Antevisão — World Championships - RR
Mundiais sem vencedor(es) antecipado(s).
Introdução
Em 1974, há 52 anos, Montreal entrou para a história deste nosso querido desporto ao ser a primeira cidade fora da Europa a acolher o Campeonato Mundial de ciclismo. Foi neste palco, montado em redor do parque do Mont-Roytal, que Eddy Merckx conquistou a sua terceira e última camisola arco-íris, batendo Raymond Poulidor num sprint lendário. O sucesso estrondoso deste evento abriu caminho para a realização dos Jogos Olímpicos de 1976 na cidade, usando o mesmo circuito nas provas de ciclismo.
A cidade dos Montreal Canadiens consolidou-se no calendário do ciclismo internacional através no Grand Prix Cycliste de Montréal, prova do circuito World Tour disputada anualmente desde 2010 no mesmo circuito do Mont-Royal, e que já teve como vencedores Campeões do Mundo como Tadej Pogačar, Peter Sagan ou Rui Costa.

No setor feminino, ao contrário do masculino, não há (ainda) história em Montreal, mas já têm uma campeã do mundo: Magdeleine Vallieres. A canadiana triunfou em Kigali e pode revalidar o título em casa.

O percurso
100 quilómetros de plano entre Brossard e Montreal e 170 de Mont-Royal (3600 metros de desnível positivo acumulado) na prova masculina; 65km/115km (2400m) na feminina.

A cada passagem pelo Côte de la Voie Camillien-Houde (1600m @ 7.5%) as pernas vão doer mais e mais. São 12 passagens para os homens e 8 para as mulheres. A subida não deixa muito espaço para recuperar: a descida é rápida e técnica, levando quase de imediato à Côte de Polytechique (rampa curta com inclinações acima dos 11%).

