Antevisão — Giro d'Italia

Começamos Nessebar, dizer Giau ao Passo e acabamos com uma Imperiali. Mas só se o Ving quiser...

Antevisão — Giro d'Italia

Introdução

Dia 8 de maio combinamos Nessebar e bebemos umas para festejar o início da primeira grande volta do ano. Pois, é. É na Bulgária que damos início à tripla coroa.

Sem João Almeida e sem o campeão em título, Simon Yates, mas com Jonas Vingegaard a correr pela primeira vez o Giro espera-nos uma prova idêntica à de 2024, onde o vencedor era anunciado mesmo antes dos ciclistas se fazerem à estrada. Pela primeira vez, o dinamarquês decidiu fazer Giro-Tour e a grande questão é com que objetivo vem aqui o grande rival de Pogačar. Ir a fundo e tentar bater o recorde de etapas do esloveno ou apenas certificar-se de que pelo menos uma grande volta tem no bolso no final de 2026? Pois, o seu maior rival será não cair.

Dia 31 teremos nas pernas de Nessebar a Sofia, de Catanzaro a Roma 3468km e relativamente à altimetria 48774m. A maior das três grandes voltas no que ao percurso diz respeito, mas por outro lado aquela que terá menos acumulado. Sentimos aqui falta de um Stelvio ou de um Mortirolo, mas como a primeira é sempre a primeira. Vamos à primeira grande volta de 2026.

Giro d'Italia 2026. (foto: twitter Lidl-Trek)

O percurso

Etapa 1 — Jonathan Milan rumo a ciclamino.

Nessebar - Burgas (147km)

Etapa 2 — A segunda etapa mais longa da prova, três subidas categorizadas e um final para ciclistas explosivos, ou quem sabe uma vitória a solo. Um Andrea Vendrame desta vida, a primeira de Vingegaard ou o Cicco da zurra?

Burgas - Veliko Tarnovo (221km)

Etapa 3 — A subida apesar de ligeiramente longa, não é dura. Ou seja, outro dia para os homens mais rápidos. Para quem não gosta de repetir, Magnier ou Tobias Lund.

Plovdiv - Sofia (175km)

Etapa 4 — Já em Itália, outra subida que não deve importunar os sprinters e esta chegada a meta em falso plano aponta para a segunda vitória de Milan.

Catanzaro - Cosenza (138km)

Etapa 5 — A grande dificuldade do dia é a Montagna Grande di Viggiano com uma pendente média de 9.2% e os topos que se seguem devem tornar o final de etapa deveras interessante. Isto vai dar um Pinarello qualquer.

Praia a Mare - Potenza (203km)

Etapa 6 — Um dia de sprint puro com uma ligeira inclinação no final. Milan volta à carga.

Paestum - Naples (141km)

Etapa 7 — A primeira etapa de alta montanha, termina em alto e é a mais longa. Eis, o famoso Blockhaus. Se o Ving quiser...

Formia - Blockhaus (244km)

Etapa 8 — A etapa começa na terra natal de Ciccone, Chieti. Este final de sobe e desce parece mesmo a cara dele, agora que decidiu ser classicómano.

Chieti - Fermo (156km)

Etapa 9 — Mais um dia a terminar em alto e que aparentemente dará GC. Apenas uma subida no final da etapa e a pendente não é assim tão elevada, mas atenção aos últimos três quilómetros, porque a pendente aumenta. Se o Ving quiser...

Cervia - Corno alle Scale (184km)

Etapa 10 (ITT) — Top Ganna a dar show e Ving a dar uma sacudidela nos oponentes.

Viareggio - Massa (42km)

Etapa 11 — Com uma segunda parte da etapa bastante irregular da etapa é difícil ver alguma hipótese para os sprinters. Mas se passarem bem o Colle di Gualtarola creio que as chances disparam. O meu hot take vai para Christian Scaroni.

