de Brenner. Aposta número 1 da Alemanha. Ou pelo menos devia ser.
- Anthon Charmig — Cinco passagens na subida podem ser demasiado para Charmig, mas o momento que atravessa é inegável. E sabe o que é seguir Remco.
- Aleksandr Vlasov — Só não o levo para não dar azar.
200:
- Matej Mohorič — Moho a 200 com descida pelo meio? Claro que sim.
- Mikkel Honoré — Esteve a treinar com o Pogi e Urška? É de olhos fechados.
- Andreas Kron — Também não desgosto.
- Emil Herzog — Algum dia, um dos melhores juniores que já vimos vai tornar-se um elite a sério. E vem de boas indicações da Croácia.
- Toms Skujiņš — Falhou-me no Mundial. Vou decidir se já fizemos as pazes.
- Senna Remijn — Não vejo grandes opções dentro dos Países Baixos, ou seja, Remijn pode surpreender.
- Pavel Sivakov — Sivakov é um corredor confiável. É certo que estar a 200 não é um grande sintoma, mas se lhe derem algum espaço numa equipa francesa com várias opções... Lá subir sabe ele.
- Ludovico Crescioli — A forma deste miúdo é uma maravilha. Ter assinado pela FDJ é que enfim, mas pelo menos vai ter espaço para brilhar.
- Matz Wenzel — Wenzel é e sempre foi vibez. Se é mais do que isso? Começa a ficar tarde, mas ainda vai a tempo.
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