O Algarve nunca mais vai ser o mesmo. Nem nós.
Uma crónica sobre uma semana caótica, intensa e incrível, cheia de entrevistas, aprendizagens e palhaçada. Perdoem-me a presunção, mas foi falso plano no seu melhor. Embora o melhor ainda esteja por vir.
Ele há coisas que quem diria.
Estou a trabalhar quando o Pratas partilha no nosso chat a resposta da Volta ao Algarve ao nosso pedido de acreditações para a prova. Levanto-me para ir buscar o meu computador, o Pratas é famoso pelas suas pranks e não me custou muito imaginar que ele tivesse feito aquele mail para gozar connosco. Confirmo então, para meu grande espanto, que o mail partilhado era real. A resposta não só era de uma simpatia extrema, como vinha cheio de elogios ao nosso trabalho e, imaginem, com uma proposta, ainda abstrata, de uma parceria para decorrer durante a prova.
Começava aqui uma das maiores aventuras da história deste aglomerado de gente doida que gosta mesmo muito de ver pessoas de licra a sofrerem montanha acima. Eu não sou "falso humilde", sei que nós fazemos algo interessante e com o seu quê de inovador e de útil para a modalidade. Mas nós, fechados no nosso grupo de WhatsApp e no nosso estúdio d'A Bola, às vezes (cada vez menos) não vamos tendo noção do já algum impacto que vamos tendo no meio e por isso quando alguém da Federação, neste caso o Vasco Moreira, nos convida a fazermos algo a nossa reação ainda é sempre de estupefacção, de "mas ele sabe as parvoíces que nós dizemos?", de "mas qualquer dia isto é a sério, querem ver?". O Vasco sabia, sabia das parvoíces que nós dizíamos e dá-me a sensação que não só isso não era um obstáculo, como talvez fosse até um dos pontos que lhe interessava. Pareceu logo um gajo bacano, facto confirmado quando descobrimos que ele estava em 2.º na classificação geral do nosso DS. Malta que adora fantasy e que joga a MELHOR FANTASY DO MUNDO só pode ser gente boa.
Conversa para aqui, conversa para ali, chegámos a um acordo que o foco da parceria seria um podcast diário. Afinal, é nesse terreno que estamos mais confortáveis. Claro que, estando confortáveis nisso, tivemos de inventar mais 1000 merdas para nos irmos colocar desconfortáveis, mas a essa parte já lá vamos. Meia horinha, diária, a falar de ciclismo do bom? Isso nós conseguimos entregar, tranquilo.
Estamos então na conferência de imprensa. RTP, Rádio Renascença, Público, pessoas que falam estrangeiro e o falso plano. É meio marado, acho que nunca vai deixar de ser. Eu sou uma desilusão, ansioso e envergonhado quando falamos de comunicar com ciclistas, mas André Dias vira-se para mim, pede que coloque a gravar (isso eu consigo), levanta a mão e eis que nos estreamos no mar dos grandes. Uma pergunta a Ayuso, outra a Afonso Silva, outra a João Almeida. Como não podia deixar de ser, ainda sacámos uma gargalhada à sala com uma das perguntas. falso plano está apresentado, foi para isto que a gente veio. Nada mau para quem só queria companhia para discutir fantasy, hã?
Quando chegámos à sala já tínhamos acreditações, por isso na nossa cabeça já éramos os reis daquilo tudo. Nuno Silva, um dos heróis desta epopeia, disparava rumo a Ezequiel Mosquera e eu ia apresentar-me convenientemente ao Vasco e ao Rafa, seu companheiro, igualmente simpático, igualmente obcecado por este desporto. "Então mas vamos gravar onde? Ai é como nós quisermos? Está bem, está." Seguimos então para montar o nosso estúdio, composto por um tripé daqueles com luzinhas de influencers, um telemóvel e dois microfones. Se isto não é tecnologia de ponta, não sei onde estão os vossos parâmetros. Um banco de jardim à frente do edifício pareceu-nos bom o suficiente. Era bom o suficiente, aliás, como provámos ao longo da semana, qualquer sítio era bom o suficiente. Aparece-nos pela frente mais um doente de ciclismo, que bom é passear por entre gente desta, espécie que julgava rara. Rodrigo Rodrigues aparece com uma câmara a sério a dizer que nos vem tirar umas fotos. Malta, temos as primeiras fotos oficiais falso plano. Mãe, vê lá se o teu filho não está mêm com classe.

O primeiro episódio da história que gravámos sem um script, e sem um computador. Fomos um bocado na fé e que falta nos fazia. Já não sentia um nervoso míudinho a gravar há uns tempos, é sempre sinal de que estamos a fazer algo diferente, a crescer, por isso o nervoso foi bem-vindo. E, modéstia à parte, acho que nos saímos muito bem. Também é difícil ficar demasiado nervoso ao pé destes dois. O Dias ao fim de 10 segundos de episódio já estava a cantar porque estava triste de não termos genérico e o Silva, enfim, quem precisa de um computador ou do Pro Cycling Stats quando tens o Silva? Ele importou o site para o cérebro dele, por isso posso sempre estar descansado. Gravação feita, entrámos no lodo do upload. Um lodo que nos viria a ser familiar ao longo da semana. Aproveito para deixar a nota de que estamos a recrutar. Precisamos de um gestor de redes, um técnico informático, um maquilhador e um psicólogo. Do pagamento falamos depois, também vai ser uma conversa curta.
Acomodamo-nos, na bela "mansão" que o Silva e a sua família amavelmente nos disponibilizaram na Marina de Vilamoura. Publicamos um reel muito parvo que o Dias fez, a cantarolar enquanto dizemos parvoíces e, porque não, atiramos o Barré à parede e pedimos colaboração à página oficial da prova. Colaboração aceite, a vibe deles era a correta, algo de que a gente já suspeitava mas foi bom ter a confirmação. Fechado o dia zero, estamos prontos para o dia 1. Afinal, foi para a corrida que cá viemos e essa só começava no dia a seguir.
Olha, queres falar pó Bidon?
