Fomos à Meca do ciclismo. E saímos de lá (ainda mais) convertidos.

4 amigos, 23 cervejas e 2 bergs míticos. A história de como o falso plano deixou a sua marca na Flandres.

Fomos à Meca do ciclismo. E saímos de lá (ainda mais) convertidos.
O Kwaremont é agora também um bocadinho nosso.

O falso plano agora descobriu os prazeres de andar na estrada e não quer outra coisa. Não há nada que se assemelhe a acompanhar uma corrida in loco. Sentir o sofrimento dos ciclistas a metros de nós, sentir a velocidade, sentir o ambiente e, claro, sentir o fresquinho de umas cervejinhas a entrar-nos pela goela adentro enquanto desfrutamos de boa companhia.

Nos últimos 8 meses, tive o prazer e a possibilidade de assistir a mais corridas do que tinha feito até então em toda a minha vida. E tenho de agradecer esse facto a este projeto e aos malucos que nele me acompanham, pois uma das coisas belas de me ter metido nisto foi descobrir que esta doença de que padeço não me ataca só a mim. O mundo é sempre um bocadinho melhor quando não nos sentimos sozinhos.

Na Vuelta, sofri com - e pelo - João, festejando efusivamente na companhia dos Lingrinhas a sua extraordinária vitória no Angliru. Na Figueira voltei a festejar (começando a julgar-me um amuleto secreto) o bis do amigo falso plano Morgadão. Seguiu-se o Algarve, num novo desafio mais profissionalizado deste projeto, a primeira prova por etapas, com podcasts diários e uma sensação de insiders que nunca antes havíamos sentido. E, agora, o sonho maior, o sonho adiado, a melhor prova do mundo na capital do ciclismo, a Ronde van Vlaanderen. É essa a história que vos contarei hoje. Mas não sem antes dar nota que, por mim, passava a vida nisto, de prova em prova, mas que o ritmo pelo menos para esta época vai ter que acalmar. Afinal, eu ainda tenho um trabalho daqueles que até pagam salário e tudo, e nem o salário estica infinitamente nem os dias de férias podem ser todos gozados a ver ciclismo. É doença, mas não é terminal. Por isso, a não ser que o João esteja na luta pela vitória numa grande volta até ao último fim-de-semana, vou acompanhar o resto da época do meu muy estimado sofá. Se o João nos der essa alegria, há coisas que não se podem perder, e lá terei que voltar a fazer a mala e pôr-me a caminho de Itália. Ou de Espanha. Com todo o gosto e de sorriso na cara.

O Rogério achava que ia fotografar um monumento. Fotografou dois.

A Flandres já era a minha corrida de sonho. Só precisava de um gatilho para me meter a caminho. Os belgas loucos por ciclismo, as subidas mortíferas que tantas vezes vi na televisão, a (ex) imprevisibilidade da corrida, o facto da corrida ser em circuito e se poder ver várias vezes os ciclistas e, claro, mais uma vez, a cerveja. A cerveja belga tem boa fama, o ciclismo belga idem aspas, pelo que a minha preferência por esta corrida está mais que explicada. O gatilho que procurava veio na forma de Nuno Gomes, protagonista já de outras histórias por aqui. Membro do falso plano, conhecido internamente por NunApps dada a sua obsessão com a fantasy. É ele que vos dá, muitas das vezes, as dicas nos nossos artigos, para desespero dos seus colegas Lingrinhas que tremem por todo o lado ao saber que o conhecimento dele fica assim disponível, público, para todos consumirem. Continuam a ser os melhores, relaxem. Por enquanto, pelo menos. E, aqui que ninguém nos ouve, eu daria especial atenção às dicas dele. Ele é maluco, sabe mesmo muito disto.

Ele já tinha tido a experiência, em 2024, e lançou o desafio. Eu alinhei logo, assim como o nosso guia cervejeiro Miguel Pratas. Mais tarde, convencemos Rogério Almeida (o único membro que fez 4 em 4 comigo nas corridas que mencionei em cima) e estava montado o grupo, o plano, a viagem e a aventura.

