Antevisão — Vuelta España Femenina by Carrefour.es

Vai dar uma granda Vuelta.

Antevisão — Vuelta España Femenina by Carrefour.es

Introdução

Mais um ano, mais uma pedra na solidificação da Vuelta España Femenina como um dos grandes momentos da temporada. De degrau em degrau, a corrida, também devido ao selo da experiência trazido pela A.S.O., vai diversificando o seu percurso, atraindo um pelotão mais vasto e qualificado, vai-se fazendo ver e ser vista.

É a 12.ª edição da Vuelta, mas, em bom da verdade, é a quarta edição desde o seu renascimento, desde que alargou as suas etapas de forma definitiva (começou por ser uma clássica em 2015; passando a prova por etapas gradualmente, até que em 2023 se fixou como corrida de uma semana, 7 etapas) e passou a constar da tríade Vuelta-Giro-Tour.

Circunscrita ao Noroeste do território espanhol, entre a Galiza, Leão e as Astúrias, esta Vuelta dá-nos oportunidades para todo o perfil de corredoras e a ausência de Demi Vollering pode trazer novidades na bandeira que ergue o troféu no final. É que desde 2021, entre Van Vleuten e Vollering, foram sempre os Países Baixos a conquistar a corrida.

Vollering nevoeiro adentro. (©Getty Images)

Alegrem-se porque temos participação lusa. Maria Martins vem aqui com a Canyon e terá seguramente um papel de proteger Kasia Niewiadoma nas primeiras cinco etapas, antes das grandes dificuldades. Por outro lado, não há propriamente ninguém ultra veloz (Consonni não está), e nós sabemos que Tata sabe sprintar. Acredito, ainda assim, que fará parte do leadout para a Agnieszka Skalniak-Sójka, mas a oportunidade pode aparecer. Recordo que a Tata participou na Vuelta em 2018 e 2019 (quando esta tinha apenas duas etapas — e em 2019, ao serviço da Sopela, foi sexta classificada na chegada a Madrid, no seu melhor resultado em Grandes Voltas, vitória para Chloe Hosking na Até Cipollini). Depois disso, Tata só partiu para o Giro d'Italia Donne 2023, onde foi 14.ª na etapa 3 (chegada a Modena, vitória para Wiebes, Maria corria pela Fenix-Deceuninck) antes de abandonar no dia seguinte. Este é o seu regresso às grandes corridas por etapas.

A última nota desta introdução para o lugar da Vuelta no calendário: já pensaram que se calhar não era má ideia trazer a competição masculina para esta altura do ano? Costuma não estar mau tempo em Espanha (ao contrário do calor tórrido de Agosto/Setembro) e talvez o Giro também tivesse menos neve e chuva se assumisse o lugar da Vuelta no calendário masculino. Não sei, é só uma ideia, não é nova, já foi mencionada por muito boa gente e esta é mais uma oportunidade onde se sublinha esse desejo. A mudança é sempre um bicho que amedronta, mas um dia podia-se tentar.

O percurso

  • Etapa 1: A banda começa a tocar na Galiza. E o final parece uma canção de Ana Malhoa: súbelo, mas dá para toda a gente.
Marín - Salvaterra de Miño (113.9km)
  • Etapa 2: Continuamos em terrenos galegos, num dia talvez mais selectivo do que o anterior. Aqueles quase 2kms a 5.5% já podem transformar Ana Malhoa em Stockhausen. Podem, não significa que vão. E é por isso que o baile é bonito: a incerteza do próximo tema. Trocando por miúdos: pode dar fuga, pode dar sprint em grupo reduzido, as sprinters vão ser levadas ao limite. Cheira a Noemi Rüegg ou perfume semelhante.
Lobios - San Cibrao das Viñas (109.8km)
  • Etapa 3: Tem corpo de clássica e alma galega. A Coruna — local recorrente do traçado do Gran Camiño — promete uma chegada animada. O sobe-e-desce vai, seguramente, convidar aos ataques e reduzir chances de um final com elevada densidade populacional.
Padrón - A Coruña (121.2km)
  • Etapa 4: Aqui parece seguro dizer que vai dar sprint. Embora se confirme a ideia que a organização não quis mesmo dar um final plano-plano; há sempre ali um kickzinho.
Monforte de Lemos - Antas de Ulla (115.6km)
  • Etapa 5: Dificuldades demasiado longe da meta. Se tem cara de sprint, provavelmente é um sprint.
León - Astorga (119.6km)
  • Etapa 6: E agora, senhoras e senhores, vamos à orquestra. As subidas asturianas chegam em força. Les Prazeres é um paredão mesmo à Vuelta. Quatro quilómetros a 12,5%, que sonho. Até apitam. Apesar dos quatro quilómetros, é subida para uns 20 minutos.
León - Astorga (119.6km)
  • Etapa 7: PAROU. O pelotão feminino encara o monstro Angliru pela primeira vez. E não, eu não vou falar das saudades que tenho do Angliru e do que por lá vivemos em Setembro passado. Recuso-me. Mas pensei na carnificina que esta subida vai gerar. Se Les Praeres prometem fazer muitas diferenças, o Angliru, e logo para um pelotão feminino que nunca o fez, pode significar mudanças drásticas de classificação. Portanto, teremos Vuelta até ao último dia. Provavelmente, até ao último metro.
La Pola Llaviana/Pola de Laviana - L'Angliru (132.9km)

O que esperar

Malta, é hora de fazer a festa: Demi Vollering não vem, ou seja, vai ser equilibrado. Sim, sim, já sei, queremos sempre as melhores corredoras presentes, bla bla bla, mas vá lá, a forma de Vollering neste momento acabaria com a corrida assim que se chegássemos a Les Praeres e o Angliru seria um passeio. Desta feita, não me parece que vá ser o caso.