É assim malta, acabei de me aperceber que se for escrever, como é meu hábito, de forma cronológica e detalhada, isto vai ficar tão grande que nem o Valadas vai ler tudo, por isso vou dar ritmo a isto. Na Figueira é mais fácil, é só um dia. Mais uma aprendizagem para o livro. Apontado. Por isso vou descrever-vos o que foi o nosso dia clássico na passagem pelo Algarve. Começando então pelas entrevistas.
Isto foi uma doideira, todos os dias. Todos nós estávamos fora de pé. Acordar, metermo-nos no carro e rumar à partida desse dia. Pelo caminho, definir ciclistas alvo e ter ideias de perguntas para as entrevistas. Ui, entrevistas, em que brincadeira nos viemos meter. Há a pressão de ser falso plano, de não perguntar "como estão as pernas para hoje?", mesmo que isso às vezes seja inevitável. Afinal, o default não nos chega, não é esse o nosso âmbito, nós queremos sempre dar um twist falsoplanista à coisa, para ser tradicional estão lá os tradicionais, que são importantes e louváveis, só não somos nós. Definidas as perguntas, segue-se uma parte importante, que é ignorá-las completamente porque a vida nem sempre é como nós queremos. Os ciclistas que surgem não são os ciclistas que queríamos, se calhar isto não é a Figueira, aqui há muita media e menos espaço para nós, mas a gente faz o que pode. Procuramos o nosso espacinho, não queremos chatear ninguém mas também não queremos deixar de fazer a nossa parte, dar o nosso sabor à corrida, mostrar que estamos presentes, criar relações com os ciclistas da televisão, tentar ter graça e acertar, ou falhar, isso pouco interessa; isto é um processo e nós estamos em pleno período de aprendizagem.
As entrevistas foram, ao longo dos dias, um dos nossos principais pontos de interesse, um teste para nós e, acredito, também um pouco para o pelotão. Não vos vou detalhar cada uma delas, seria exaustivo e está tudo disponível nas nossas redes, vão lá espreitar amigos. Mas há momentos que tenho de destacar.
Vou já despachar aquele que foi, de um ponto de vista meramente pessoal, o momento desta semana. Os meus colegas sabem que eu dou tudo, ou dou muito, por este projeto, mas há uma coisa que eu não faço, e isso são entrevistas. Não gosto, dá-me ansiedade, deixa-me nervoso, inseguro, e não aprecio, como devem imaginar, sentir-me assim. Durante a maior parte deste período de cada dia, eu andava por lá, ia dando umas sugestões em relação aos ciclistas e às perguntas, ia fazendo, como dizem os meus colegas, o trabalho de "RP" com a organização, com outras páginas que por ali andavam e com os membros falso plano que não puderam juntar-se a esta aventura.
Mas eu tinha feito uma promessa: "Se me derem o Alaphilippe, eu vou lá". Eu sou apaixonado pelo Alaphilippe, como quem já vai seguindo esta página vai sabendo. Há ali qualquer coisa, naquela maneira de estar e de correr, inconformada, anárquica, irracional que me faz gostar mais dele do que dos outros. O registo de "fora da lei", como descrevi na minha carta de amor a ele endereçada, tem um charme para mim irresistível. E, logo ao primeiro dia, os meus colegas entregaram-me o meu amor em forma de ciclista de mão beijada. De mão beijada para mim, que não fiz nada. Eles tiveram que, após sermos "expulsos" da zona press (afinal há quem esteja lá mesmo a trabalhar for real e aquilo estava caótico), correr atrás dele pelas ruas de Vila Real de Santo António, explicar a situação, gritarem por mim para ir lá ter e eu dei por mim, com um bidon a fazer de microfone, diante do meu ídolo no que ao ciclismo diz respeito. Loulou olhava para mim enquanto eu tremia por todo o lado e repetia na cabeça as perguntas que tinha definido fazer enquanto adormecia na noite anterior. Não pude deixar de começar com um "first of all, i'm a bit nervous, you are my favorite rider". A cara dele abriu-se num sorriso e eu, por um minuto, comprovei que até o bicampeão do mundo, o terror das Ardenas, o homem que me fez sonhar enquanto se passeava por França de amarela em 2019, é de carne e osso. Queria agradecer ao Alaphilippe por este momento, por toda a sua simpatia e panache, mas sobretudo aos meus colegas que não respiraram até eu ver o meu sonho concretizado. Isto não são colegas, são amigos, e é por isso que me dá tanto gozo andar nesta vida.
O carinho com que os ciclistas nos foram acolhendo é difícil de explicar aqui, mas acho que é perceptível se virem a maior parte das entrevistas. O "pré-recording" incluiu muitas vezes perguntas sobre o nosso bidon. Foi um ótimo quebra gelo, esta brincadeira. Eles ficavam naturalmente surpreendidos e percebiam, desde logo, que nós não estávamos ali propriamente para fazer uma entrevista 100% banal e, para minha surpresa, isso acabou por ser algo do seu agrado. Quase sem exepção, foram simpáticos connosco e mesmo os press officers, que à primeira torceram o nariz, se foram habituando à nossa presença.
Falámos com ciclistas das equipas portuguesas, normalmente com mais tempo, e eles pareceram sempre felizes por estarem lá uns malucos a entrevistá-los. Afinal, andamos cá todos para o mesmo e nunca somos demais a dar uma ajuda para fazer este desporto crescer. Falámos com lendas do desporto como Degenkolb e Philipsen, lendas do falso plano como Alessandro Pinarello e Thymen Arensman, lendas da boa disposição como Rafael Reis (que quando questionado o que estava aqui a fazer dado que não havia prólogo se desmanchou a rir em vez de nos mandar ir dar uma volta) e Santiago Mesa (que dizia sempre que não queria saber dos outros, estava lá para ganhar); e falámos ainda com futuras lendas que deram mais um passo rumo a esse estatuto ao longo da semana. Refiro-me, como já devem estar a adivinhar, à dupla Paul & Paul.
