Visita de estudo à Figueira da Foz — 3.ª Edição
Amigos, cervejas e Morgadão. Os passeios do falso plano nunca falham.
Se há coisa que o falso plano gosta é de ir passear. No fundo, pode-se até argumentar que todo este projeto existe com esse objetivo em vista: juntar amigos para ir ver corridas de ciclismo e beber uns canecos. Se for "só" esse o objetivo é mau? A mim parece-me um ótimo plano. E, até ao dia de hoje, um plano que nunca falhou.
Era sexta-feira e lá nos fazíamos à estrada para cumprir esta tradição tão falsoplanista de viver a Figueira como se de um monumento se tratasse. Esta brincadeira nasce no facto de a Figueira ser um elemento fundador do falso plano. Era 2023, tínhamos acabado de começar a escrever umas parvoíces sobre ciclismo e a encontrarmo-nos, virtualmente, aos Domingos para, durante uma média de 3 horas, dizermos ainda mais parvoíces sobre ciclismo (tirando a duração dos podcasts, é perfeitamente legitimo alegar que pouco mudou entretanto). Decidimos então aproveitar a oportunidade de termos algumas equipas World Tour a correr perto de casa para nos dirigirmos à Figueira e para, em alguns dos casos, nos conhecermos pessoalmente. Foi o início do fim, já que se tratou da confirmação que este projeto tinha pernas para andar, dado que partilhávamos a mesma doença por ciclismo e por cerveja. Podem encontrar a história desses dias aqui - Visita de estudo à Figueira da Foz.
Mas este texto que vos escrevo é sobre a edição de 2026. André Dias e Miguel Pratas foram os meus companheiros de viagem e depois de 200 quilómetros feitos a colocar a conversa em dia, a prever o dia seguinte e a contemplar os estragos que as mais recentes intempéries têm deixado sobre o nosso belo país, chegávamos então à Figueira para o início de mais uma aventura.

Primeira missão do dia era recolher as nossas credenciais. Ano após ano, continuam a achar-nos dignos de sermos press, e ano após ano eu continuo a ficar surpreendido com isso. Sinto-me tudo menos jornalista e sinto sempre que este projeto está deslocado disso que são os media, a cobertura de corridas ou a seriedade do profissionalismo. Fazemos isto por pura carolice e porque nos divertimos muito. Credenciais recolhidas, passemos à cerveja, e estão os dados lançados para mais um fim-de-semana que é sempre incrível. Perguntamos a uma senhora de idade onde devemos ir petiscar e somos recebido com carinho do Norte e uma indicação precisa. Beijinhos para essa senhora.

Isto parece sempre que é só cerveja, mas a gente também "trabalha" um bocadinho. Bebendo da experiência do ano passado, onde aprendemos as dinâmicas de estar na zona press e das entrevistas, já sabíamos com o que contar no dia seguinte. À beira do pódio, para a apresentação das equipas, teríamos 1/2 minutos as equipas livres para nos dar uma palavrinha. Assim sendo, colocámos a startlist à nossa frente, selecionámos dois nomes por cada equipa e fomos pensando que perguntas fariam mais sentido para cada um deles. O plano era simples — uma pergunta a sério, sobre as pernas e os objetivos, e uma pergunta que, vá, tinha de conter uma pequena brincadeira ou provocação. Uma dose que tentámos tornar equilibrada entre não sermos só parvos mas também não repetirmos só as perguntas tradicionais que os ciclistas estão fartos de responder até à exaustão. Torna-se mais desafiante e interessante assim para nós, acredito também que para eles e espero que para vocês desse lado.
Jantarinho servido pelo grande Senhor Rogério, típico trabalhador da tasca tuga que não só foi sempre simpático conosco, como nos contou a vida dele e no fim ainda nos ofereceu uma "pomada" daquelas. Há poucas coisas tão boas como tascas. Na vida.
Seguia-se o reconhecimento ao percurso, sempre essencial a quem chega a uma prova com objetivos tão altos como os nossos. Estava uma ventania e uma chuva que vocês não estão bem a perceber, temi seriamente pela realização da prova. Realização essa que só se deu porque o apelido do São Pedro deve ser Santana Lopes, já que no dia da corrida estava um solzinho que não iluminava Portugal há já umas semanas. Grande Santana, sempre com tudo sob controle.
