Mas a que preço?
Num dia grandes campeões, no outro fora da luta. Podia ser eu no Fantasy, mas é algo mais importante que isso.
De Tricampeã para a felicidade.
Fem van Empel nasceu na localidade de s-Hertogenbosch, uma cidade pequena no sul dos Países Baixos. Cresceu muito longe do ciclismo, foi jogadora de futebol, e era ali que pensava ter encontrado o seu futuro. Mas em 2019 tudo mudou, sem muita preparação fez pódio nos campeonatos nacionais de juniores de mountain bike. O futebol pode ter perdido uma estrela, mas nós, fãs de ciclocrosse, ficámos ganhar.

Aconteceu tudo muito rápido e aos 18 anos, já era campeã mundial sub-23. Aos 20, saltou para a elite e simplesmente varreu tudo. Não havia percurso de ciclocrosse onde não fosse a favorita. Nas primeiras quatro provas da Copa do Mundo de 2022, venceu as quatro. Ainda nem podia beber champanhe nos pódios americanos, mas já conquistava o primeiro lugar como se fosse fácil. Apelidou essa época de " uma temporada especial". Mas o que ninguém via era o preço para conseguir aqueles resultados. Fem van Empel, aos 22 anos, três vezes seguidas campeã mundial (e europeia) de ciclocrosse em elites. Ainda limpou também ganhou a taça do mundo de elites. O início de carreira com o qual qualquer jovem sonha. Tinha tudo para ter um futuro brilhante, ser a sucessora da rainha Marianne Vos no ciclocrosse. E quem sabe na estrada. Chegamos então ao início de 2025, 2 meses após se ter sagrado, novamente, campeã mundial de ciclocrosse. Anuncia uma pausa por razões psicológicas, saltando assim a época quase toda na estrada. Como ela própria confessou mais tarde, o terceiro título mundial já não foi sentido. "Na verdade, nem o desfrutei", disse ela. "É estranho, porque quando desportivamente tudo está perfeito, é muito difícil dizer que desistes. Mesmo quando sabes que não estás bem". Tentado explicar o que tanto a perturbava, afirmava "por causa do meu perfeccionismo, nos últimos dois anos perdi-me como pessoa, concentrando-me apenas naquilo em que era boa. Fui mais atleta do que humana. Agora sei que sou mais do que apenas uma ciclista". Voltou para a nova época de ciclocrosse 25/26. Será que já estava feliz? 7 dias após alcançar a 51.ª vitória profissional no ciclocrosse, Empel corria o Koppenbergcross e, numa passagem pela boxes, simplesmente encosta e desmonta da bicicleta. Era a resposta de Empel.
No final de 2025, num anúncio que surpreendeu o mundo do ciclismo, ou não , Empel disse "Durante o Koppenbergcross, o meu corpo e a minha mente deram um sinal muito claro", e "neste momento, faltam-me tanto a motivação como o prazer que tive no ciclismo durante anos". Anunciou uma pausa na carreira e a quebra do contrato com a Visma.

Uma curiosidade: sendo uma ciclista que sigo nas redes sociais há vários anos, parecia uma pessoa reservada e quase não partilhava nada. Após o início do ano fez várias partilhas nas redes sociais, entre elas destaco o quanto se mostra a viajar e a aproveitar a vida. Agora abrimos os sites e vemos as estatísticas de Empel, são esmagadores. Mas para além dos números, o que nos deixou ela? Talvez a coragem de parar. Num desporto que aplaude quem avança mesmo quando furou e sabemos não está bem. Ela teve a lucidez de reconhecer que a motivação desapareceu. Que o ciclocrosse, aquele que a levou ao topo do mundo, já não era o que a fazia feliz. Aos 23 anos, Empel ensina-nos algo e não é sobre ciclismo, é sobre saber olhar para nós, e sobre saber travar quando se tem de travar. "Estou muito grata por todo o apoio que recebi da equipa, da minha família e dos adeptos", disse na despedida. "Aguardo com expetativa o que o futuro me reserva".