Em relação a Magnier, apenas o conseguimos apanhar no dia do contrarrelógio (um dia caótico para entrevistas e onde aprendemos umas quantas lições), aproveitando o facto de ser menos requisitado nesse dia. Ele descansava junto às baias depois do seu (moderado) esforço, nós perguntamos se tem um minuto, a senhora que estava com ele não acha graça à ideia mas ele acena e disponibiliza-se. Um minuto é mesmo um minuto, tentámos sempre não desrespeitar o combinado e compreender que os ciclistas têm mais entrevistas para dar, recuperação para fazer, e que o foco deles não é em nós, mesmo que o contrário se verifique. O Silva vira-se para ele e diz que o "Big4" vai passar à história, agora é um "Big5" porque Magnier já não pode mais ficar fora dessa discussão. O francês concorda tanto quanto podia concordar sem ser arrogante e partilha ainda os seus sonhos, que são arco-íris. Estas pequenas interações criam, mesmo na minha perspectiva de membro não participante, uma relação entre nós e o ciclista. Fiquei mais contente por ele ter ganho no dia a seguir do que ficaria se ele não tivesse sido tão disponível para falar connosco. Se continuarmos a este ritmo, estou tramado que daqui a 3 anos torço pelo pelotão inteiro e isso é capaz de ser desgastante para a minha já instável estabilidade emocional.
Quanto ao Paul (ainda mais) júnior, que dizer? É um espanto, o miúdo. Na bicicleta, impressiona, defronta os grandes como se de uma prova amadora se tratasse, evidencia que a idade não é relevante quando o talento é estratosférico a este ponto. Eu estou, talvez até em demasia, entusiasmado com o que este rapazinho, adotado como português, pode vir a ser capaz de fazer. Ouso dizer, até, que desde que acompanho ciclismo de forma intensa, é o maior projeto de ciclista que já vi. E logo com a carga extra de ser francês, de carregar consigo o sonho de um povo que lhe vê vedada a vitória na sua prova há já 40 anos. É desta, eu acredito que sim e acredito que ele também acredita. Paul Seixas está ai e veio para ficar. Abriu a conta no Algarve (à semelhança do que tinha feito aí um outro talento, este esloveno, em 2019) e agora quem puder que o agarre. Mais do que a prestação nas "montanhas" algarvias, o seu contrarrelógio deixou-me boquiaberto e, se dúvidas ainda havia depois do Avenir e dos Europeus do ano passado, acho que elas se dissiparam agora. Este miúdo, assim não se estrague e não o estraguem, é realmente the next big thing. A questão não é "se" vai ganhar, a questão é só "quando" e "quantos". Pelo menos é nisso que eu acredito. E o falso plano marcou já a sua posição no que à relação com o prodígio PORTUGUÊS diz respeito. Uma pequena entrevista no primeiro dia, quando fomos convidados a participar num ajuntamento de jornalistas que queria falar com ele, uma camisola autografada no último, a que ainda se juntou uma bela foto para a posteridade. Se ele vier a ser isto tudo que eu digo, ótimo, tenho provas do que e quando o disse e temos esta foto. Se não vier, também ninguém se vai lembrar.

Eu prometi que ia tentar evitar escrever um lençól daqueles que dão para salvar 10 Rapunzéis e ainda sobra, mas não posso, não me perdoaria, deixar de referir a grande estrela daquilo que foi a cobertura falsoplanista desta prova. António Morgado e falso plano é uma história de amor que começou ainda na Figueira. Quer dizer, se calhar começou na Figueira, efetivamente, mas do ano anterior. Ou até, se quisermos ser mais precisos, começou em 2023, ainda o Bigode Voador estava na Axeon quando o entrevistámos e encontrámos um rapaz tímido nas expressões mas corajoso nas palavras e nas ambições. E antes que se questionem sobre isso, sim eu sou muito dado a histórias de amor e sim, tive a oportunidade de entrevistar os meus dois ciclistas favoritos ao longo desta semana (Pogačar e Bettiol, desculpem, mas se não vêm ao Algarve não podem ter lugar nesta lista).
Morgado é, de facto, alguém que não parece apreciar particularmente as responsabilidades de comunicação a que o seu talento obriga. Preferia, creio eu, só ter de pedalar e fugir aos microfones. Fazer o que faz bem, tão bem, sem ter de se justificar por isso. Mas, feliz ou infelizmente, não é assim que as coisas funcionam e ele é "obrigado" a estes compromissos. Para o caso desta história, acho que posso afirmar peremptoriamente que é felizmente. Conseguimos, aos poucos, desmanchar o Morgadão. Ele começou a habituar-se a nós, às nossas brincadeiras, ao nosso registo e, claro, ao nosso pedido musical diário. Isto foi talvez a maior conquista do falso plano esta semana, conseguir que para o Morgado as entrevistas não fossem uma coisa assim tão chata e que lhe dessem alguma pica, até. Foi um evoluir na "relação" que teve o seu ponto alto no dia do contrarrelógio. Morgado termina um esforço hercúleo que o coloca acima do esperado na tabela classificativa do dia, pára para se hidratar e responder aos jornalistas a sério e arranca rumo ao autocarro. Nós, já no meio da rua, chamamos por ele e ele pára imediatamente, dando um primeiro sinal de achar piada à brincadeira que vínhamos desenvolvendo com ele já desde a primeira etapa. Quando o questiono sobre ter dito que não vinha para a GC mas o seu comportamento na estrada apontar no sentido contrário, tendo feito o contrarrelógio a full gas, ele encara-me nos olhos com o ar mais sério possível e diz "Ah, era para vir a fundo? Ninguém me disse que era para vir a fundo, vim a rolar em zona 2". Estava consumado o objetivo. O Morgadão estava objetivamente a dar a volta ao texto e a gozar connosco, entrando a pés juntos na brincadeira e dando-nos o prazer de brincar com ele (e dando-nos também alguma viralidade, diga-se, isto teve uns 3 mil likes que eu nem sabia que eram possíveis de alcançar). Respondendo à pergunta seguinte, a pergunta da praxe da música do dia para a qual ouso apostar que ele já trazia resposta preparada do hotel, falou de Adéle mas o pouco oxigénio que lhe chegava ao cérebro depois de tão intenso esforço não lhe permitiu tirar da gaveta o nome da música e foi buscar um célebre "Redorat - Com a Gang" que se tornou instantaneamente um hino do falso plano.