Um sonho que eu tenho, e que não deve ser partilhado pela maioria dos residentes, é ver aquela Rua do Parque Florestal toda graffitada, como se faz lá no estrangeiro. Seria sinal que esta dinâmica crescente da prova se mantinha por mais uns anos e que o publico português adotava cada vez mais uma postura de festa perante este evento. Enquanto isso não acontece, nós vamos fazendo a nossa parte. E, temos de admitir, com um favorito em mente. António Morgado tinha-nos dado uma grande alegria em 2025 — Visita de estudo à Figueira da Foz 2.ª Edição — e a esperança que a festa se ia repetir era grande. Escrevemos o seu nome em "toda a parte" para que, mesmo que as forças não fossem as melhores, ele se lembrasse que estávamos todos a torcer por ele. Sim, quando deixamos estas mensagens aos nossos ciclistas, tomamos a liberdade de crer estarmos a falar por mais pessoas do que apenas por nós. Afinal, é sempre bonito ver um menino a vencer em casa.
A Figueira está deserta e alguém escreveu o teu nome em toda a parte.#FigueiraChampionsClassic pic.twitter.com/xNCA8QZcA6
— falso plano (@falsoplanoblog) February 13, 2026
O Dias lembrou-se desta frase, homenageando a lenda Manuel Cruz e os seus Ornatos Violeta. Adoro a cabeça do Dias.
E, claro, um pouco de auto-promoção, que nunca fez mal a ninguém.

Dia feito. Ou quase, vá. Falta a passagem obrigatória pela nossa muy estimada Casa Havaneza, local de culto para este projeto. Não se cometeram os excessos de outros anos, é verdade, mas a vibe daquele espaço faz-me sempre sentir em casa. Uns Gins depois, dirigiamo-nos ao hotel, amavelmente recebidos por uma personagem chamada Dona Manuela, de cabelo azul, que se mostrava preocupada com irmos partilhar uma casa de casal mas que era de tal forma gentil que deixámos já garantida a nossa reserva para 2027.
8 da manhã. Eu que nunca acordo às 8 da manhã. Se a minha chefe, do meu trabalho a sério, descobre que me levanto às 8 da manhã para ir ver bicicletas, estou em sarilhos. Mas acordo com gosto, e com entusiasmo. Até porque me deparo logo com este cenário que deixa qualquer um bem disposto. O Dias estava pronto.

Uma das novidades desta edição é que agora temos equipamento. Tipo projeto sério, mêm, 'tás a ver? Estilo conosco nunca falta, como é mais do que óbvio pela documentação abaixo. Azul, amarelo e preto, para não parecermos um gangue todos de igual. Em breve à venda nos locais habituais (estou a gozar, acalmem-se maltinha, nós sabemos que somos fixes mas não o suficiente para gastarem dinheiro no nosso merch).

Chegaram reforços. Rogério Almeida e Nuno Silva apresentam-se ao serviço pela manhãzinha. O recrutamento aos nossos amigos Lingrinhas tem corrido muito bem e estes são dois reforços de peso. Tomamos o pequeno almoço na pastelaria do costume, trocamos umas palavras com a nossa amiga e estimada convidada do podcast Juliana Reis e estávamos prontos para começarmos o nosso rol de entrevistas junto ao pódio.
Como quem segue este projeto de perto já vai sabendo, eu fujo dos ciclistas como o diabo foge da cruz. É uma característica minha, muito gozada pelos meus colegas e a qual, de certa forma, lamento. Deixo-me ficar na retaguarda e fico, orgulhosamente, a ver os meus colegas voar. A dinâmica estava oleada. Rogério Almeida seguia à frente, a pedir um minutinho aos ciclistas, Nuno Silva e André Dias tratavam das perguntas e Miguel Pratas tomava conta da câmara. Eu dava apoio moral, também é importante, não me menosprezem, caros leitores.
