Antevisão — Tour de France Femmes

Até ao Ventoux muita água vai correr.

Antevisão — Tour de France Femmes

Introdução

Quando em 1955, na Normandia, a britânica Millie Robinson, num pelotão de 40 mulheres, venceria a primeira (e durante muitos anos única) versão de uma Volta à França feminina, não terá imaginado que o caminho seria tão árido e demorado. Houve tentativas bastante interessantes durante o século XX, mas tivemos de esperar até 2022, num mundo que tanto se proclama "bem melhor do que antes", até que a ASO e a estrutura organizativa do Tour se decidisse a fixar uma versão séria da maior corrida do mundo para o ciclismo feminino. Um Tour para elas, um Tour que pudessem chamar seu. Se vale a pena ficar a lamentar? A pedir reparação? Talvez não, mas fingir que não aconteceu também não será o mais justo dos gestos.

Seguimos. Quinta edição. E que tanto promete. Depois do Col de La Madeleine, o grande herói deste percurso é o Mont Ventoux. Ou como sempre se diz aquando do seu aparecimento, a subida à outra face da Lua devido aos tons cinzentos do Gigante da Provença, devido a esse aspecto despido e carente de vegetação. Grand Départ na Suíça, com duas etapas totalmente em solo helvético e um oi à casa da UCI. E antes da alta montanha, pois claro, aquelas etapas meia-canja, sobe-e-desce, rebenta pernas, como lhes quiserem chamar, etapas essas que por norma dão moves tácticos estrondosos ou disaster classes que tanto nos entretêm. O final será em Nice, na célebre Promenade des Anglais, com o Col d'Eze em versão quádrupla só para o caso do Ventoux não ser suficiente. A pergunta impõe-se: depois de um Tour 2024 perdido por quatro segundos e de um Tour 2025 perdido por uma tareia inesperada e descomunal, será Demi Vollering, a grande favorita, capaz de voltar a vencer a prova rainha?

O percurso

Etapa 1 —  Primeira amarela para sprinters? Quase. Bom, vamos lá ver, não é impossível para Wiebes. No entanto, além das subidas de aproximação à meta, há uma dificuldade final que tem um quilómetro a 7%. Prevejo um final caótico, com gente de GC e puncheurs lá metidas.

Lausanne — Lausanne (138 km)

Etapa 2 —  Partida junto ao quartel-general da UCI e dizem que o restaurante é bom; aquela tosta de abacate à maneira. No final, é outra vez arroz: Lorena Wiebes vence a sua única etapa deste Tour.

Aigle — Genève (148 km)

Etapa 3 —  Ora bem. Única? Quem sabe. Início muito duro, mas duvido que isto se torne uma etapa à Tour de Hainan. Decisões na quarta categoria até porque, após a mesma, há bonificações em jogo. Um grupo pequeno escapa-se e a decisão vai ser ao sprint. Kim Le Court? Włodarczyk? Pieterse? Géry?

Genève — Poligny (157 km)

Etapa 4 (ITT) — Uiiiii. Eu sou como vocês: não adoro ver contrarrelógios. Mas este cheira a importante. Basta pensarmos no espectáculo que foi a cronoescalada no Giro. Aqui o perfil é diferente e há gostos para tudo: terreno plano, subida, descida. A GC nunca mais vai ser a mesma. Reusser, Bäckstedt ou Breggen para a vitória.

Gevrey-Chambertin — Dijon (21 km)

Etapa 5 —  Clássica é clássica. Não há descanso nesta perigosa quinta etapa, e logo depois de um dia de esforço como o contrarrelógio. Quase 3 mil metros de desnível positivo acumulado. O Mont Brouilly é uma subida bem dura e, ao quinto dia, as diferenças vão acontecer.

Mâcon — Belleville-en-Beaujolais (140 km)

Etapa 6 —  Uno más? Já diziam Jackie Chan e Owen Wilson em "Shanghai Noon". Sobe-e-desce, minha gente. É normalmente mais rico do que uma chegada em alto.