Quebrámos, finalmente e definitivamente, a barreira que separa os ciclistas de nós, e isso foi um gozo tremendo. Obrigado ao Morgado por nos ter dado essa oportunidade e foi por demais visível, através das interações nas redes, que não fomos só nós que sentimos isso. Foi uma delícia para as pessoas verem um ciclista estafado a gozar com a situação. No dia a seguir, eu ia estragando tudo, naquele que foi o meu momento mais baixo desta semana de tão boas recordações. Como já referi, não estou confortável a fazer entrevistas, mas a do dia passado, improvisada, com o Morgado tinha corrido tão bem que achei que podia ser eu a tratar do Morgado outra vez. Erro crasso, mas também com erros se aprende.
Foi um dia stressante, o da quarta etapa, tínhamos dormido pouco e acordado mais tarde que o suposto e arrancado a correr para a partida. Perto do momento de chegar o Morgado e enquanto os meus colegas entrevistavam outros ciclistas, recebi uma "reprimenda" por parte da organização. Não estávamos no sítio certo e isso estava a chatear alguém. Ajustámos, voltámos a ser repreendidos pois não tínhamos percebido bem o problema inicialmente. Isto colocou-me num estado de nervos pouco aconselhável, eu gosto de ter tudo sobre controlo, a relação com as pessoas da organização é da minha responsabilidade e nós queríamos tudo menos arranjar problemas às pessoas que nos deram a oportunidade de estar ali.
Chega o Morgado, temos de furar entre os jornalistas a sério para nos colocarmos na posição que nos foi indicada, e eu deixo que a ansiedade que me tolda em relação às entrevistas, os nervos da situação delicada em que nos encontrávamos com a organização naquele momento e até a pressão vinda da repercussão que este mini "fenómeno" Morgado/falso plano estava a ter nas redes sociais, tome conta de mim e dou a minha pior versão. Nervoso, trémulo, inseguro, esqueço-me da pergunta, repito a pergunta mais chateado ainda. Não gostei da imagem que deixei nesse dia, apesar da total compreensão e simpatia que o Morgado demonstrou. Nós somos os cool guys, nós andamos aqui a brincar e a beber copos e, mesmo que isto cresca como vai felizmente crescendo, não podemos nem queremos deixar de ser isso. Um grupo de amigos que se diverte a fazer parvoíces. Nesse dia eu esqueci-me disso e deixei que o meu medo, a pressão dos likes, a pressão de agradar se impusesse. Peço desculpa aos meus colegas, ao Morgado e aos nossos seguidores por isso. Foi um mau momento, aprendi com isso. Estou aqui para me divertir, o resto é e tem de ser pouco relevante. Espero não ter estragado nada, nem com vocês, nem com o Morgado, que tem de ter achado a situação estranha. Acho que não estraguei, acho que vocês compreendem. E aprendi a lição, não me vou voltar a esquecer do que estou aqui a fazer. O Morgado não me deu hipóteses de me redimir, não arrancou no último dia e não fechámos, para muita tristeza de muitas famílias, a nossa playlist. Oportunidades não faltarão e, enquanto ele quiser continuar a responder, nós vamos continuar a perguntar.
Não quero fechar o departamento entrevistas nesta nota "negativa" por isso fecho com mais uma história de amor, apesar de desta vez eu não fazer parte dos protagonistas. O Nunão, recém-chegado ao falso plano, foi um grande reforço e foi a estrela das nossas entrevistas. Sabe tudo sobre todos os ciclistas, aguenta-se com o inglês, tem um portunhol de chorar a rir, e tentou ajustar-se ao nosso jeito durante esta semana, embora o próprio admita que esse lado mais humorístico não seja onde ele se sente mais em casa. Fez um grande trabalho, é preciso dizer-se. E quando já pensava que depois de entrevistar Philipsen já tinha vivido o seu momento mais alto, eis se não quando surge Thomas Gloag. O Silva adorou-o. Ao Silva, se falam de fantasy com amor, conquistam instantaneamente. Foi uma entrevista improvisada, no meio da rua, no dia do contrarrelógio, e a química fala por si, como vão poder testemunhar em baixo. Ainda voltou a falar com ele no dia a seguir e queria fechar a "trilogia" no Malhão, mas não se proporcionou. Mais oportunidades virão, amigo, e se tu as mereces.
Os sprints, as montanhas, os palmiers
Se de manhã o foco era entrevistar, depois o foco era ver os nossos entrevistados a voar pelas estradas algarvias. Ver uma corrida por dentro é uma experiência completamente diferente do que ver em casa e inclui, muitas vezes, não ver a corrida. Nós andámos com muito trabalho esta semana, quando terminado o período matinal de meter um bidon à frente de tudo o que mexia, entrávamos em modo edição e publicação. Ainda dávamos um saltinho até ao pórtico que marcava o inicio da etapa para fazer uma pequena antevisão do dia que se avizinhava, mesmo armados em gente responsável. Às vezes ainda bebíamos um cafézinho, quando bem acompanhados por malta que se metia conosco, como foi o caso do primeiro dia em que conhecemos um dos nossos mais antigos e fiéis seguidores que se apresentou perguntando que bebida alcóolica estava no bidon. Gostámos logo dele. Pelo caminho espreitávamos o que se passava nos Emirados, que nós nunca podemos perder pitada de ciclismo, somos mesmo esse nível de doentes, sobretudo se envolver equipas nossas na fantasy e flops monumentais do Remco (nota para o facto do falso plano, enquanto clube, se ter estreado a ganhar no World Tour na prova vencida por Del Toro, beijos pójaiters e para os Lingrinhas). Procurávamos um tasco para comer rápido e bem, missão na qual passámos sempre com distinção. As gentes do Algarve receberam-nos de braços abertos, sabem fazer boa comida e notei um esforço para receber bem a prova e os seus membros, um prazer em fazer parte do evento, que acho que é de saudar.