Não vou colocar aqui os vídeos de todas as entrevistas que fizemos, embora tenha vontade, para vos mostrar a simpatia e a abertura com que todo o pelotão nos tratou. Sem exceção, não recebemos um sorriso amarelo nem qualquer nega quanto aos nossos pedidos. É muito giro este projeto ter-nos trazido até aqui, dar-nos esta liberdade e oportunidade de privarmos um pouco com quem só estávamos habituados a ver na televisão, perceber que são feitos de carne e osso, que são pessoas acessíveis e não robots de alta performance, como de vez a vez podem dar a entender.
Queria, ainda assim, destacar alguns momentos deste período. Nélson Oliveira é de uma simpatia tremenda, caminhando sob a sua experiência e demonstrando o porquê de ser um tão útil capitão de equipa na Movistar. John Degenkolb, já um clássico das nossas entrevistas, é sempre super amável, disponível e engraçado — adora a Figueira, em 4 edições esteve sempre presente, e isso diz-nos logo tudo o que precisamos de saber sobre o carácter de uma pessoa. Toms Skujiņš surpreendeu-se com o paralelismo que nós quisemos, à força, impor entre a dureza da Figueira e a dureza dos mundiais/europeus/jogos olímpicos onde ele sempre se dá tão bem. Faltam 100 quilómetros à prova, diz ele. Por enquanto Tom, por enquanto. Rafael Reis deixou logo claro quais as intenções do dia, o objetivo era estar na fuga e podemos concluir que, embora triste por não se tratar de um prólogo, o especialista português é um homem de palavra. Yannis Voisard descobriu ser o ciclista mais "odiado" em prova por parte do público português e aprendeu que quem tira vitórias aos tugas não recebe perdão. Eulálio, we have your back. Arranjámos, claro, ainda espaço para o departamento de scouting do falso plano brilhar. Jarno Widar e Lorenzo Finn, duas das maiores promessas para os próximos anos no ciclismo mundial, não escaparam aos nossos ataques e, apesar de um pouco desconfortáveis, foram impecáveis e deram-nos a oportunidade de, quando eles ganharem coisas tão importantes como vão ganhar, podermos dizer que falámos com eles ainda eram uns miúdos. Zac Marriage tinha de ter o seu espaço, o falso plano também se faz disto. Amores inexplicáveis. O australiano não compreendeu exatamente porque raio havia, na outra ponta do mundo, um jovem alto que tinha escrito o seu nome na estrada. Não o julguemos, não é fácil de compreender. Eu falo com o Dias todos os dias e também ainda não compreendi bem.
The Zac Marriage Fan Club is officially open 🔓#FigueiraChampionsClassic pic.twitter.com/hZXHhl6Yqz
— falso plano (@falsoplanoblog) February 15, 2026
Anda Zac.
Falámos também, naturalmente, com o contingente tuga que se destaca na UAE. Ivo Oliveira é tudo aquilo que se vê na estrada. Disponível, simpático, honesto. E Morgadão é tudo aquilo que não se vê na estrada. A sua timidez e desconforto perante o microfone contrastam de forma gritante com a sua ousadia e confiança em cima da bicicleta. Há uns tempos tínhamos descoberto que era fã do gigante Allen Halloween e não podíamos deixar escapar esta oportunidade de nos metermos com ele sobre esse assunto, e de descobrir qual a sua música favorita deste autor tão peculiar e genial. Dia de um Dread de 16 anos, respondeu ele. A resposta óbvia é, em muitas ocasiões, também a resposta certa. 13 minutos de uma história angustiante, que retrata mundos que eu não conheci mas cuja letra sei na ponta da língua desde jovem (talvez demasiado jovem). Às vezes questiono-me sobre a irracionalidade de torcer por atletas pela única e exclusiva razão de terem nascido no mesmo cantinho à beira-mar plantado do que eu, mas acho que está aqui uma parte significativa da resposta. Temos as mesmas referências, crescemos a ouvir e a ver as mesmas coisas. Não há nenhum francês ou belga ou espanhol que saiba quem é a Bruxa. E, por isso, talvez não saibam que "não há maior petisco do que a liberdade", o que, de certa maneira, me deixa um bocadinho mais longe deles do que do Morgado.
Podem espreitar todas estas entrevistas que referi, e mais algumas (queria destacar que também falámos com Alex Aranburu e Pau Martí, mostrando um profundo conhecimento da prova e acertando nos quatro primeiros fácil), no nosso recém-criado TikTok, Instagram, Twitter e Youtube. Se gostarem muito, deixo o apelo a que sigam já que no Algarve haverá — em principio que no falso plano é sempre tudo em principio — mais disto.
