Antevisão — Tour de Suisse

Gostei mais da edição do ano passado, posso desde já adiantar.

Antevisão — Tour de Suisse

Introdução

A Suiça faz-me lembrar chocolates deliciosos, relógios certeiros, golaços em mundiais de Xherdan Shaqiri, esquerdas a escorrer aura de Roger Federer e, talvez o mais importante neste contexto, grandes vitórias dos ciclistas nacionais.

Rui Costa brilhou de forma imparável entre 2012 e 2014, com três vitórias consecutivas, e João Almeida retomou a contenda mais recentemente, com o segundo lugar (segundo que só não foi primeiro por simpatia, dizem as más línguas e a minha também) em 2024 e a vitória espetacular em 2025, depois de perder muito tempo na primeira etapa e passar o resto dos dias a recuperar, paulatinamente, até chegar à amarela na cronoescalada final e alcançar a terceira vitória em gerais World Tour na época. Temos saudades desse João, que volte rápido.

Peço desculpa por vos dar esta má noticia, mas em 2026 Portugal não deve somar a quinta vitória nesta prova (desculpa Eulálio, acredito muito em ti, mas também calma né). João Almeida não está presente, mas nem é por causa disso. Até podia estar a reencarnação do Papa em modo ciclista que dificilmente chegaria para bater um insaciável Tadej Pogačar, que se apresenta na partida com o objetivos de continuar a meter símbolos da Nike na sua checklist de vitórias. Depois desta, já só ficará a faltar o País Basco para alcançar o pleno nas sete principais provas por etapas de uma semana. Vão escasseando os objetivos por alcançar do fenómeno esloveno, que para completar o ciclismo já só lhe precisa vencer a Vuelta, os Jogos Olímpicos e a Volta a Portugal.

Queria só aproveitar este espaço para ofender Primož Roglič. Há anos que só lhe falta a Suiça para completar as tais principais provas de uma semana. Ano após ano, não alinhou à partida. Este ano é que se lembrou, tendo que se deparar com Pogi. É pouco inteligente da parte dele, se querem a minha modesta opinião.

Nota ainda para o facto de ir decorrer em simultâneo a edição feminina da prova, sempre com a corrida a acontecer primeiro que a masculina, com uma startlist de luxo e que promete mais luta pela vitória entre grandes nomes como Elisa Longo Borghini, Kasia Niewiadoma e Marlen Reusser.

Aproveitemos então a Suíça, as suas paisagens, a luta pelas etapas e pelos restantes lugares do pódio. Pelo menos enquanto há, que isto de existirem duas provas WT na Suiça parece ser um facto que tem os dias contados, como os Capitão Fausto.

Até parecia fácil. (foto: Expresso)

O percurso

Etapa 1 — Terreno acidentado, típico para puncheurs. A última subida é uma real parede pelo que pode perfeitamente acontecer um ataque vingar e chegar isolado. Assim de repente um rapaz vestido de arco-íris deverá ser o principal candidato.

Sondrio — Sondrio (143km)

Etapa 2 — Semelhante ao dia anterior, embora com menos dureza acumulada. Neste terreno acredito que outro génio aqui presente, de seu nome Mathieu van der Poel, possa ter uma palavra a dizer na luta pela vitória na etapa.

Locarno — Locarno (158km)

Etapa 3 — Tão sprint quanto é possível ser sprint na Suíça. Pode dar para um homem rápido versátil, como Brennan ou Strong, ou pode dar para uma fuga numerosa alcançar o seu sucesso.

Bad Ragaz — Bad Ragaz (158km)

Etapa 4 (ITT) — 24 quilómetros a fundo, num terreno maioritariamente plano. O primeiro dia para grandes diferenças na classificação geral.

Aarburg — Aarburg (24km)

Etapa 5 — Que etapón. 4500 metros de acumulado em 150 quilómetros e sem um metro plano. Deverá ser o dia mais interessante na luta pelo pódio e pelo top-10 na geral, existindo também a curiosidade sobre se Pogi pode testar um dos seus long range attacks e meter 5 minutos em toda a gente.

Engraçado, as etapas acabam e começam todas na mesma terra.