O que esperar
Fuga de pinos e planos D a serem controlados à distância pelas equipas mais fortes e com mais responsabilidades: Bélgica, EUA, França, Itália, Países Baixos e Reino Unido (acrescento Canadá e Espanha no setor feminino).
Assim que chegarem ao Mont-Royal, as principais seleções deverão pegar no martelo e impôr um ritmo elevado e constante nas primeiras ~8 voltas para eliminar os gregários e os puncheurs rivais. À medida que chegarmos à fase decisiva algumas seleções sem favorito absoluto vão antecipar movimentações e lançar os seus nomes fortes, e as mais fortes vão ter de lançar planos B ou C, não descurando a proteção aos seus líderes.
Não há um senhor esloveno que gosta de atacar bem longe da meta, mas há aqui vários nomes com essa capacidade e astúcia, tanto na corrida masculina como na feminina, pelo que espero ver um grupo muito restrito a formar-se ainda longe da meta, com os underdogs a tentarem temporizar na perfeição um late attack, aproveitando os olhares hesitantes entre os mega-favoritos.
Resumindo, corrida de eliminação, caótica, sem rádio, e com muitos egos (e pernas) que se vão inflamando a cada passagem pela Côte de la Voie Camillien-Houde. A chegada será num belíssimo falso fano na Avenue du Parc. Só falta saber se vai ser em sprint reduzido ou a solo.
Favoritos
Tadej Pogačar — Não vá ele aparecer de surpresa na partida.
Remco Evenepoel — Não é por ter vacilado no GP Montreal que não é o favorito número 1. Deu show em Quebéc e na prova de contrarrelógio, é um percurso que lhe assenta bem e a quilometragem não é um problema. Mesmo sem Wellens a Bélgica tem uma seleção monstruosa.
Isaac del Toro — Este não vacilou no GP Montreal mas não está habituado a distâncias tão longas nem tem uma equipa tão forte.
Paul Seixas — Só perdeu para o Torito no GP Montreal, num sprint a dois, uma componente onde o mexicano é claramente mais forte. Vai ser muito difícil alguém conseguir dropar o nosso Paulinho.
Mathieu van der Poel — "Muito duro", "Já não corre desde o Tour". Estes foram alguns dos impropérios proferidos até ao dia 20 de Setembro. Foi nesse domingo ressacudo para alguns elementos do falso plano que o neerlandês fez um solo de 176 quilómetros e baralhou as odds.
Os Pedersen
Quinn Simmons — A seleção americana é fortíssima, com Jorgenson, McNulty e Sheehan em grande forma. Com dois top-5 nos dois Grand Prix Cyclistes, o ciclista do Colorado é o que oferece mais garantias. Pode aproveitar as marcações entre os favoritos para lhes provocar um ataque tardíaco.
Thomas Pidcock — 4.º em Quebéc e 6.º em Montreal depois de vencer o GP Industria & Artigianato. Lida bem com distâncias longas e a forma está lá. Pode suceder a Cavendish, 15 anos depois.
Wout van Aert — O meu favorito para o Campeonato do Mundo de Farmar Aura.
Ben Healy — O nosso underdog preferido.
Seleção Italiana — Qualquer um (menos o Cattaneo) pode fazer um grande resultado. Andiamo, Scaroni.
Afonso Eulálio — É a nossa esperança para estes mundiais. O 9.º classificado em Kigali costuma andar muito bem no Canadá, um top-10 não surpreeenderá ninguém e até mesmo um top-5 não é, de todo, descabido.
Favoritas
Demi Vollering — A principal candidata à vitória. É um título que lhe falta e este perfil adapta-se às suas características (como quase todos os que têm subidas). Os Países Baixos dominaram esta prova entre 2017 e 2020, com quatro títulos consecutivos.
Elisa Longo Borghini — A italiana é uma das ciclistas mais experientes do pelotão. Tem uma seleção e a ratice necessárias para se movimentar rumo ao arco-íris.
Kim Le Court-Pienaar — Forma recente: check; nome estiloso: check; nacionalidade incrível: check; perfil da corrida: check. O problema é que corre praticamente sozinha. Vai ser preciso muita astúcia (e sorte) para conseguir chegar bem posicionada à meta.
Lotte Kopecky — Temporada para esquecer (apesar de vitória em Sanremo) mas gosto pouco de menosprezar esta especialista em corridas de um dia. Bi-campeã do mundo (2023 & 2024).
Franziska Koch — Temporada brutal desta ciclista que já tive o privilégio de ver subir o Paterberg. Ainda não consegui decifrar bem os limites dela mas acho que pode ser a nova campeã do mundo. O 3.º lugar na prova de contrarrelógio comprova a boa forma.
As Vallieres
Magdeleine Vallieres — The one and only. Está a fazer uma boa temporada, é a campeã do mundo e corre em casa. Merece. E desta vez não surpreenderá ninguém. Ela e a sua compatriota Sarah Van Dam.
Puck Pieterse — Plano B de luxo dos Países Baixos. Ela adora estas subidas curtas e explosivas, tem de ser lançada ao ataque.
Kasia Niewiadoma — Ela gosta disto, destas corridas de desgaste. O problema é que a seleção é mais fraca e sabe que ao sprint perde para qualquer uma. Tem de lançar um ataque mortífero no Côte de la Voie Camillien-Houde.
Paula Blasi — Temporada fantástica e polémica. Se estiver na forma das Ardenas pode envergar a camisola arco-íris.
Célia Gery — Prémio Revelação 2026? Absurdamente consistente ao longo do ano. A miúda só tem 20 anos e é a campeã francesa. Juntamente com Kerbaol & Squiban vão formar um trio irreverente, capaz de dinamitar Montreal.
Apostas falso plano
André Dias — Remco Evenepoel e Marlen Reusser. Em tempos de inflação, é uma boa poupança em lavandaria.
Henrique Augusto — O meu hot take é que os vencedores destas provas serão os vencedores dos Tour de 2027. Paulinho Seixas e Demi Vollering.
O Primož do Roglič — Lourenço e Andreia.
Miguel Branco — Paulinho Seixas e Sarah Van Dam. Eu queria o Woods, para ficar tudo em casa, mas a idade nem sempre é um posto.
Miguel Pratas — Underdogs Quinn Simmons & Ricarda Ba.
Nuno Silva — Remco Evenepoel & Demi Vollering.
Rogério Almeida — Isaac Maria da Costa Vollering.
Vítor Ferreira — A Van Dama e o Toro vestem arco-íris.