Antevisão — Donostia San Sebastian Klasikoa
Remco quer o poker, mas alguém pode ter um full house debaixo da manga?
Introdução
Bem sei, caros leitores, bem sei. Estamos todos empanturrados de ciclismo nesta altura do ano, mas quem não ama uma boa sobremesa, bem docinha, quando toda a lógica apontava no sentido de que depois de tal refeição não era humanamente possível consumir mais qualquer alimento? Não é que o Tour não tenha sido bom, não é que o Tour Feminino não vá ser incrível. E ainda está aí a Grandíssima à porta. Mas uma clássica é sempre uma clássica, e esta é das boas.
Paisagens espetaculares numa das zonas mais bonitas da Península Ibérica são imagem de marca desta prova, pelo menos para quem está no sofá. Na estrada as coisas são, como sempre, bastante diferentes. O percurso é duro, as pernas doem e a luta costuma ser feroz. Um favorito à partida, um homem a abater, vem de um grande Tour e procura o poker nesta prova. É de Remco Evenepoel que falo e o interesse maior desta corrida focar-se-á nas tentativas dos rivais de contrariar o favoritismo do ex-novo Merckx que, dependendo da semana em que falemos, pode ser um dos maiores flops ou um dos maiores ciclistas da história desta modalidade.

O percurso
É duro, duro que dói, como sempre. Mói desde inicio mas são as últimas duas subidas que terão a honra de ser o palco das grandes decisões. O paredão de Erlaitz, com quase 4 quilómetros a 11%, deverá ser suficiente para uma seleção bastante clara mas, caso dúvidas restem, e como não faltam muros por aqui, ainda existe a Murgil Tontorra, com 2 quilómetros a 10%, para as dissipar. Tem sido sempre, mais coisa menos coisa, este o percurso da prova. E em equipa que ganha não se mexe.

O que esperar
Uma super equipa da Red Bull a controlar até Erlaitz, a endurecer as subidas anteriores e a garantir que ninguém consegue protagonizar uma antecipação que possa colocar em causa a vitória do ciclista que a equipa (e eu) crê ser o mais forte em prova. Em Erlaitz arrancará Remco Evenepoel e a curiosidade reside em se alguém o tenta seguir ou se lhe vão dar o Pogi Treatment de começarem imediatamente a correr para a prata. E numa segunda camada, se alguém tentar, pode conseguir ou o Remco também conta para aquela piada do "quem voa demasiado perto do sol pode queimar-se"?
Dado o previsível domínio do belga, acredito que possa haver gente a tentar de mais longe, mas a Red Bull tem equipa mais que suficiente para manter o pelotão com rédea curta e depois a corrida irá transformar-se numa batalha entre os líderes, um pouco cada um por si como normalmente acontece em pendentes tão elevadas.
Destaque ainda para o regresso de Afonso Eulálio à competição, nome que eu não vou inserir na categoria abaixo para não dar azar mas que penso poder, caso se encontre em boa forma, simpatizar com este percurso e alcançar um bom resultado.
Favoritos
Remco Evenepoel — Já limpou esta prova 3 vezes, demonstração do quanto se adequa bem a este terreno. Chega aqui vindo de um ótimo Tour e a motivação está em altas para se tornar o primeiro ciclista de sempre a levantar os braços por 4 vezes em San Sebastián.
A não perder de vista
Giulio Ciccone — É o vencedor em titulo e um nome que não pode ser descartado. Um dos poucos que, se se encontrar bem, pode tentar seguir Evenepoel. Não corre há muito tempo, é verdade, mas isso também era verdade o ano passado e foi o que se viu. Aparece sempre muito forte nesta altura da época.
Lenny Martinez — Adora isto e é, para mim, o principal candidato a rivalizar com Remco. Gostem ou não gostem, e há muitos que não gostam, é um ciclista do camandro.
Jhonatan Narváez — Ele agora é meio trepador, não deixando de ser muito rápido na meta. Será uma das principais preocupações dos verdadeiros trepadores, já que têm obrigatoriamente de o deixar para trás.
Ben Healy — Um Tour assim-assim, um pouco tapado também pela forma extraordinária do seu colega de equipa Richard Carapaz. O equatoriano tinha as mesmas etapas do irlandês como objetivos e tinha mais pernas, acabando Healy por ficar mais a trabalhar que a procurar glória pessoal. Aqui é diferente, será líder e adora estes sobe-e-desce eternos.
Quinn Simmons — Está numa forma do caraças e já provou, por exemplo na última edição da Lombardia, que pode atingir grandes resultados de forma não convencional.
Mauro Schmid — Outro que chega com umas Tour legs incríveis. Com a evolução e a consistência deste 2026, já não me arrisco a deixá-lo fora destas listas.
Alberto Dainese — Para o terem trazido é porque está em grande forma e se a prova acabar disputada ao sprint deve ser o mais rápido. Anda tudo com os copos na QuickStep.
Matteo Jorgenson/Jay Vine/Christian Scaroni/Felix Gall/Lennert van Eetvelt — Malta que não vai ganhar mas que eu tenho alguma curiosidade em acompanhar e podem fechar assim um top-10. No fundo, que não vou perder de vista.
Apostas falso plano
André Dias — Guillermo Thomas Silva, três de seguida.
Henrique Augusto — Petit Lenny.
O Primož do Roglič — Remco, a tua única vitória até ao final do ano.
Miguel Branco — Narváez de regresso? Easy. Impossível de dropar por quem quer que seja.
Miguel Pratas — Schmidologia.
Nuno Silva — Ex-Pogačar, Remco Evenepoel.
Rogério Almeida — Chico(ne) da Tina.
Vítor Ferreira — Esta não foge ao belga que está a subir que se farta da Red Bull - Van Gils.