Desculpem estarmos a estragar a vista.

A viagem até chegar ao destino desta vez foi, para mim, um pouco diferente do habitual. Encontrava-me de passeio na Islândia já há 10 dias e foi duro chegar à Bélgica. Muitos quilómetros de carro, por cima de gelo e neve e chuva, até chegar a Reiquiavique. Naquela terra, o clima é impossível de prever, pelo que os nervos de ter o voo cancelado/adiado eram reais, como me tinha acontecido à chegada. Felizmente, os deuses do ciclismo estiveram comigo. Madrugada dentro, viajei rumo a Bruges, com passagem em Frankfurt e em Bruxelas. Uma noite sem dormir, algum stress acumulado mas muito entusiasmo rumo ao destino final. Entretanto, os meus colegas iam apalpando terreno, trabalhando na frente do pelotão, a descobrir as melhores cervejas belgas. Trabalho importante, é de mencionar.

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Santé.

O plano para Sábado era descobrir Bruges. Turistar, no fundo. Fazer render a viagem para não parecer que viemos só mesmo ver pessoas pedalar muito rápido em cima de pedras. Eles de ressacão em cima (reza a lenda que o Nunapps sentiu os seus 58 anos e sofreu bastante para sair da cama), eu de direta, mas chegava o momento em que me juntava à restante comitiva. Primeiro destino? Isso é o Pratas que sabe, que ele é que percebe de cerveja.

O chinelo foi sobretudo para a piada. As tradições são para se manter.

Demos um passeio de 10 minutos pela zona central de Bruges. Muito bonita, parece saída de um filme medieval. Aquele centro histórico que teve a sorte de escapar intacto à segunda guerra mundial é qualquer coisa de muito especial.

Passados 10 minutos, sentámo-nos então a beber cerveja, obviamente. O falso plano enquanto entidade tem uma relação estreita com cerveja e sentiu que falhou nesse aspeto na Volta ao Algarve. Então, em jeito de candidatura ao comeback of the year, demos tudo na Flandres. Foram um total de 23 rodadas, 23 cervejas diferentes. E aquilo lá só há canecas e 8% de álcool numa cerveja é período de descanso, que há umas que picam bem mais. Deve ser em homenagem ao Pateberg ou assim, menos de 10% é derrota.

Eu juro que estava, neste momento, substancialmente menos alcoolizado do que a minha cara sugere.

Bebemos uma cerveja em forma de corno, outra cor-de-rosa, outra que a senhora que estava a servir sugeriu, outra que o Pratas tinha visto na app dele que era boa. Tudo isto entre discussões de ciclismo, prognósticos para o dia seguinte, acompanhamento GP Miguel Induraín, provocações falso plano vs Lingrinhas (estávamos 50/50 nesta viagem), atualizações da vida da malta. Gozar com a idade do Nuno, o cabelo do Rogério, o meu outfit e a incapacidade do Pratas em trabalhar mais de duas semanas seguidas. Ambientarmo-nos, no fundo. Colocar a conversa e as provocações em dia enquanto se bebe boa cerveja é um dos melhores programas possíveis.

Essa foto que está acima é numa esplanada de um bar/loja onde se podem encontrar mil artigos de ciclismo. Por lá nos passeámos fascinados com o quanto as culturas podem ser diferentes, com o quanto amor eles têm por este nosso desporto. Há camisolas para todos os gostos, há Wout van Aert em miniatura, há bebidas em honra das subidas ou de lendas flandrianas. Parecíamos crianças numa loja de brinquedos, afinal crescemos numa cultura em que este nível de endeusamento só existe com o futebol. Eu não tenho nada contra o futebol, gosto bastante e semanalmente dirijo-me ao estádio para apoiar o meu clube, mas tenho contra a cobertura excessiva a que tem direito neste país à beira mar plantado. Dão-nos demasiado futebol, demasiadas polémicas, secando tudo o resto. O "resto" tem direito a alguma cobertura quando chega ao êxito, mas não é apoiado para chegar lá, tornando os seus sucessos ainda mais admiráveis mas também mais injustamente difíceis. Eu tento fazer a minha parte, a minha insignificante parte, no que a esta luta diz respeito. Neste espaço e na minha vida privada. Há futebol sim, mas também há ciclismo. Também há andebol e atletismo, e hóquei e natação, e basquetebol e râguebi. Gostava de viver para ver este país com as suas atenções viradas de forma mais equitativa para os vários desportos. Viveríamos o desporto, inclusivamente o futebol, de forma mais saudável. Desculpem o desabafo.