Entrevistas feitas, direção Montaditos, outro emblemático espaço para este projeto que recebe, na sua versão lisboeta, as reuniões pré e pós gravação de todos os videocasts realizados. Uma cervejinha só para aquecer a alma, que estava frio, e começar a publicar algum do conteúdo criado. Não todo logo, ainda estamos a aprender a mexer nestas coisas, mas demos o nosso melhor e não podíamos perder de olho o prato principal do dia, que era a corrida propriamente dita.
Paragem rápida para abastecer de gelo e das obrigatórias minis e em menos de nada já lá estávamos. Uma cambada de falsos a subir o Parque Florestal e a ser simpaticamente recebida por muita gente que já nos vai reconhecendo. Uma sensação estranha, confesso, mas muito boa. A ideia de que fazemos isto e há quem realmente consuma, desfrute e goste do nosso conteúdo ajuda naturalmente a dar sentido a tudo isto. Não é, nem nunca foi, o foco primordial, mas é agradável de constatar.
Estávamos prontos para a passagem dos guerreiros. A primeira, de três, voltas não trouxe grandes surpresas, apesar de Pedro Pinto, da Efapel, merecer o destaque pela sua combatividade e resistência numa fuga que incluía ciclistas de equipas de calibre superior. Essa coragem valeu-lhe o prémio da montanha no fim do dia e valeu-nos uma foto no ProCyclingStats. É sempre um orgulho ajudar quem tanto nos ajuda ao longo do ano a acompanhar toda a santa prova que existe por esse mundo fora e, pelo segundo ano consecutivo, tentámos dar-lhes o máximos de informações possíveis para poderem ajudar algum maluco no Guatemala a ter informação sobre quem eram os pinos na fuga antes de começar a transmissão.

Na segunda vez os ataque arrancam e mesmo à nossa frente. Daniel Martínez lança-se para a frente, Riley Sheehan segue na sua roda com Brandon McNulty e Morgado sofre para acompanhar, acabando por não conseguir estar presente num corte que poderia ter sido decisivo para a corrida. Os minutos que se seguiram foram de nervos, a acompanhar a corrida pelo telemóvel — dando uma folga à Eurosport e uma oportunidade à Sporttv, que tinha a comentar Pedro Barata e Diogo Oliveira, dois amigos do projeto — e com algum receio que a vitória estivesse na frente.
Felizmente, pelo menos para mim que nestes momentos me torno um jihadista intenso, não foi isso que aconteceu. Algum desentendimento na frente e ambição atrás levaram todas as decisões para a última volta do circuito. A emoção cresce, a hora das decisões está a chegar. McNulty volta a mostra grandes pernas, lidera o grupo com Morgado na roda, intensifica o ritmo de tal forma que o próprio português passa algumas dificuldades e, à nossa frente, já seguia uns metros descolados mostrando que neste dia a vitória teria de vir do coração já que as pernas não eram as melhores. Felizmente, se há coisa que não falta ao Bigode Voador, é coração.

Muito gritei eu por Morgado nesta passagem. O essencial era chegar lá acima no grupo da frente, depois teria tempo para respirar. Por isso era dar tudo naqueles 300 metros que faltavam, não perder a roda e lutar, lutar e lutar. Foi isso que fez e chegamos ao topo da Rua do Parque Florestal com 7 homens apenas na frente. Destaque aqui para um Jarno Widar que provou, se duvidas existissem, que o futuro é incrível mas que o presente também não é nada mau mesmo.
McNulty coloca-se então ao serviço, e chapeau ao americano. Era, provavelmente, o ciclista mais forte do dia mas deu o corpo às balas e deixou tudo na estrada em prol do seu colega português. Se foi por querer respeitar o facto de Morgado estar a correr em casa, se foi por ter medo do nosso publico ou se foi por Morgado ter dito que a vitória não lhe ia fugir, nunca saberemos. Mas uma coisa é certa, McNulty garantiu que o pelotão não chegaria à frente e que tudo se jogaria na derradeira passagem por Enforca Cães. E depois? Depois era com o Morgado.