O que esperar

Quando Pogačar está em prova, é em torno dele que residem as principais decisões e depende muito da sua mood a forma como a corrida se desenrolará. Há quem tenha ficado preocupado com a falta de acutilância que demonstrou na Romandia (onde ainda assim ganhou 4 etapas e a geral), mas eu estou plenamente convicto que foi meramente um misto de gestão e de cansaço acumulado depois da temporada de clássicas, pelo que continuo a achar que aqui ganha as etapas que quiser. Faltam 15 dias para o Tour, a forma já deve estar lá e agora tudo depende da forma como ele decidirá abordar a corrida. Se quiser ganhar as duas primeiras etapas e correr de forma agressiva para isso, assim o fará e pouca será a história da corrida. Se as correr de forma mais passiva, a corrida tornar-se-á mais aberta e outros nomes poderão lutar pela vitória e primeira amarela, nomes esses de onde destaco Romain Grégoire e Mathieu van der Poel. Eu adoro o critério, seja ele qual for, da definição de calendário de Mathieu van der Poel. É tão aleatório que se torna divertido.

O contrarrelógio marcará depois as posturas que as diversas equipas e seus lideres terão na etapa rainha, onde todas as grandes diferenças se farão. Quem ataca e quem defende. Quem já está satisfeito e quem vai tentar incendiar uma etapa onde não falta é material para arder.

Em suma, espero duas primeiras etapas interessantes, quem não gosta de umas belas chegadas punchy, um contrarrelógio longo para os padrões atuais de onde se vão poder retirar conclusões quanto ao estado de forma desta gente rumo ao Tour e uma etapa final que, de tão brutal, será sempre interessante de acompanhar. Reforço a sugestão para acompanharem com particular interesse a corrida feminina que promete bastante.

Favorito

Tadej Pogačar — É Pogačar, vai ganhar, vai ganhar fácil e nem sequer se justifica inserir outros ciclistas nesta categoria. A dúvida será só se optará por uma abordagem agressiva, bem ao seu estilo, ou por uma toada mais conservadora como fez na Romandia. No fundo, se ganhar por 3 minutos ou por 6.

A não perder de vista

Lenny Martinez — Eu adoro petit Lenny. Nos seus dias é dos melhores trepadores do mundo e ainda soma um punch que lhe permite vencer com alguma regularidade. Parece que neste Tour se irá finalmente testar como voltista e eu estou muito curioso sobre o que ele poderá alcançar. Aqui, acredito que seja aquele que poderá avistar de menos longe Pogačar, apesar do banho que vai levar no dia do esforço individual.

Antonio Tiberi — Abriu bem a época mas desde aí tem sido uma desilusão completa. Deverá ser dos melhores no contrarrelógio mas as suas pernas aguentarão a etapa final? Tenho muitas duvidas. E caso não aguentem, as perspectivas para o Tour tornam-se bastante pouco interessantes.

Primož Roglič — Ainda por cá anda, este senhor. Continua a mostrar alguma capacidade e este percurso até lhe deverá agradar. Não descarto um pódio.

Matthew Riccitello — Curioso para ver o americano com liberdade nesta prova antes de se colocar ao serviço do Paulo.

Richard Carapaz — Sempre uma incógnita, sempre espetacular. O ciclismo é melhor com Carapaz por perto.

Afonso Eulálio — Não contava com Afonsão nesta startlist depois do esforço hercúleo do Giro e tenho muitas dúvidas sobre como se apresentará. Pode vir para trabalhar ou para tentar uma fuga, já que GC me parece difícil dado o extenso contrarrelógio. Os dois primeiros dias são terreno onde, caso esteja bem, pode mostrar a sua ousadia e tentar surpreender com um ataque feroz. Sem expetativas, como no Giro, correu bem e vou manter esse registo.

Jarno Widar — Esquecido pela ascensão de Paul Seixas, o vice-campeão do Avenir no ano passado tem aqui uma bela oportunidade para mostrar serviço, quer nas duas primeiras etapas quer na etapa rainha. Entusiasmado com a possibilidade de ver o pequeno belga a voar.

Thibau Nys/Andrew August/Matthew Brennan — Obviamente não são nomes para ganhar a geral, mas eu vou mantê-los debaixo de olho. Nys regressa finalmente às corridas de maior dimensão e tem aqui 3 boas hipóteses para brilhar. August tem dado grandes indicações este ano e aqui com liberdade poderá até tentar GC. Brennan anda em modo flop e como eu o amo acho que já chega e que aqui deve picar o ponto.

Apostas falso plano

André Dias — Eu subscrevo, reforço, reitero e uso mais sinónimos ainda para concordar com a aposta do Henrique.

Henrique Augusto — A minha aposta é que Alessandro Pinarello vai ser o primeiro camisola amarela desta prova.

Miguel Branco — Dom Afonso Eulálio. Com o apoio dos super domestiques Lenny Martinez e Antonio Tiberi.

Miguel Pratas — Pogi 6/7.

Nuno Silva — Aquele que vence sempre que está presente.

Rogério Almeida — Pogačar vai fundar o 27° cantão .