Porcari (Paper District) - Chiavari (195km)

Etapa 12 — Aqui não há grande duvidas. Os homens mais rápidos vão ter a sua chance. Dylan Groenewegen vai ganhar uma etapa, não sei é quando. Mas pode ser aqui.

Imperia - Novi Ligure (175km)

Etapa 13 — Mais uma chance para os ciclistas mais explosivos, os tradicionais puncheurs. Ciccone à cabeça, mas há Scaroni, Zana, Vendrame... Quem sabe Narváez.

Alessandria - Verbania (189km)

Etapa 14 — Uma daquelas etapas que os amantes de ciclismo anseiam numa grande volta. A etapa é curta, mas tem três primeiras categorias. A ação começa logo desde início e isso pode dar fuga. Mas se o Ving quiser...

Aosta - Pila (Gressan) (133km)

Etapa 15 — Plano mais plano não há. E o circuito final pelas ruas da cidade de Milão vai dar um desfile de sprinters.

Voghera - Milan (157km)

Etapa 16 — Etapa curta, a mais curta tirando o contrarrelógio, e que deverá ser aproveitada pelos candidatos à camisola da montanha para amealhar pontos neste início. São quatro subidas categorizadas que servirão de aquecimento para a subida final. Se o Ving quiser...

Bellinzona - Carì (113km)

Etapa 17 — Com aquilo que ainda vem na terceira semana, apostaria em dia de fuga.

Cassano d'Adda - Andalo (202km)

Etapa 18 — Para os mais distraídos uma etapa para os homens mais rápidos, mas se olharmos com atenção a subida mesmo antes da descida para a meta pode complicar o objetivo. Muro Ca' Del Poggio é curto, mas tem uma pendente média de 11.3%. Um late attack bem sucedido não me surpreenderia.

Fai della Paganella - Pieve di Soligo (171km)

Etapa 19 — Etapa rainha, aquela com mais acumulado (4888m) e o Cima Coppi desta edição, o Passo Giau. Esta icónica subida não aparecia no Giro desde 2021, quando Egan Bernal apareceu como D. Sebastião, pois devido às condições climatéricas só tinhamos imagens da câmera da meta.

Passo Duran (12.1km @ 8.1%) e Col (5.8km @ 9.3) antes do chegarmos ao Giau (9.8km @ 9.3%). Depois ainda temos o Passo Falzarego (10.1km @ a 5.4%), no meio disto tudo parece um mal menor, e a ascensão final Piani di Pezzè (5km @ 9.6%). A mais curta de todas, mas aquela que tem a pendente média mais elevada. Se o Ving quiser...

Feltre - Alleghe (Piani di Pezzè) (151km)

Etapa 20 — Como o dia anterior não era suficiente e como o melhor fica sempre para o fim, mais uma etapa de alta montanha. Duas passagens pelo Piancavallo (14.5km @ 7.8%) e a segunda coincide com a meta. Se o Ving quiser...

Gemona del Friuli 1976-2026 - Piancavallo (200km)

Etapa 21 — A consagração de Jonas Vingegaard, Jonathan Milan e Giulio Ciccone.

Rome- Rome (131km)

O que esperar

Vamos por partes. Pela minha introdução, já deu para perceber que na minha cabeça, e provavelmente de muita gente, Jonas Vingegaard é o virtual vencedor da maglia rosa desta edição do Giro. É de longe o melhor ciclista em prova e se excluirmos algum infortúnio que o tenha impedido de acabar ou as vezes que perdeu para Pogačar a última prova por etapas que não venceu foi em 2023. Foi segundo na Vuelta e quem ganhou foi um colega de equipa, Sep Kuss. Ou seja, difícil é imaginar não ser ele a vencer, veremos se a fundo ou se a guardar energias para o Tour.