No meio das cervejas e da conversa, quase nos passava que ainda tínhamos um compromisso nesse dia. Um seguidor local, um desses portugueses que se aventurou para fora do país, tinha-nos desafiado para, imaginem, uma cervejinha num bar que ele sugeria. No twitter chamava-se Pudim Flan, pelo que beberíamos então cerveja com ele em jeito de sobremesa. É sempre (embora cada vez menos, tenho de admitir) surpreendente perceber o alcance que este projeto já vai tendo. É muito bom, sempre, perceber que há gente desse lado, cada vez mais gente, a consumir o que vamos fazendo. Isto é um hobbie trabalhoso, de amor à camisola, muito divertido claro, mas que embora não tenha isso como objetivo, faz tanto mais sentido quanto mais pessoas existirem a partilhar esta pancada. Já tinha falado disto noutras crónicas, mas é uma sensação que me marca sempre e que por isso faço questão de reforçar.

A conversa foi boa, foi do melhor. O João aka Pudim Flan confessou-se starstruck (imaginem LOL) mas passou-lhe rápido. A luta para ir buscar cada cerveja era feita aos pares e contornar belgas em véspera de Ronde é uma missão mais complicada do que possam imaginar. Mas valia a pena e depois da última havia sempre espaço para mais uma, já que o João e o Pratas se iam desafiando no seu conhecimento de cervejas e as dúvidas só se podiam dissipar através do ato de as provar. Não sei quem nos serviu melhor, quem decidiu melhor, mas serviram-nos bem, disso não haja dúvida.

Às tantas, já depois de uns hamburgueres e suas tradicionais batatas fritas belgas para a retraça e para abrir espaço a mais umas rodadas, chegou à mesa uma cerveja que não sei o nome, só a inclinação. Bebi, que eu sou um gajo rijo. Mas enquanto a bebi fui percebendo que, a seguir, só havia já um destino possível. Era hora dos patinhos, hora de ir dormir que no dia seguinte havia mais.

Um brinde ao falso plano, ao João e a todos os seus seguidores.

Foda-se, dói-me a cabeça.

Não sei se estas 3 horas de sono me colocaram de ressaca ou se só não chegaram para me passar a bebedeira. Arrasto-me até à banheira enquanto pergunto se é mesmo imperativo apanharmos o comboio das 8 da manhã. Respondem que sim, mas eu não estou capaz. Eu sei que sou um jovem, mas no que ao dia seguinte a álcool diz respeito sinto-me um velho de 90 anos. O das 9 também deve dar.

Banho tomado, café quádruplo ingerido e o meu corpo começa a sua luta entre o cansaço e o entusiasmo do que aí vinha. Aviso já que o entusiasmo venceu, o corpo humano é capaz de coisas extraordinárias. A nossa base era em Ghent, o que queria dizer que, para chegarmos ao Oude Kwaremont, o nosso destino final, precisávamos de apanhar um comboio para Oudenaarde, outra pitoresca cidade belga, e depois um shuttle para a base da subida. Na estação vamos começando a perceber o que esta prova significa para os belgas. É domingo de manhã e as ruas, as estações e os comboios estão cheios. Toda a gente traz um adereço, um gorro fofo da Flandres, uma camisola do seu ídolo. As conversas, embora indecifráveis para o ouvido português se excluirmos os nomes dos ciclistas, eram todas sobre o mesmo tema. Que ambiente incrível já se ia vivendo, uma pequena amostra do que se seguiria.