É claro que o facto de termos 5 etapas onde não há propriamente grandes subidas vai abrir espaço para possíveis quedas, abandonos, conjunturas tácticas ousadas de algumas equipas — forçar abanicos, isolar líderes (e sprinters, para que não disputem as chegadas) e potenciais vitórias da fuga. Apesar do terreno não ser duro, espero cinco etapas iniciais bastante atribuladas e nervosas.

A UAE-ADQ, já sabemos, pode bem ser causadora desse pânico. Não me parece que tenham na equipa alguma potencial vencedora da geral, o que só abona a favor deste argumento: vão tentar todas as etapas que conseguirem e o caos vai ser instaurado. Blasi, Squiban, Swinkels e Mavi García são corredoras perfeitas para agitar águas mais paradas, sendo que a veterana deve ficar reservada para a geral e os últimos dois dias (Les Praeres e Angliru; alguma curiosidade para ver o que Blasi e Squiban conseguirão produzir nestas dificuldades). É verdade que tem Megan Jastrab para as chegadas mais velozes, mas a norte-americana não me parece propriamente capaz de bater Vos ou Bredewold.

Terá, muito provavelmente, companhia da FDJ United - Suez que se apresenta aqui sem Demi Vollering e que, por isso mesmo, quererá endiabrar a corrida continuando a cimentar o estatuto de melhor equipa do ciclismo mundial. Apesar de trazer Muzic e Berthet, cujos dotes de trepadoras são plenamente reconhecidos, parece um cenário ousado pensar que estarão na luta pela vitória. E, claro, trazem a sensação Koch que pode promover ataques em qualquer lomba.

Terão, como principais opositoras nestes terrenos mais planos, a Visma e a SD Worx. A primeira traz uma Pauline Ferrand-Prévot que não está propriamente na melhor forma, como os últimos resultados demonstram, mas que é reconhecidamente uma grande trepadora e que terá, por isso, uma palavra a dizer no que à GC diz respeito (Marion Bunel vai dar jeito se se aguentar em cima da bicicleta até aos grandes dias). A equipa afirma que o seu principal objectivo é lutar por etapas com Marianne Vos e obter o melhor resultado possível com Ferrand-Prévot. Mais um bluff da Visma? Ou é antes uma redução das expectativas para a francesa aparecer a voar? Entende-se, claro, que a Vuelta não é o objectivo principal, mas é assim tanto de deitar fora? Pois.

A SD Worx, cujo domínio já pertence ao passado, fará parte do controlo das primeiras etapas. Lotte Kopecky e Mischa Bredewold são garantia de qualidade nesse campo, a segunda para um braço-de-ferro com Vos, a primeira para tentativa de late attacks. Será mais por aí do que a expectativa de ver Anna Van der Breggen ou Nienke Vinke voarem para a vitória, embora sejam dois nomes a reter para a geral, naturalmente.

Tudo para chegarmos à conclusão de que as duas principais favoritas, Pauline e Niewiadoma, vão ter de sobreviver às aventuras e travessias das primeiras cinco etapas. Aí outra corrida começará. Uma que se espera das melhores do ano.

Favoritas

Kasia Niewiadoma — Tem sido das poucas a conseguir seguir Demi Vollering — ou estar perto, vá. Sabemos que subir é com a polaca. O resto nem tanto. Por isso, é ver como a sua equipa a consegue proteger das armadilhas até ao seu terreno.

Pauline Ferrand-Prévot — De certa maneira, o facto de não estar em grande forma até pode jogar a seu favor. Desconsiderar Pauline já custou caro várias vezes. Vamos ver se não vem aí outra. E se Pauline quiser ser agressiva ao ponto de testar Niewiadoma em terreno mais plano…

A não perder de vista

Anna Van der Breggen — A experiência, por vezes, é a arte do negócio. Não é explosiva, de todo, mas em Les Praeres e no Angliru o requisito é a sobrevivência. Breggen é mestre na arte da cadência, do ritmo, do auto-conhecimento dos seus limites. E isso pode ser determinante.

Mavi García — A experiência, por vezes, pois. É que é mesmo. E logo em pendentes tão duras, em subidas tão longas. As pernas já não são o que eram. Mas também não estão, nem de perto, nem de longe, prontas a desistir. E o Angliru não se sobe só com as pernas.

Cédrine Kerbaol — Os resultados não são brilhantes, o ano passado também não eram, embora tivesse dado boas indicações na Liège-Bastogne-Liège, que podia ter vencido. Ainda assim, sabemos do talento e resiliência da francesa, evidente candidata ao top-5.

Nienke Vinke — Ardenas de belo nível. A neerlandesa de 21 anos venceu as camisolas da juventude na Vuelta e no Tour de 2025 ainda com o equipamento da PicNic. Este ano, apesar da sua tenra idade, não está qualificada para tal: apenas as corredoras nascidas em 2005 podem disputá-la.

Maeva Squiban — Aquilo que demonstrou no Tour do ano passado deixa água na boca. Talvez ainda seja cedo para ambicionar a um pódio, mas confesso que não seria algo para deixar cair o queixo.

Apostas falso plano

André Dias — Sérgio Pauline.

Fábio Babau — "Life is a joke" Pauline.

Henrique Augusto — Blasizorra.

O Primož do Roglič — A colega da Maria Martins.

Miguel Branco — Um bom vinho de Kasia.

Miguel Pratas — Dei-te Kasia tudo.

Nuno Silva — Katarzyna Niewiadoma soa melhor que Kasia.

Rogério Almeida — Se é para sair de Kasia que seja para ganhar.

Vítor Ferreira — Akasia-me se puderes.