Como disse, com toda esta correria às vezes dificultava a missão de ver a corrida, mas vi mais do que o suficiente para saber o quão boa, entretida e estimulante foi. No primeiro dia tive logo uma experiência espetacular quando, chegados à meta, percebemos que temos acesso a um sítio VIP-cenas, e uma vista espetacular sobre o sprint em falso plano que Magnier venceu. Ora digam lá se não invejam este spot. Damn, às vezes é bom ser VIP-cenas.
Na Fóia tive o meu primeiro momento de foco ciclístico a sério. Tanto Ayuso como João Almeida tinham avisado que este seria o dia das diferenças, que esta vertente da Fóia é que era realmente dura (quantas vertentes da Fóia há? porra, todos os anos uma nova). Chegámos cedo, nesse dia, porque estávamos com medo do estacionamento e da deslocação até ao topo. Bem, coisa de amadores. Como "press" que fomos nesta prova, tínhamos acesso ao topo de carro e a lugar para estacionar a 50 metros da meta. Há vidas piores, confesso. Dá para fazermos um tempinho, comer uns palmiers, beber um café e acompanhar a corrida com calma. O dia, esse, já se sabe, foi histórico. A primeira vitória de Paul Seixas aconteceu a 20 metros de mim e duvido que algum dia me vá esquecer disso, pelo menos enquanto me lembrar de alguma coisa. Foi história à minha frente e essa felicidade abafou a pequena desilusão que foi o desempenho do (outro) herói da casa, já que João Almeida mostrou ousadia, atacou e tentou fazer diferenças, mas nem a sorte, nem as pernas tiveram do seu lado na Fóia. Nem no resto da prova, diga-se. Mais oportunidades virão também para ti, Bota Lume, o Algarve está a começar a ficar em dívida contigo e não tenho dúvidas que mais ano, menos ano as pagará (e é para aprenderes a não ofereceres vitórias, ainda menos ao CHRISTEN, seu bom samaritano inconveniente).
No dia do contrarrelógio não vimos nadinha, só acompanhámos pelo PCS os tempos. Estávamos depois da meta a falar com os ciclistas e perdemos assim mais uma grande prestação de Paulinho Seixas e a confirmação que não era ainda o ano do Bota Lume. Foi parvoíce da nossa parte, até podíamos ter visto a corrida da varanda de casa, mas armámo-nos em espertos e fomos trabalhar. Vá, trabalhar e ser parvos. Somos melhores numa destas categorias do que na outra, mas deixo esse julgamento ao vosso critério.

Um dia calmo em Lagos foi o que se seguiu, com mais uma vitória contundente do mais rápido sprinter em prova. Nota merecida para o improvement em relação ao ano anterior. Parecendo que não, só haver uma meta e os ciclistas não sprintarem todos no meio do público ajuda ao espetáculo. Paul Magnier levantou os braços, a minha fantasy bateu palmas e tudo estava a postos para o dia das grandes decisões.
O Malhão é um local icónico. Para os ciclistas, para as gentes locais, para o falso plano e para quem gosta de trocadilhos porque afinal, que vida é a tua sem um bom trocadilho? Só comer e beber? Ai trititim. Passear na rua?
O ambiente estava, como sempre, espetacular. Tivemos o previlégio de subir de carro já bem perto da hora da primeira passagens dos ciclistas e o ruído, as pendentes, a cerveja e as bandeiras tornaram essa experiência inesquecível. Entre pessoas que nos reconheceram, malta que só queria festa e gente que colocava em causa a capacidade do meu carro em chegar lá acima, poucas foram as personagens que não se meteram conosco. E que bom que é, essa conexão tão única que se cria quando se aglomeram pessoas com o único objetivo de juntas desfrutarem do prazer deste hobbie que partilham entre si. Parámos o carro e descemos o Malhão para ir ver a primeira passagem com os adeptos, fugindo um bocadinho à zona VIP-cenas (olhando à posteriori, talvez lá devêssemos ter ficado para a segunda passagem, subidas destas em ambientes destes são para ser desfrutados no meio da multidão, mesmo que a sombra, os ecrãs e as bebidas frescas saibam bem).
Sempre simpático ir recebendo o carinho das pessoas ao longo da subida já que, mesmo este projeto não tendo como objetivo principal chegar a muita gente, faz tanto mais sentido quanto mais forem os que se vão juntando a nós e partilhando connosco esta aventura. Na primeira passagem, adivinhem quem vem na frente. Julian Alaphilippe, vindo da fuga do dia, lidera a corrida juntamente com Max Schachmann e lá me mando eu para o meio da estrada a gritar pelo meu menino lindo. Acabou por ficar sozinho na frente, fruto do infortúnio do seu companheiro de fuga, e por ser Alaphilippe. Andar ao ataque quando as hipóteses já não estão lá, contorcer-se na bicicleta para prolongar por mais uns minutos uma aventura que já está condenada ao fracasso, ser apanhado e iniciar a última subida bem colocado para ao fim de 200 metros abrir, naturalmente, para o lado. Faz sentido? Nem por isso. Então porque é que ele o faz? Panache, acho eu. Acabou por ser o mais combativo do dia e por receber uma das maiores ovações do dia quando se dirigiu ao palco para receber essa distinção. Afinal, amigos, como eu já suspeitava, posso ser o mais maluco pelo Loulou, mas não sou o único.
A história da corrida, essa, vocês já sabem. Juan Ayuso veste a pele de vilão, corre de forma fria e calculista e pelo ecrã vou percebendo que esta história já tem um fim definido. João Almeida tenta, a ritmo, criar algum problema ao espanhol mas não estava forte o suficiente. Ainda tive esperança no nosso Paulinho, mas o recém-chegado à Lidl estava com tudo para iniciar esta parceria da melhor maneira e seguiu sempre, de forma calculista, incólume no controlo da corrida, aguardando pelo momento certo que chegou quando, já nos 50 metros finais, ultrapassou Oscar Onley em direção à sua consagração como o mais forte da Algarvia. Ayuso, mesmo merecendo da nossa parte alguma relutância ao nível pessoal, é indiscutivelmente um gigante ciclista e cujas capacidades, tenho eu ideia, ainda não foram exploradas na sua totalidade. Espero que seja agora que possamos ver todo o seu potencial, ele já merece as condições para o fazer e, nós, deste lado do ecrã, enquanto bons fãs deste desporto, sabemos que quantos mais se juntarem à festa, à discussão das vitórias, mais ganhamos nós também.