O prodígio português assumiu as rédeas da corrida assim que viu a primeira mexida. Alex Aranburu atacava perante a incrível paisagem que esta subida sempre nos proporciona, com o mar selvagem como pano de fundo. O português era o único capaz de reagir e contra atacava-o. Que estilo, que pinta e que classe tem o Morgadão a correr. O contra ataque chegou a dar ideia de poder ser decisivo mas o basco colou na roda do português e, ou muito se desentendiam, ou a disputa pela vitória seria entre os dois.
A comitiva falso plano já se encontrava no carro em direção ao pódio, de coração nas mãos e a berrar como se, mesmo dali, os nossos gritos pudessem dar um empurrãozinho. Anda Morgadão, caralho. Anda lá, miúdo. Aranburu jogava com a experiência, com a pressão estar do lado do português e pouco passava pela frente. Morgado reclamava, de forma audível e pouco aconselhada aos piquenos lá de casa, mas não perdia o foco. Entrava no último quilómetro na frente mas de olhos postos na retaguarda. Temia o ataque surpresa do basco e controlava se vinha perigo lá de trás. Mas não, a distância para trás era grande e a decisão ia acontecer num mano-a-mano nos metros finais. O sprint longo arranca, Morgado reage imediatamente mas o homem da Cofidis chega a colocar a sua roda na frente da corrida. Tremi um bocadinho, temi que o maior desgaste do português se fosse fazer sentir neste esforço final. Mas os grandes campeões, que trazem na alma a sua maior arma, não se deixam levar por aquilo que são as teorias do ciclismo e conseguem ir resgatar força quando ela já não parece existir, a um sitio que é só deles e que está guardado para os grandes momentos. Morgado "mete uma abaixo", volta a colocar a sua roda na dianteira e Alex Aranburu senta-se. JÁ ESTÁ, É MAIS UMA PARA O REI DA FIGUEIRA. A vitória repetia-se, e arrancava a festa.
Reação live à vitória do Morgadão a partir do carro falso plano.
— falso plano (@falsoplanoblog) February 14, 2026
Perdoem o nosso francês.#FigueiraChampionsClassic pic.twitter.com/a7xutyZMNH
É para isto que a gente cá anda. As emoções são o melhor do desporto.
O Morgado tem qualquer coisa, tem mesmo. Reage à pressão como os campeões o fazem e deixa crescer em mim, e em todos nós, uma esperança de que estas glórias se repetirão em palcos ainda maiores. Tem uma arrogância, uma forma de correr agressiva, uma postura em cima da bicicleta que me encanta, tenho de confessar. E me faz agradecer por poder acompanhar, nas primeiras filas, o seu desenvolvimento e partilhar convosco como vivo esse processo. Sinto-me um sortudo por viver uma era tão boa para as nossas cores neste desporto que tanto me apaixona. Agradeço ao Rui Costa, por ter aberto tantas portas, ao Ivo e Rui Oliveira por nos ensinarem a todos a lição que não só das super estrelas se fazem os heróis, ao João por nos proporcionar este luxo de sonhar com uma grande volta e ao Morgadão por nos dar finalmente um classicómano de topo, que, acredito eu, em pouco tempo disputará as grandes corridas. Eu já o imagino, e sei que ele também, no pódio da Liège, da Flandres, da Lombardia. Eu já o imagino de amarela no Tour depois de uma etapa punchy a abrir a contenda. Eu já o imagino a, daqui a um ano, festejar o hat-trick na Figueira.

No meio da euforia, dirigíamo-nos já para o pódio, comandados por um Rogério Almeida que encarnou Ayrton Senna em si e voou pelas ruas da Figueira como se o cronómetro o estivesse a perseguir. E, de certa forma, estava. A cerimónia aguardava-nos e, no meio de gente mais profissional do que nós, gritávamos pelo Morgado sendo mais fãs que jornalistas. Nós somos mais fãs que jornalistas e também não fazemos muito por esconder isso. Morgado subia ao pódio diversas vezes, tentava fingir que sorria apesar de essa não ser a sua especialidade, entrava no lodo para abrir a garrafa de champanhe e celebrava mais este êxito perante o seu público. Era um dia de festa e, na sua forma peculiar, notava-se que o português estava satisfeito e orgulhoso. Por ganhar a Figueira e por poder cumprimentar Santana Lopes. Que dupla icónica.