Saídos do comboio, deparamo-nos com uma fila para o shuttle que é difícil de descrever. Que quantidade absurda de gente. Como é que esta gente vai caber toda na beira da estrada? Nós tomamos a (dispendiosa) decisão de apanhar um Uber rumo a Kwaremont. Tivemos de perder o amor ao dinheiro, afinal tínhamos feito tantos quilómetros para ver a corrida, não podíamos arriscar perder a primeira passagem dos ciclistas numa fila de autocarro. As estradas estavam cortadas, só os autocarros passavam até à subida, pelo que o nosso Uber teve de nos deixar ainda a uns bons 3 quilómetros do nosso destino. Esses quilómetros foram feitos em conjunto com muitos outros caminhantes com os quais partilhávamos o destino. Pelo caminho, víamos as festas organizadas nos quintais das pessoas. A Ronde é mesmo um evento gigante para esta gente e ninguém ia faltar à festa, mesmo que fosse a partir de casa. Deparamo-nos com um belo falso plano, uma subida comprida, pouca inclinação, que vai moendo aos poucos. Viramos à esquerda e voilá, estamos no Oude Kwaremont.

O ambiente não é "gravável" ou fotografável. A única maneira de sentir é estando lá, desculpem.

Não é fácil explicar-vos a sensação de estar ali. A primeira missão foi descer até lá abaixo e depois subir tudo de novo, para sentir e analisar o pavê sobre o qual caminhávamos. O pavê onde tantas lendas escreveram a sua história. O Spartacus Cancellara, meu classicómano favorito na juventude. Tom Boonen que por três vezes fez os belgas festejarem as suas vitórias. Gilbert que, com a sua vitória em 2017, não só conquistou o estatuto de último belga a vencer como fez os fãs sonharem com a conquista dos 5 monumentos. Asgreen que contrariou o favoritismo de Mathieu van der Poel e deu a última vitória à Wolfpack. Van der Poel esse que fez destas subidas o seu quintal até à chegada do monstro Tadej Pogačar que, em 2022, rasgou por completo os livros do ciclismo, reescrevendo-os à sua maneira e mostrando que na geração moderna também é possível vencer o Tour e dar importância aos monumentos do ciclismo. Mais do que isso, vir à Flandres, correr os riscos a isso associados por amor ao jogo e por uma obsessão em perseguir os desafios e em deixar o seu nome cravado na história do desporto mundial como um dos grandes. Foi também por estes paralelepípedos que Alberto Bettiol voou rumo a uma das vitórias mais surpreendentes nesta corrida em 2019.

Ali estávamos. O pavê é mesmo muito duro, as pedras são gigantes e estão muito longe umas das outras. Umas mais para fora, outras mais enfiadas na terra. Um espetáculo por si só. Faz-me tremer pensar em subir aquilo de bicicleta a 40/hora, estes manos são loucos. Depois deste, para mim, bastante emotivo passeio estava na hora de assentar bagagens. Tivemos a sorte de encontrar uma primeira fila ainda vazia, no primeiro terço da subida, e estacionámos por lá. A cerca de 7 centímetros da estrada, uma loucura absoluta. E queria notar também algo que muito me surpreendeu — basicamente não há polícia. A crença no conhecimento e no respeito é de tal forma grande que as pessoas são deixadas à sua responsabilidade, o que é mais uma vez uma antítese completa do que estamos habituados a vivenciar por Portugal. E a verdade é que, apesar do álcool consumido em quantidades elevadas, apesar do entusiasmo elevado e apesar das lutas pela melhor posição para ver passar os guerreiros, 10 minutos antes da primeira passagem já ninguém se metia na estrada. O respeito pelo espetáculo e pela corrida em si é gigante e ninguém se quer atrever a ser o mau da fita. É gente do ciclismo, no fundo, e o seu maior pesadelo seria estragarem a festa.