Honra seja então feita ao Rei dos Algarves, Dom Juan Ayuso.

Luzes, câmara, ação
Ora bem, então o que a gente vinha cá fazer era gravar podcasts, não sei se ainda se lembram desse pormenor. Terminada a etapa e aplaudidos os guerreiros na cerimónia do pódio, iniciava-se a busca por um sítio que permitisse a gravação da nossa amena cavaqueira camuflada de rescaldo. Esta é a parte em que nós somos, ou pelo menos eu acho que somos, bons. Senti-me muitas vezes desconfortável durante esta semana, em papéis nos quais não estava habituado a encontrar-me, e isso ajudou-me a perceber onde é que eu estou realmente confortável e o que eu gosto realmente de fazer.
Assim que me saem pela boca as palavras "Sejam bem-vindos a mais um episódio do videocast falso plano" estou nas minha sete quintas. Vocês podem discordar disto, ao nível da qualidade, é legitimo, mas é como eu me sinto. Adoro estar entre os meus amigos a dissecar a corrida, a brincar um pouco sobre os fatores que a contornam, a atribuir prémios de ciclista mais falso plano a Alessandro Pinarello pelo simples facto do nome dele ter relação com a tão neste espaço amada palavra "pino". Adoro distribuir bolas, enquadrar temas, desafiar companheiros de painel, surpreendê-los aqui e ali com um quiz, arreliando-os um pouco. E foi isso que fui fazendo, ao longo desta semana, pelos cantos do Algarve, em sítios mais e em sítios menos apropriados. Eu disse que é a parte mais fácil, mas não pensem, ou não fosse isto a vida do falso plano, que não nos cruzámos com peripécias inesperadas.
No Alto da Fóia pedimos à senhora do único restaurante da montanha que nos deixasse gravar lá num cantinho, pedido que foi amavelmente concedido. Problema técnico, pois claro, já cá faltava, e logo no dia em que tínhamos um convidado. Quando o Eduardo Soares da Silva, da Rádio Renascença, chega ao pé de nós e eu tenho de lhe dizer que não estamos a conseguir meter os microfones a funcionar, caiu-me tudo. Fiquei triste, dei por mim a pensar que ainda temos traços de demasiado amadorismo para nos mexermos neste meio. E temos, mas está aí parte da graça disto. O Eduardo compreendeu, não levou a mal e combinámos para o dia seguinte. Já nós, arrancámos Fóia abaixo a dar tudo do meu Up, pobre coitado, perdemo-nos pelo caminho (são mesmo 1000 vertentes), lutámos contra o medo de velocidades do Silva que dava indicações como quem pedia que o destino fosse já a seguir à próxima curva. Felizmente chegámos bem, eu sou um rapaz responsável a conduzir mesmo quando com pressa, e, depois de apanharmos o Pratas que tinha um telemóvel onde os microfones funcionaram, gravámos tranquilamente na nossa varanda. A tarde e a más horas, estafados, stressados, mas gravámos. E, apesar de estafado e tenso, quando vos dei as boas-vindas a mais um episódio do nosso videocast, voltou a estar tudo bem.

Outro episódio caótico esperava-nos no dia seguinte. Terminado o contrarrelógio, dirigia-me para o Eduardo, que depois da desfeita da véspera se disponibilizou a participar no dia seguinte, quando o Vasco me intercepta e me diz "se quiseres ter o Mosquera no pod, bora, mas tem de ser agora e gravam já aqui no pódio". Okaaaay Vasco, é na boa, eu nem preciso de me preparar nem nada (em defesa dele isto já estava mais ou menos apalavrado mas para o dia seguinte). Claro, não podia recusar, era uma oportunidade de fazer uma coisa diferente e potencialmente interessante, até porque já tinha recebido boas indicações do que ele valia enquanto comunicador e as parcas palavras que tínhamos trocado com ele no primeiro dia corroboravam essa ideia. Além disso, eu tinha interesse em perceber como era, e o que pensava, este homem que agora chegou a Portugal com uma visão ambiciosa para o nosso ciclismo. Ambição é sempre bem-vinda, assim seja acompanhada de trabalho. Dessa maneira talvez se atinja algum sucesso, que é, naturalmente, o que eu desejo ao Mosquera que tão simpático connosco foi.
Quando eu recebo esta informação eu nem sabia do paradeiro dos meus dois colegas de painel. Pois não é que se encontravam a virar Burger King. Liguei, pedi urgência, apercebi-me que não tinha o tripé comigo pois estávamos em Vilamoura e o plano era ir gravar a casa, pedi ao Silva que fosse a correr buscá-lo enquanto eu empatava um pouco o Vasco e o Mosquera, dizendo que eram só mais dois minutinhos. Neste período calhou-nos uma sorte grande e eu ainda não percebi bem porquê mas há coisas que é aceitar e calar. Jorge Rodrigues, da Federação, perguntava-me se eu queria levar de recordação umas camisolas da corrida. Uma branca (a que acima viram assinada por Paul Seixas), uma verde e uma amarela. Quando ele referiu que eram XS, eu apressei-me a dizer que estava perfeito pois eram, como vocês devem imaginar, exatamente o meu tamanho. Mais um tesourinho para levar de recordação desta prova e da simpatia das pessoas que por lá nos receberam. Entretanto chega o Silva, todo suadão, com o tripé na mão. Vamos lá então, sentarmo-nos no pódio com o diretor da corrida, sem nada preparado, e ver como é que isto sai. A naturalidade e a simpatia do convidado facilitaram e muito o nosso trabalho e penso que, apesar de não ter sido fácil (até porque o telemóvel que gravava só tinha 20% de bateria e eu estava com o coração nas mãos com a hipótese daquilo subitamente se desligar), ficou ali meia horinha de conversa interessante.