Tom Tom dos primeiros Visma.
Antes de Empel tivemos o caso do Tom Dumoulin, que em 2022 decidiu pendurar a bicicleta. Um ex- campeão mundial de contra-relogio e ex-vencedor do Giro, decide que é hora de abandonar o ciclismo profissional e uma das frases que usou foi muito forte. "Eu odiava tanto o ciclismo, odiava tanto estar ali". Já este ano também tivemos a troca de Dylan van Baarle da Visma para Soudal, afirmando que após várias lesões e dúvidas "existenciais" teve de procurar ajuda fora da Visma, e encontrou alguém que o ajudou mentalmente. Até o líder da equipa, Jonas Vingeggard, admitiu em Janeiro deste ano, que esteve perto do Blburnout. Que a sua esposa é que o tem apoiado muito. Já o outro líder da equipa, Wout van Aert, saiu em defesa da casa. Ainda assim deixou algo no ar, quando diz que "dói, porque é a minha equipa". Deixa ainda uma mensagem que talvez espelhe não só a Visma como o desporto de alta competição em geral: "Já não é à moda antiga. Tudo é constantemente medido, e tu deixas de pensar por ti próprio". Esta pressão não é só nos ciclistas, temos o exemplo do treinador Tim Heemskerk que também abandonou a Visma este ano. Já em 2023 tinha dito que passava dias a avaliar os dados de Jonas Vingeggard, que mesmo à noite ainda ligava o computador para ver e ajustar quando devia estar a descansar. E recentemente, quando ele saiu da equipa, disse "sinto que ultimamente tenho dificuldade em manter a minha criatividade e paixão, algo importante para mim no meu trabalho como treinador. Esse foi o momento para ser honesto comigo mesmo e com a equipa".
Por fim tivemos Simon Yates, o vencedor do Giro 2025, a anunciar no dia 7 de janeiro deste ano que se retirava do ciclismo profissional. O irmão gémeo Adam Yates, numa entrevista em Fevereiro, disse "quando um atleta já não encontra prazer na bicicleta, é preferível encerrar em vez de prolongar o sofrimento."
Problema geral ou só da Visma?
Que se passa na Visma? Ou não será apenas só na Visma? O que quer que se passe tem, pelo menos, mais incidência na Visma. Uma equipa já com muitos anos de estrada, mas que nos últimos anos marcou a sua história vencendo várias grandes voltas, monumentos e grandes clássicas. Investindo também no ciclismo feminino e obtendo grandes resultados. Mas a que custo saíram estas vitórias? Será que os métodos secretos da equipa serão assim tão bons? Lembro-me que em Lisboa, na Vuelta 2024, já após o fim do contra-relogio, passámos pelo camião das bicicletas e eles estavam a arrumar. Nem uma foto me deixaram tirar, mesmo estando eu na parte de fora, na rua. Faz sentido isto? Por estes pormenores podemos imaginar a pressão mental que os ciclistas e staff sofrem dentro da equipa. Será a Visma o problema? Talvez não, pois até há pouco tempo, quando as equipas iam estagiar, não podiam ter a família presente. A Visma foi das primeiras, se não a primeira, a permitir que a família acompanhasse o ciclista em estágio. Mas cada equipa tem os seus métodos de trabalho, uns ciclistas podem adaptar-se bem e outros nem tanto. No fundo, a Visma encontrou-se no centro de uma tempestade, mas esta tempestade acho que é transversal a todo o desporto. Se é um problema de equipa ou da pressão do ciclismo moderno, é algo que vamos descobrir com o tempo. Pois o ciclismo moderno movimenta muito dinheiro, e esse dinheiro movimenta muita pressão sobre resultados. E como vimos nos nomes citados, a perfeição ou a máquina perfeita pode ter um preço a pagar muito alto.