Montbrison — Tournon-sur-Rhône (154 km)

Etapa 7 — Bom, quer dizer, uma chegada em alto também pode ser rica, sobretudo se estivermos a falar do Gigante da Provença, então tudo bem. O pelotão feminino corre o Ventoux pela primeira vez e não se espera nada menos do que história, sangue, escárnio, maldizer e espectáculo total. E vento, em princípio.

La Volte-sur-Rhône — Mont Ventoux (147 km)
Subida Gigante, só cá falta a Sarah.

Etapa 8 —  Etapa estranha mas interessante. Em princípio pode cair para a fuga, porque a descida é interminável e o terreno não é o mais convidativo à perseguição. E ainda uns muritos no final para chegar a Nice, incluindo 450 metros a mais de 13%. Ou seja? Show.

Sisteron — Nice (172 km)

Etapa 9 — A ideia de Marion Rousse e da sua equipa é boa: se a GC estiver apertada, estes 100 quilómetros em circuito pelo Col d'Eze (subida típica do final da Paris-Nice) vão tornar-se uma odisseia épica ao estilo última etapa do Giro 2026. O problema é que o Ventoux pode tornar-se demasiado definitivo e aí, sim, teremos sempre espectáculo pela etapa, mas o resto já mais ameno.

Nice — Nice (100 km)

O que esperar

Espero Tour. E isso significa full-gas diário. Até porque, convém dizer, o percurso não nos oferece nenhuma etapa panqueca, não há sprints chapados, e em nove dias com muitas das melhores do mundo presentes, o normal será muita gente querer o seu lugar ao sol: vencer uma etapa no Tour pode ser um prémio de época (e carreira) para muito boa gente.

Julgo que a chave para a forma como a corrida vai decorrer passa por Pauline Ferrand-Prévot. Isto é, se a francesa se apresentar com pernas idênticas a 2025, em teoria, toda a gente devia atacar em todas as oportunidades porque, na montanha, ela será superior. Acontece que eu não acredito nesse cenário.

O motivo? É mais sobrenatural do que outra coisa: não há dois anos iguais (a não ser que se chamem Lorena Wiebes). O factor surpresa morreu. E se toda a gente sabe que Pauline se voltou a refugiar nas montanhas durante meses e desatou a perder peso, então as suas rivais terão de responder à altura. Por outro lado, considero que Demi Vollering se vai apresentar em muito melhor forma do que na edição transacta. A FDJ-United Suez, com uma bela equipa, vai querer controlar a maioria das etapas e com o objectivo, julgo eu, de evitar o caos. Evitar precisamente que a corrida se descontrole em movimentações de gente perigosa para a GC. A neerlandesa é superior a Ferrand-Prévot no contrarrelógio e isso é um dado relevante. Ao mesmo tempo, acredito que tem hoje a confiança de ir de igual para igual com a corredora da Visma no Ventoux e, por isso, a gestão de danos — em simultâneo com olhos postos nas bonificações — é para ser levada a sério, deixando a corrida em aberto até ao Ventoux.

Se estou a ver mal o filme? Talvez. A opção pode ser a oposta: tentar causar o pânico e atacar tudo e mais alguma coisa para testar Pauline e chegar ao Ventoux com a maior vantagem possível. Só que eu acho que Vollering quer ser autoritária no dia mais importante. Quer fazer história. Quer ser retumbante.

Outra equipa que me parece que pode jogar um papel importante no decorrer dos nove dias é a UAE Team L'IMAD. Paula Blasi está em altas — embora de saída da equipa e, por isso, o ambiente possa não ser o mais respirável — e pode ambicionar a um bom lugar na classificação geral. Como se dará na GC é uma incógnita. E ainda há a sempre muito ofensiva Elisa Longo Borghini. Embora nenhuma das duas tenha o favoritismo de Vollering ou Prévot, a verdade é que este é um daqueles rosters que assusta pela profundidade e sobretudo pela vibe kamikaze que têm trazido às corridas. Já estão a ver o filme, certo? Persico, Longo Borghini, Włodarczyk, Blasi, Squiban, Mavi, vão para a frente do grupo, full-gas, e agora segurem-se. A UAE pode ser um distúrbio significativo, isto, claro, se lá dentro não estiver um ainda maior distúrbio das disputas internas. E convenhamos: responder a Longo Borghini ou a Blasi não é igual a ter de responder a Kim Le-Court, por exemplo.