Antes de passarmos à Tasca que acolheu a despedida destes 6 episódios especiais em parceria com a Volta ao Algarve, queria só falar do prazer que foi sentar-me com o Eduardo Soares da Silva e ficar, por uma vez, do outro lado da barricada. Adoro moderar, pelas razões que já acima enunciei, mas foi muito divertido poder sentar-me completamente livre de preocupações, acompanhado pelo belo pôr-do-sol em Lagos, a falar de ciclismo com mais um maluco por isto. O Eduardo, apesar das minhas duas falhas quando o convidei para estar presente nosso podcast, manteve intacto o seu convite e lá fui eu participar, com muito gosto, no "Estendal da Volta".
O episódio maior da sua rubrica diária era, até à data, de cerca de 25 minutos. Claro que eu não me calo nem por nada e falámos 47 minutos. Ele disse-me que gostou e teve muito conteúdo interessante. Eu acredito nele, mas mesmo que ele não o tivesse achado, seria o que ele diria, pelo que talvez me tenha excedido um bocadinho. Mas eu gosto muito disto de falar de ciclismo pá, não me contenho. Começámos em Magnier e passámos pelo estado da INEOS, o hype de Seixas e as fragilidades do João. 47 minutos muita bem passados, obrigado pela oportunidade, Eduardo.

No último dia, finda a prova, demos uma vista de olhos pelo Malhão a ver onde poderíamos gravar. Não era difícil arranjar um sitio bonito ali, tanta é a beleza daquele espaço, mas o sol de frente que já nos tinha incomodado na véspera preocupava-nos e foi aí que o Pratas se saiu com a bela ideia de voltarmos à Tasca, assim com T grande, onde nos tínhamos abastecido a caminho do Malhão. O Senhor Jorge Pinto, do Tascão "Portas da Serra", já nos tinha servido umas belas sandes de carne na ida e não hesitou em concordar com a nossa gravação ser feita lá, embora eu tenha algumas suspeitas quanto ao seu conhecimento do que é, para que serve e do que trata um podcast. Disponibilizou-se para nos dar tudo o que pedimos, luz, uma tomada, algum silêncio e umas cervejinhas. Diga-se, porque é justo dizer-se, que não havia multibanco naquele estabelecimento e que nós avisámos que não tínhamos dinheiro vivo quase nenhum, algo que não foi problema para o Senhor Jorge. "Bebam o que quiserem e pagam com o que têm". Há gente que é mesmo gente boa. Gravámos o nosso episódio, já com uma certa melancolia de ser o último, já com uma certa pressa porque ainda tínhamos de ir gravar à ABola o nosso episódio semanal e já com um certo cansaço que me levou a cometer uma gaffe que, de tanto falso plano ser, ninguém se importou que "estragasse" um pouco do episódio. Uma mota começa a trabalhar no exterior, eu espero um minuto, espero dois, e levanto-me para ir explicar a situação e pedir que fosse desligada. Claro que o meu cérebro não trabalhou o suficiente para se recordar que eu tinha um microfone na lapela e que os meus protestos ficariam registados. Deixa-os estar, também fizeram parte do programa.
Este último episódio deu-me talvez o meu frame favorito de toda esta aventura. O frame que dá capa a esta crónica. Um frame em que se vê que, apesar do nosso cansaço acumulado, e era muito, apesar de algumas desavenças entre nós, que também aconteceram (desculpem todos o meu mau feitio e obrigado pela vossa paciência), apesar das condições imperfeitas para a gravação de um episódio, apesar da mota a roncar lá fora, estamos contentes, sorridentes, divertidos e felizes a fazer o que nós mais gostamos. Falar de ciclismo com os amigos. E isto pode ter-se tudo tornado um pouco mais do que isso, mas não precisa. Se for só isto, já é incrível, e isto nunca poderá deixa de ser.

Era, e é, uma caneca fachabôr
Depois das entrevistas, da corrida e do podcast, tinha que vir, obrigatoriamente, a nossa recompensa. Muitas vezes uma recompensa líquida e fresquinha. Menos vezes que o habitual, devo confessar, o falso plano esteve abaixo dos seus pergaminhos e com tantas coisas para fazer e tantas horas diárias na estrada, acabou por deixar um pouco de parte o álcool. Tentaremos não repetir o mesmo erro e estar mais de encontro àquilo que são os nossos princípios fundamentais no futuro.
Ainda assim, houve alguma patuscada boa, embora sem qualquer alcoolémia excessiva, o que é de lamentar. Na noite da despedida do Dias fomos jantar a uma tasca que não é tasca mas se chama tasca porque se se chamar tasca parece mais aquele gourmet que não é bem gourmet, sabem? E foi bem bom, mesa cheia, música boa (super playlist a desse senhor), copo cheio e muita discussão sobre a vida e sobre o futuro de Paul Seixas no ciclismo. Dois temas que dão para a noite inteira. O principal conhecimento que retirei desta noite foi que o Dias conhece uma app que tem todas as rádios do mundo, e fez uma seleção das rádios favoritas dele, que incluía coisas realmente esquisitas. O Dias é realmente esquisito. Eu amo-o assim, mas factos são factos. Umas cervejinhas na mesa, outras já à porta, outras antes de deixar o senhor fechar a porta, só para a despedida. A abaladiça, como dizem os alentejanos numa das expressões que eu mais gosto nesta nossa língua, já que significa que vamos só beber mais uma, vamos só estender mais um bocado este momento em que nos encontramos, a conversar, a divagar e a ser felizes de copo na mão com as palavras soltas.