O vencedor anunciado. (foto: twitter Mihai Simion)

Com a maglia rosa virtualmente entregue a disputa pelo pódio pode ser um caso sério com vários nomes a entrarem no baralho. Destaco Felix Gall, Adam Yates e Egan Bernal por serem muito bons trepadores e sabemos que as grandes diferenças se fazem na montanha, mas a etapa dez, contrarrelógio individual, pode colocar outros nomes na equação. São eles Derek Gee, Giulio Pellizzari (está numa grande forma), Thymen Arensman, Ben O'Connor (a eterna incógnita) e um nome que pode surpreender, Jan Christen. Se quisermos olhar para os blocos, o da Visma, o da UAE e o da Ineos parecem-me os mais fortes. E uma atenção especial ao da Tudor com Storer, Rondel e Florian Stork. A luta pelo pódio e pelo top-10 vai ser um dos grandes motivos de interesse deste Giro.

Seguimos caminho para os homens mais rápidos, a tradicional maglia ciclamino. Tal como na geral individual, também aqui temos um super favorito e é ele Jonathan Milan. Já a venceu em 2023 e 2024 e vem em busca da terceira. Apesar do favoritismo, creio que a luta aqui será mais aguerrida do que na camisola rosa. Paul Magnier, Tobias Lund Andresen e Dylan Groenewegen pela forma e pelos blocos que têm à sua roda podem ter uma palavra a dizer nesta luta. Numa segunda linha, a ter em atenção Kaden Groves e Orluis Aular.

Milan rumo à terceira. (foto: Giro d'Italia)

Subimos na análise para falar da maglia azzurra. Uma forte possibilidade é ela ser conquistada por Jonas Vingegaard, vai depender do espírito com que o dinamarquês encare a prova. Se não der Ving, um ex vencedor é uma forte hipótese, até pelo percurso que teremos. Giulio Ciccone venceu esta camisola em 2019 e acho que pode repetir a dose. Outros nomes que acredito que tentarão são Christian Scaroni, Filippo Zana, Wout Poels, um dos homens da Tudor e seria bonito Damiano Caruso no seu último Giro. Mas aqui, volto a dizer, a lei que vai mandar vai ser a da Visma e a de Vingegaard.

Ciccone, o rei das montanhas. (foto: Cycling Weekly)

Para fechar, voltamos a descer, porque darei o meu favorito para a maglia bianca, a camisola da juventude e é ele Giulio Pellizzari.

Tudo isto é muito Giro na teoria, mas a estrada é dona e senhora do ciclismo. E quem tem pernas é quem triunfa. Pernas e sabedoria, que para quem não sabe se diz Visma em dinamarquês.

Favoritos

Jonas Vingegaard — Ultra favorito, resta saber que mudança vai colocar.

A não perder de vista

Giulio Pellizzari — O meu hot take é que faz segundo.

Felix Gall O segundo melhor trepador em prova, mas o contrarrelógio vai-lhe furar os planos.

Derek Gee — Candidato a disputar o terceiro lugar com Felix Gall.

Adam Yates — Será Adam Yates até à etapa 10, depois veremos o que Jan Christen faz no contrarrelógio.

Egan Bernal — O mesmo para o colombiano. Se Arensman não flopar até lá, pode-se transformar o líder na estrada.

Apostas falso plano

André Dias — Um italiano volta a ganhar o Giro. Este é o ano de Pinarello.

Henrique Augusto — O melhor Jonas de Rosa desde que o Benfica teve aquele equipamento alternativo esquisito.

O Primož do Roglič — Se fosse eu a querer ganhava o Piganzoli. Italiano e da Visma.

Miguel Branco — Pelli porque Bernal não tem concorrência.

Miguel Pratas — Vingegaard, sem forçar muito.

Nuno Gomes — Vingegaard vai dar um Giro em Z2.

Nuno Silva — Vence Vingegaard sem grande peixeirada.

Rogério Almeida — Estou dividido entre o Pinarello e a Pinarello do Bernal.

Vítor Ferreira — Não vou dizer Pelli para não dar aZzari, mas era Giro.