E, claro, não esqueçamos a Canyon de Kasia Niewiadoma e Antonia Niedermaier e a Movistar de Marlen Reusser. Tudo isto para dizer que até ao Ventoux muita água vai correr.

Favoritas

Demi Vollering — A pressão só pode ser muita. Podemos dizer que não vimos a melhor Demi no Giro, quase sempre incapaz de fazer descolar as melhores na montanha? Podemos. Mas esta não é a Demi do Giro. Esta é a Demi do Tour. Preparem-se.

Pauline Ferrand-Prévot — A incógnita é grande. Não está em causa a super-corredora que é Pauline, está em causa como é que vai enganar todo o pelotão novamente. Eu não acredito, mas admito que a minha falta de fé tem tudo menos base científica.

A não perder de vista

Katarzyna Niewiadoma — Sempre pódio, sempre candidata. Ainda não vimos a melhor Kasia em 2026, mas faz tudo parte do plano. Vuelta com má preparação e para meter quilómetros nas pernas. Pensou ir ao Giro, mas optou por ir para altitude. Fez o reconhecimento, sobe lindamente, e é uma corredora de uma fibra inesgotável. Julgo que voltará a fazer pódio.

Marlen Reusser — Pese embora tudo o que escrevi acima em relação a Niewiadoma, a verdade é que me parece que Marlen Reusser é uma ciclista mais perigosa. Para já, tem o contrarrelógio a seu favor, é a melhor do mundo e são 21 quilómetros; talvez preferisse que fossem 21 quilómetros planos, mas não se pode ter tudo. Só pode ser considerada candidata se estiver a subir melhor do que no Giro. Algo que me parece uma inevitabilidade.

Paula Blasi — Venceu a Vuelta e deixou o mundo de queixo caído. Depois disso, voou de forma incrível no Tourmalet, embora, claro, com fraca concorrência. O futuro é incerto, embora seguramente risonho para aquela que Alex Carera quer fazer a mulher mais bem paga do mundo. E ela merece. Vejamos, no entanto, se a saída da equipa com um ano de contrato por cumprir — ou, por outra, a quezília que a isso levou — não lhe retira a possibilidade de lutar pelo pódio.

Elisa Longo Borghini — O Giro foi bom a nível de resultados, mas realisticamente nunca esteve perto da vitória, nem nunca esteve nos momentos de decisão da corrida. A Volta à Suíça foi de grande nível, apesar de ter tido um heat stroke no último dia que a impediu de ganhar. Vejamos que Borghini teremos. Uma coisa é certa: o espectáculo e a entrega são garantidos.

Anna van der Breggen — A ideia é sempre a mesma: já não tem andamento. Mas ainda tem andamento para estar nestas linhas e veja-se como deu luta, sempre até ao fim, na Vuelta e Giro. Este é o Tour, é verdade, e a temporada já vai longa, mas de Breggen nunca podemos dizer nunca.

Antonia Niedermaier — Já manifestou total apoio à sua líder. Mas será que Kasia vai estar mais forte do que a germânica? E se Antonia, como sempre fomos vendo ao longo da temporada, se colocar na frente na montanha e nunca mais de lá sair? Como é que a Canyon vai jogar? É, julgo, um dos ingredientes mais interessantes para este Tour.

Apostas falso plano

André Dias — Desta vez, não escapa. É o ano de Clémence Latimier.

Fábio Babau — Olá Branco, podes escrever aí alguma frase divertida sobre a Demi? Abraço.

Henrique Augusto — A Demi vai fazer parecer o Tour masculino equilibrado.

O Primož do Roglič — O mundo é de Espanha. Paula Blasi.

Miguel Branco — Demi Vollering. Só peço que seja por poucos segundos.

Miguel Pratas — Demi Vollering volta a ficar na segunda posição. Obséquio de Paula Blasi.

Nuno Gomes — Célia Géry faz top-10 em todas as etapas.

Nuno Silva — Finalmente Demi Vollering.

Rogério Almeida — Oh Kasia, se queres ganhar e não tens par, chama a Antonia, chama a Antonia.

Vítor Ferreira — Vollering à la Pogačar.