Outra nota que queria dar é o quão esta malta ama o Wout. Canta-se pelo Wout, usam-se máscaras do Wout, recorda-se o Wout e, quase a fazer lembrar os tugas, acredita-se que este ano é que é. Apesar de ser óbvio que não seria, a beleza por vezes reside exatamente aí, na crença pelo impossível. Eles também gostam (alguns) do Remco, eles também respeitam Pogi e MvdP, mas o amor que têm a esse eterno segundo classificado, ao homem que perdeu sempre nestas terras mas que nunca virou a cara à luta é inqualificável. Eu não era muito fã dele, não adoro a Visma e sempre torci pelo Van der Poel nesse duelo tão particular. Mas agora mudei um bocadinho a minha posição: o Wout, e sobretudo os seus fãs, mereciam que, depois de uma carreira cujo CV (ótimo, diga-se) não faz jus à qualidade, a sorte um dia lhe sorrisse e ele pudesse vencer uma destas grandes provas. Preferencialmente esta mesmo, perante os seus fãs.

Chegava então a hora dos ciclistas subirem por ali acima como se de uma autoestrada se tratasse. É mesmo impressionante depois de caminhar sobre aquele terreno ver a velocidade a que eles passam, ainda para mais num pelotão que era ainda bastante grande, praticamente completo. E mais impressionante ainda é a parede de som que os acompanha Kwaremont acima. É ensurdecedor, é paixão no seu estado mais puro. É um golo. Só que é um golo que dura dois quilómetros num estádio sem lugares marcados. Se era ciclismo na sua essência que eu procurava nesta viagem, foi exatamente isso, e mais um bocadinho, que encontrei.

Um dos objetivos desta aventura era completar a minha "caderneta de cromos". Já tinha visto o João e o Vingegaard no Algarve e na Vuelta, já tinha visto Philipsen e Magnier no Algarve, Wout em Lisboa no ITT da Vuelta, Alaphilippe no Malhão, e tantos outros. Mas faltavam-me 3 dos grandes nomes desta geração. Tadej Pogačar, Mathieu van der Poel e Remco Evenepoel. Bem, não só agora já não faltam como fizeram questão, os três, de me brindarem com uma exibição de luxo e ocuparem o pódio entre si. E não só já vi Pogačar como o vi a centímetros. Foi um momento bonito, que guardarei enquanto conseguir. O melhor que eu já vi, um dos responsáveis pelo crescimento do ciclismo, por esta nova forma apaixonante de correr. Aquele que em breve se tornará, provavelmente, o melhor de sempre, ali, a centímetros, rumo a mais uma exibição autoritária e histórica.

Entre a primeira e a segunda passagem são cerca de duas horas, pelo que dava para um passeio pela subida, mais um sentir do ambiente e uma tomada de decisão difícil. O Paterberg é mesmo ali ao lado, 15 minutos a pé, e porque não ir lá espreitar? Mais à frente na corrida, um paredão mítico e um acrescento à experiência.

No caminho, abria-se uma cervejinha para a viagem. A dor de cabeça ainda estava lá mas, desta vez sem exageros, era complicado não responder ao apelo perante tanta cevada em todas as direções. Passámos pela zona espetáculo no topo do Kwaremont, fomos brindados com um clássico flandriano, a chuva, e seguimos caminho. É engraçado como, sem nunca por ali ter pisado a terra, sentia que conhecia aquelas paisagens. As planícies flandrianas, as quintas aqui e ali, o vento a fazer abanar a vegetação. Foram tantas horas de televisão por aquelas zonas que me sentia como se tivesse em casa. Não tem nada a ver com a história, mas achei um apontamento interessante. E esta crónica é minha, digo o que eu quiser.

O Paterberg impôs-se perante nós de uma forma diferente do que o Oude Kwaremont havia feito. É uma parede, não tem uma entrada soft para te ires ambientando nem zonas de descanso. É curto mas é sempre a doer. O falso plano também se bate nestes terrenos.

350 metros. 12% média. Máximo de 20%. Dizer o quê?