Descia as escadas e tinha, naturalmente e para seu grande enfado, uma comitiva de pessoal a querer fazer-lhe perguntas. Este ano houve uma evolução, já que havia uma tendinha de imprensa depois de no ano passado o Morgado se ter queixado, ou pelo menos ter usado como desculpa, o frio de rachar que se fazia sentir para se ir embora. Para lá avançámos, liderados pelo Pratas e pelo Dias, e aguardámos a nossa vez de saudar o campeão. Numa entrevista rápida, perguntámos como era a vida de um champ de 22 anos, para onde estavam apontados os próximos objetivos e cumprimos a grande missão do fim-de-semana. MALTA, NÓS ARRANCÁMOS UM SORRISO, MESMO UM SORRISO, AO MORGADO!

O sorriso apareceu quando, depois de perguntado onde se imaginava a vencer a seguir, informação importante para o falso plano poder agendar a próxima viagem, se enrolou todo para tentar dizer Trofeu Laigueglia (ou "Lagelha", nas palavras do português) o Dias lhe disse que "Itália era um pouco longe, mas vamos tentar". Podem ver a entrevista, ou o que quer que queiram chamar a isto, em baixo.
@falsoplano_blog As primeiras declarações do bi-campeão! 🏆 🏆 #FigueiraChampionsClassic #Morgado #UAETeamEmirates #Cycling @UAE Team Emirates ♬ New Sun - Chihei Hatakeyama
Ainda houve tempo para uma fotografia de grupo, que dá capa a este artigo, onde o ar enfadado de quem só se quer ir embora voltou a dominar o herói desta crónica. É uma tradição bonita, esta de as visitas de estudo à Figueira terminarem com uma foto nossa em euforia juntos com o campeão menos eufórico (pelo menos por fora). Na despedida, já em off , Morgadão respondia com um "vou tentar" à pergunta se para o ano havia mais.
Nós estaremos por aqui para ver, companheiro. Já nos deste duas alegrias grandes in loco, acredito que darás muitas quer ao vivo quer a partir do sofá de casa, onde todos estaremos a puxar por ti enquanto de deparas com os monstros desta modalidade, mostrando que, como eu acredito, te podes bater de frente com eles. Nos pavês da Flandres, nos côtes das Ardenas e no Enforca Cães da Figueira. Sempre com estilo, sempre com bigode, sempre com ambição e sempre com muita vontade de vencer. Afinal, como já há uns anos nos confidenciaste, "não me custa nada abdicar da vida de adolescente, o que me faz sofrer é ficar para trás nas corridas". Já não és um adolescente mas a luta continua, para ficares cada vez menos vezes para trás e para acabares, cada vez mais vezes, as corridas de braços no ar sob a linha de meta. A gente faz a nossa parte aqui a partir do sofá, pode ser que ouças e que te lembres que, apesar das dores de pernas serem só tuas, não corres sozinho.
Termina assim mais uma edição da corrida preferida deste estabelecimento. Termina, como sempre, numa cervejaria a tomar conta da nossa hidratação e a fazer o rescaldo de mais um dia em cheio. O Viluchão, atrasado porque o trabalho chamou e a família é a prioridade, ainda teve a amabilidade de se juntar a nós neste último bocado e de nos apresentar os seus belos rebentos, que vieram já começar a sentir a beleza das corridas. Foi mais uma história com companheirismo, amizade, diversão, cerveja, festejos, ciclismo, convívio com vocês, desafios, lutas mas acima de tudo muita paixão por este hobbie que tanto gozo me dá. Agradecer a vocês, que estão desse lado, aos meus colegas, que me aturam e partilham comigo todas estas experiências e, claro, ao Morgado por colocar a cerveja no topo do bolo ao voltar a vencer a prova.
Voltaremos, comigo ou com outro colega, ao vosso contacto para a crónica do Algarve. E depois da nossa ida à Flandres. E depois da nossa ida a tantas mais corridas que, espero, ainda tenhamos pela frente.
Um abraço do vosso estimado moderador,
Henrique Augusto
