Antevisão — Il Lombardia

Patrão fora, dia santo na loja. Acho que é assim o provérbio.

Antevisão — Il Lombardia
Il Lombardia

Introdução

Il Lombardia, ou como também a conhecemos por "Clássica das Folhas Caídas", representa o ponto alto e a última grande disputa dos Monumentos no ciclismo de estrada. Contudo, esta edição não é uma edição qualquer: fica marcada por um grande vazio na linha de partida. Após um ciclo lendário de cinco vitórias consecutivas — um feito histórico com o qual igualou o recorde do mítico Fausto Coppi —, Tadej Pogačar falha a prova pela primeira vez em cinco anos, deixando o pelotão sem a figura que dominou por completo a corrida nesta década.

A última vez que um humano limpou isto. Jakob Fuglsang, ainda alguém se lembrava dele?

O percurso

A grande viragem no desenho da corrida reside na inversão do seu sentido: enquanto no ano passado o pelotão partiu das margens do Lago de Como para disputar a glória nas ruas de Bérgamo, este ano o percurso faz a viagem oposta, arrancando de Bérgamo e rumando a oeste para terminar junto ao deslumbrante Lago de Como.

Esta inversão do itinerário altera profundamente a dinâmica tática dos 239 quilómetros de prova. O arranque em Bérgamo força os ciclistas a enfrentar as primeiras e exigentes subidas nos Pré-Alpes logo na fase inicial, acumulando desgaste nas pernas ainda cedo na corrida. À medida que a corrida se aproxima da região de Como, a mítica subida à Madonna del Ghisallo (last 1.6 km @ 8.2%) surge num ponto intermédio, servindo de preparação para um final significativamente mais explosivo e técnico perto do destino. A aproximação a Como reserva rampas duríssimas e descidas não menos duras, culminando no regresso de passagens marcantes como a dupla subida a San Fermo (2,8 km @ 6,9%) e o temível Civiglio (4,2 km @ 9,7%), cujas inclinações íngremes prometem ser o trampolim perfeito para os ataques decisivos antes do mergulho final em direção à meta.

Bergamo - Como (239km)

O que esperar

A ausência do dominador absoluto abre caminho para um espetáculo imprevisível e altamente tático. Sem a sombra sufocante dos ataques a longa distância de Tadej Pogačar, a corrida deste ano ganha um dinamismo renovado, à imagem do que experienciamos nos Mundiais em Montreal.

Remco Evenepoel surge como a grande referência natural do pelotão. O percurso duro e técnico em direção a Como favorece a sua capacidade de rolar e isolar-se na frente, mas a responsabilidade de controlar o ritmo da corrida recairá em grande parte sobre os seus ombros e, consequentemente, sobre a equipa da Red Bull - BORA - hansgrohe.

Para contrariar a força de Evenepoel, a UAE Team Emirates aposta na sua irreverente jovem estrela, Isaac del Toro. O mexicano representa a audácia e o talento emergente, possuindo a explosividade necessária para responder às acelerações nas rampas mais íngremes e a capacidade de ser uma peça tática imprevisível para manter o caneco na casa.

A corrida promete ser também um palco de afirmação para Paul Seixas. O jovem prodígio francês chega respaldado por um crescimento vertiginoso nas provas de montanha, exibindo uma maturidade tática e uma capacidade de subida que o colocam entre os candidatos capazes de endurecer a prova desde muito cedo e desgastar os favoritos. Veremos se aqui as pernas não lhe irão pregar novamente uma partida.

A juntar-se a este lote de protagonistas está Tom Pidcock, um ciclista cujo instinto agressivo e habilidade técnica se ajustam com perfeição à fase decisiva em Como. Sendo mestre no ataque rápido e incomparável nas descidas vertiginosas que antecedem a meta, o britânico é o tipo de corredor perigoso que pode aproveitar qualquer hesitação num grupo restrito para fazer a diferença nos momentos de maior tensão. Não tem acontecido, but... who knows?

Favoritos

Remco Evenepoel — Um fim de época agridoce. Cheio de conquistas mas a falha nos Mundiais deixou um amargo de boca e algumas dúvidas quanto à sua capacidade atual em provas com tanto acumulado. É preciso deixá-lo para trás, que o belga está a sprintar muito bem e porque, se estiver para trás, não está para a frente. E quando este rapaz está para a frente acabou a corrida.

Paul Seixas — Pode ser o dia da consagração, da sua primeira grande vitória, da confirmação do estatuto de sucessor. Tem sido sempre dos mais fortes mas nem sempre dos mais inteligentes, e isso, nestas provas paga-se caro. Se não for desta, será no futuro.

Isaac Del Toro — Por falar na luta pela sucessão, Torito é o outro grande candidato, o outro principe. Diz que não recuperou a 100% do mundial e é sabido que quando os ciclistas dizem que não estão top, vão voar. Deverá dividir liderança, mais ou menos, dentro da equipa, mas isso até pode jogar a seu favor.

Tom Pidcock — Sempre a bater na trave, mas pode ser desta. Não é das edições mais duras da prova, os favoritos parecem estar muito equiparados e ele pode aproveitar para se colocar ao ataque, nomeadamente nas descidas.

A não perder de vista

Oscar Onley — O britânico tem vindo de menos a mais na temporada e está a fechar bem. Acredito num cenário semelhante ao que assistimos no mundial e isso pode promover surpresas. Se assim for, Onley está na Pole Position.

Lenny Martinez — Instável, incerto, imprevisível. Nunca se sabe com o que se pode contar do pequeno francês, mas costuma aparecer bem nos grandes momentos e esta corrida é a cara dele.

Christian Scaroni — Anda sempre lá, mas raramente ganha. Um dia a história há-de mudar.

Eric Mas — Já o vimos voar aqui. As pernas estão lá. Seria a cereja no topo de um bolo que já está muito recheado este ano.

Brandon McNulty — Outro à procura da cereja. Normalmente ganha aqui o campeão do mundo, vamos ver se o americano tem pernas para manter a tradição agora que já é um ciclista mais marcado.

Apostas falso plano

Fábio Babau — Paul Seixas, para acalmar os ânimos dos jovens em França.

Henrique Augusto — PIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIID.

Miguel Branco — Paul Seixas. Vamos lá ver se foram cãibras.

Miguel Pratas — Remco merece a Lombardia.

Nuno Silva — Isaac Del Toro.

Rogério Almeida — Remco vai fazer birra, porque ganha Seixas.

Vítor Ferreira — Uma Aventura na Lombardia, uma obra de Remco Evenepoel.