Cedo nos apercebemos que a deslocação tinha sido um erro. Não íamos encontrar ali nenhum sítio tão bom como o que tínhamos em Kwaremont, a curta subida estava à pinha. Mas já lá estávamos, não havia nada a fazer e era aproveitar o melhor possível. Enquanto aguardávamos, mais um hamburguer para o bucho (eles só comem batatas e hamburgueres, que coisa) e um bocado passado na fanzone a acompanhar a corrida pelos ecrãs gigantes.

A busca por um bom spot para ver a passagem seguinte revelou-se infrutífera e acabámos por ter de a acompanhar por entre as cabeças das pessoas e os ramos das árvores. Aprendizagens para o futuro, também disso se fazem as experiências. Vimos o trio passar e vimos Remco Evenepoel sofrer pela vida dele para se aguentar na roda. Soubemos, mais tarde e sem grande surpresa, que não chegou ao topo na companhia de Tadej e Mathieu. Os limites, até para fenómenos como o Remco, existem, e nestes terrenos não há companhia para esse duo. Passava em seguida um Wout que dava tudo mas cujo tudo não era, mais uma vez, suficiente. A tristeza notava-se no rosto da plateia mas nem por isso os gritos de apoio cessavam. Ele pode nunca ter ganho isto, mas que coisa, por falta de apoio não foi.

Pelo telemóvel acompanhávamos o desfecho esperado. Na última passagem pelo Kwaremont, Tadej Pogačar despedia-se da companhia de Mathieu van der Poel e seguia isolado rumo à 12.ª vitória em monumentos. A que soma 4 Tour de France, 2 mundiais e mais mil vitórias. É verdade que, de vez a vez, a sua presença esmorece o interesse dos fãs acérrimos nas corridas, pois a sua superioridade é de tal ordem que o resultado se torna expectável. Não nego isso, mas é também necessário saudar um campeão desta dimensão que, como já referi, se propôs à tarefa hercúlea de vingar não só nas montanhas francesas como nos bergs flandrianos. Disto não há muito e ver um atleta destes escrever história perante os nossos olhos não pode ser normalizado.

Vamos ser velhinhos e dizer que vimos Pogačar correr, dominar e reescrever o ciclismo. Ás vezes é aborrecido, eu próprio amo-o mas quero que ele perca sempre, para ter que continuar a tentar, para não se tornar demasiado fácil. Quero que ele perca sempre, mas respeito muito as suas vitórias.

AND HE IS GOOOOOONE.

Se passaram o Kwaremont pela última vez, a próxima paragem tinha que ser o Paterberg onde nos encontrávamos. Entretanto tínhamos ganho uns lugares e já estávamos em condições de ver a corrida decentemente. Um a um, iam passando as estrelas, sofrendo subida acima. Primeiro Tadej, depois Van der Poel, Remco, Wout e Mads. Que qualidade absurda continha este top-5. E a passagem ser feita à vez é ótimo para o espetador. Dá para desfrutar de cada um, observar a dor de cada pedalada, ver o corpo cambalear cada vez mais rumo ao topo daquela que era a última subida de um dia infinito. Ainda ontem assistia ao documentário dos Rockets sobre a prova e há um momento muito curioso onde um ciclista da equipa chega com um da Astana e ambos celebram. Celebram o quê? Ter chegado ao fim deste dia. E diz um deles "celebramos juntos sendo de equipas diferentes porque na Ronde, durante os últimos 20 quilómetros, estamos todos na mesma merda".

No fundo, isso retrata bem o espirito depois da passagem dos primeiros ciclistas. Esses vêm focados, vêm no sofrimento mas de olhos postos num objetivo de resultado. Os outros vêm só a morrer todos. O público apoia e grita por todos eles. Nós obviamente juntamo-nos aos gritos. Damos show quando passa Morgadão que, embora tenha desiludido com a sua prestação, merece sempre o nosso máximo carinho. Os belgas olham para nós de forma esquisita pela festa que fizemos, mas a gente explica e eles juntam-se aos aplausos. É preciso é boa disposição.