Uma das noites fomos convidados para jantar pelo Francisco Sobrinho, vulgo Sobr'Watts, e a noite estendeu-se até um pouco mais parte que o previsto, mais por a conversa estar boa do que propriamente por estarmos a beber desalmadamente. Quando malta que gosta de ciclismo se junta resulta sempre em horas de conversa para dar e vender e este foi mais um exemplo disso. Não cobrimos nem o mesmo espaço noticioso, nem o cobrimos da mesma forma, mas há sempre pontos de contacto e foi isso que fomos procurando ao longo da noite. Ele tentou-me convencer das valências do pelotão português, das quais eu muitas vezes sou descrente, e eu tentei explicar-lhe os meus pontos de vista sobre alguns temas mais sensíveis que cairam em cima da mesa. Isto e gozo, ofensas, elogios, discórdias e maldizer, como não podia deixar de ser.
Como já disse, as patuscadas não foram insanas, mas ainda fomos beber uns copos no dia em que o Roger chegou, em sua homenagem.

E depois mais uns. Também amanhã isto já acaba, não deve ser grave. E a malta gosta de conversar, saber da vida uns dos outros e deixar só o tempo passar. Estávamos ali a ver se a energia aparecia para darmos continuidade à noite. Não apareceu, mas, como é mote deste artigo, mais oportunidades virão.

Os últimos copos foram consumidos na já referida Tasca final, e vejam lá se isto não tem aspeto de que se a gente não gostasse mesmo de ciclismo ficava logo ali para o dia inteiro. Oh Senhor Jorge, aponte aí que em 2027 a gente volta. E volta sem pressas. E com dinheiro vivo. A gente promete.

Fue un placer, señores
Todo este processo teve tanto de inesperado, como de louco, improvisado e desafiante. Saímos claramente da nossa zona de conforto, fomos parar a fora de pé, abrimos novas portas, conhecemos novas gentes e chegámos a muito mais pessoas que anteriormente. Foi cansativo e stressante mas muito recompensador. Quando olho para esta semana, olho para muitas coisas que podemos melhorar, ao nível de conteúdo, ao nível de eficiência, ao nível do processo, da gestão de tempo, da gestão de relações e do aproveitar da prova, algo que em certos momentos deixámos (deixei) um pouco de parte. Tudo isso só me faz ficar mais entusiasmado com as oportunidades que virão, onde seremos melhores, onde estaremos mais leves, onde seremos mais experientes e onde aproveitaremos ainda mais toda a envolvência que uma prova desta dimensão tem.
É um prazer tremendo ter uma prova desta dimensão em Portugal, com os melhores do mundo a, anualmente, marcarem presença e fazerem história nas nossas estradas. A entrarem em contacto connosco, aproveitando o facto do ciclismo ter essa beleza tão própria de não acontecer dentro de um estádio, de não se pagar bilhete, de passar à porta da casa e da vida das pessoas. É por isto que este desporto é o que é, mesmo manchado pelos escândalos que sempre o perseguem. Porque une as pessoas e as traz para dentro do próprio desporto, porque quando incentivamos um ciclista a um metro de distância enquanto ele sofre nós sabemos que ele ouve. E no que ao amor pelo desporto diz respeito, presenciei um grande exemplo esta semana que, não sabendo onde encaixar neste texto, guardei para aqui.
O meu homónimo Henrique, filho de duas das pessoas que mais gostei de conhecer ao longo desta semana, o Nuno Silva (Super Bock no Instagram que não corre muito mas é um 'ganda gajo) e a Marta Lino, dá-nos uma lição de amor pelo jogo e que de pequenino é que se torce o pepino. Ele deve ter uns quatro anos, mas conhece os ciclistas todos e era o rapaz mais bem equipado de todo o pelotão. Ora andava com um casaco que tinha arranjado do Morgadão, ora andava com bidons de qualquer equipa, ora andava a pedir (e a conseguir) autógrafos de todos os ciclistas presentes (TODOS). Às vezes também andava mais mal-disposto, o rapaz também tem direito, porque algum ciclista lhe tinha recusado (provavelmente por não ter ouvido) alguma coisa, mas mesmo quando a sua mood não era melhor, lá esticava a mãozinha para cumprimentar aqui o seu homónimo. O futuro está assegurado minha gente, enquanto existirem pais a transmitir esta paixão aos filhos como o Nuno e Marta fazem, e como eu espero um dia fazer.
Para fechar, agradecimentos. Para o momento "Preço Certo" de hoje temos muita gente. Não sei bem como escrever isto tudo sem ser foleiro nem demasiado Fernando Mendes. Mas o Vasco merece uma palavra da nossa parte, pela confiança e ousadia que teve em ter-nos como parceiros, assim a merecem também o Rafa, o Jorge, a Marta e o Mosquera. Tudo gente da organização que se esforçou por nos convencer que nós devíamos realmente estar ali, que não era engano. Também tenho de agradecer ao José Rodrigues, fotógrafo da organização, ótimo contador de histórias e pai do igualmente talentoso e geek de ciclismo Rodrigo Rodrigues. Pessoas como o Eduardo Soares da Silva, o José Volta, a Juliana Reis ajudaram a tornar esta experiência ainda melhor. O Morgado, o Alaphilippe, o Seixas e o Gloag são as estrelas da companhia, mas por momentos foram só seres normais a falar connosco, e que bom foi cruzar essa fronteira. Aos meus colegas que me aturam e que são lindos nas suas virtudes e nos seus defeitos. À moça do pequeno-almoço que me vinha sempre oferecer café mesmo quando não me deixavam entrar na zona VIP-cenas e da qual eu tenho muita pena de não me recordar do nome. A vocês, que vão fazendo isto tudo fazer sentido e nos vão entregando força e vontade de continuar. Sobretudo aos que estão a ler até aqui, grandes malucos, não têm mais nada que fazer?
Voltarei a escrever-vos na Flandres, naquela que será mais uma aventura onde este projeto me vai levar. E onde vou finalmente ver o Pogačar ao vivo, já não era sem tempo. Vai ser a trabalhar para o Morgadão, mas cada um tem de se saber meter no seu lugar.
Estamos a ver se mandamos fazer uma bandeirona do falso plano para ocupar o Oude Kwaremont. Digam lá que não era do caraças.
Até lá, um abraço do vosso estimado moderador,
Henrique Augusto