Acompanhamos a consagração de Pogačar já nos ecrãs gigantes. O publico aplaude de forma respeitosa mas fica aquele feeling de "epá, está bem, ele é bom, mas não podia deixar qualquer coisa para os outros? Porra".

Mas engane-se quem acha que estava fechada a nossa Ronde. Ainda tínhamos as senhoras a caminho e isso significava mais uma estreia para mim.

Com a subida ainda bem composta mas já com mais espaço livre, arranjámos um lugar na primeira fila e aguardámos a chegada do pelotão feminino. Nos entretantos, gravámos uns pequenos vídeos para mandar ao Dias que estava na luta para fazer e moderar um episódio inteiro com um painel composto "apenas" pelo Silva. O resto do falso plano estava em missão, há prioridades, vocês compreendem. Felizmente Dias & Silva foi uma combinação ótima e fizeram um grande episódio de rescaldo da prova.

Demi Vollering explodia o pelotão no Kwaremont, depois de um trabalho fantástico da equipa, e seguia rumo ao Paterberg a todo o gás. Vitória no bolso, estreia a vencer na prova e uma alegria grande aqui para o vosso moderador. Depois de ver Kim LeCourt abandonar por queda, tive como recompensa ver Demi Vollering passar por mim isolada rumo à glória. Sortes bastante distintas para as minhas duas ciclistas favoritas.

"Vai fácil", gritava eu à passagem da neerlandesa. Bela descoberta esta do ciclismo feminino fiz eu recentemente, muito à boleia da insistência dos meus estimados colegas. É realmente imprevisível, espetacular, emocionante. Fica o convite a quem, desse lado, ainda só alimenta a sua fome de ciclismo com o setor masculino, a vir conhecer também a loucura que é o setor feminino.

Agora sim, terminava o dia no que ao ciclismo dizia respeito. Caminhámos até ao topo do Paterberg, fazendo um reconhecimento que nos será útil nas análises do futuro e aproveitando para deixar mais um pouco de Flandres entrar em nós. Na hora da despedida, uma constante desta viagem — vai de pendurar um autocolante nosso por aí, deixando a nossa marca e tornando a Flandres um pouco mais falso plano.

O Paterberg é para ali, malta.

Estamos a chegar ao fim de mais este relato sobre as aventuras a que este projeto me levou. No caminho de volta, os niveis de alcoolémia à nossa volta marcaram a viagem. Franceses gritavam pelo Pinot como se a sua vida disso dependesse e entretinham a nossa espera pelo shuttle rumo a Oudenaarde. Quanto a nós, estávamos estafados, a emoção tinha sido muita, o álcool também. A cama quase não tinha sido visitada e estava com saudades nossas. Foi, então, para lá que nos dirigimos. No nosso apartamento, a banheira era mesmo uma banheira e tinhas de tomar banho deitado. Eu cumpri as ordens, deitei-me para o banho, mas não o tomei. Assim que encostei a cabeça, até amanhã amigos. Por lá dormi.

No dia seguinte, ainda fomos picar uns pontos em Ghent. Fazer de turistas normais, espreitar catedrais e castelos. Volto a recomendar esta zona, são realmente cidades com muita personalidade. Mas embora eu, o Nuno, o Pratas e o Rogério, os meus companheiros a quem tenho de agradecer a companhia, nos tenhamos dedicado à prática turística com bastante vontade, a verdade é que a cabeça já estava na próxima. Será que vai ser no Tour, na Strade, nos Mundiais, na Liège ou em Guangxi? Ninguém sabe (ainda). Mas a certeza de que haverá próxima, por enquanto, satisfaz-me.

Obrigado a todos por estarem desse lado. Aos que ouvem, aos que gostem, aos que leem e, sobretudo, aos meus colegas que escrevem e que falam e que discutem e que gostam tanto disto como eu. Sem vocês, os colegas e os consumidores de falso plano, isto não tinha a mesma graça.

Um abraço e até à próxima.

Nós no Kwaremont. Quem diria.