Antevisão — Renewi Tour

Clássicas de Primavera em agosto? Merlier vs. Milan pela primeira vez na época? É tipo o In-verão do ciclismo.

Antevisão — Renewi Tour
Renewi Tour

Introdução

Nas palavras da filósofa contemporânea Marina Sena, "ai que delícia o verão". Mas há sempre aquela malta que nunca está bem na estação em que se encontra; que está a torrar na praia, mas a suspirar por uma manta quentinha. Que enfarda camarão numa esplanada, mas do que tem mesmo saudades é de sopas e alergias ao pólen. Que conheceu um grande e arrebatador amor de verão, mas só consegue pensar no desgosto amoroso que o deixou de cama lá para março.

É para estas pessoas que existe o Renewi Tour: uma corrida que mete duas clássicas de Primavera no meio de agosto. Só para voltarmos a ver aqueles paredões de pavé e, verdade seja dita, para dar uma boa desculpa aos belgas para aviarem canecos junto à estrada também no verão.

A antiga prova do Benelux escolheu este nome menos LUXuoso para destacar o seu patrocinador: uma empresa de gestão de resíduos. Ya, eu já vi isto a acontecer nos Sopranos.

O ano passado, Arnaud De Lie venceu. A prova foi decidida em apenas uma etapa (no fundo, a etapa 3 deste ano). Desta vez, a história não vai ser tão simples.

O percurso

Etapa 1 — Etapa com algum sobe-e-desce inicial, apenas no caso de alguém ter trazido o Jakobsen. No final, há um circuito com quatro passagens por Grasbos (400 metros ali com um trecho a 11% de inclinação). Mete respeito, mas nada que assuste os sprinters. Ao longo da prova, vai ser muito Diest.

Diest - Diest (191 km)

Etapa 2 — Esta então é limpinha. Nem os abanicos tiram esta ao sprint.

Blankenberge - Ardooie (174 km)

Etapa 3 — A Bélgica já não tem albergue para tanto berg. É a etapa rainha deste Renewi Tour e aqui não podes ter pavor ao pavé. Esta puxa para os puncheurs. Já não tenho mais jogos de palavras para fazer aqui. O ano passado foi sprint a dois entre Mathieu van der Poel e Arnaud De Lie (que ganhou este muro em 2024).

Celles - Geraardsbergen (182 km)

Etapa 4 — Mais uma etapa quase a papel químico da edição anterior. E ao contrário do que poderiam esperar olhando para o perfil da etapa, em 2025 isto deu sprint compacto para Merlier. Mas acho a etapa mais interessante da prova (explico mais abaixo).

Kanne - Grote-Spouwen (187 km)

Etapa 5 — Para fechar, os sprinters Leuven mais uma para casa.

Leuven - Leuven (184 km)

O que esperar

A nível táctico, acho esta corrida mesmo muito interessante. Destaco a etapa 4 como exemplo disso. Em teoria, é para os puncheurs, certo? Mas não se as equipas de sprint e os seus comboios de roladores tiverem uma palavra a dizer.

Por isso, espero um longo jogo de cinco dias de puxar a corda entre quatro tipos de equipas:

  • As que querem, ao máximo, levar sprinters ao final (Alpecin, Soudal, Decathlon, NSN).
  • As que, não trazendo os homens mais rápidos, querem atacar a corrida ao máximo para distância (Red Bull, UAE, INEOS, Bahrain).
  • As que, no papel, têm homens de igual valor para os dois cenários e por isso tanto faz (Lotto, Lidl, a Visma que não traz ninguém de jeito para nenhum).

Os primeiros dois dias serão o costume desta corrida: um mini campeonato do mundo de sprinters para todos os gostos. Primeiro, para os que gostam de alguma dificuldade antes da chegada; depois para os surfistas do pelotão, especialistas em tábuas de engomar.

A sucessão de paredões nas etapas 3 e 4 vai separar as panquecas das waffles na luta pela Geral. Preparem-se para ataques de longe, grupos improváveis a puxar, muita "síndrome de grupo 2" na perseguição.

Favoritos

Arnaud de Lie — A caminho da Tudor, em forma ou fora dela, é sempre um nome a ter muito em conta quando o tema é "provas na Bélgica com muito sprint e muito punch em que afinal não vem o MvdP e todas as bonificações ajudam". Ya, é um tema específico. Mas é assim que se fazem os doutoramentos. E na escola onde andam os outros, já o Arnaldo foi professor.

Laurence Pithie — A Red Bull nem quer ouvir falar de grandes sprintalhadas nesta prova. As cartas vêm lançadas para o australiano, que se dá cada vez melhor nestas chegadas em punch. E com aqueles "Green KM" para bonificações...

Tim Merlier — Óbvio que não é um dos favoritos à Geral. Depois de ter dominado por completo no Tour de France este é, para mim, o grande favorito a limpar 3 das 5 etapas desta corrida.

Jonathan Milan — Facto importante: Milan e Merlier ainda não se cruzaram esta época. Deve ser uma questão de agendas, coitados. O último real frente-a-frente entre os dois sprinters foi no Tour de 2025, onde o resultado foi... duas etapas para cada. Em Renewi, tiram-se as teimas.

A não perder de vista

Olav Kooij / Biniam Girmay — Só houve dois homens que bateram este ano Merlier ao sprint (quando estavam todos em condições prime de o fazer, isto é, etapa 11 do Tour não conta). Kooij tem sido o mais consistente nesta tarefa e, acredito, a melhor cartada para o fazer aqui.

Jasper Philipsen — No Tour, foi 3-0 para Merlier. Não será um disaster, mas também não espero uma prestação de master.

Florian Vermeersch — O facto: nos últimos anos, a UAE mete sempre um ciclista no pódio de Renewi. O senão: esse ciclista é sempre Tim Wellens. Sem o homem do costume e com uma equipa para cumprir calendário, Vermeersch tem hipótese de mostrar que a boa forma nas clássicas da primavera não foi um acidente. As estradas são parecidas, é só repetir.

Corbin Strong — Feijão para todos os sabores. Não é dos mais rápidos, não é dos mais punchy, mas dá-se muito bem neste tipo de provas que são um "nim". Noruega e Wallonie o ano passado são cartões de visita. Estou de olho nele.

Alec Segaert — Se vem liderar a Bahrain, ainda conta como hot take?

Rui Oliveira — Depois de invadir o podcast do falso plano na Volta a Portugal, ficar distraído com o nosso bidon e vencer um sprint inclinado no Porto (por esta ordem de importância), acham que umas lombas na Bélgica lhe metem medo?

Apostas falso plano

André Dias — Pithie corada.

Miguel Branco — Rui Oliveira. Agora ninguém o agarra.

Miguel Pratas — Kubiš é World Tour.

Nuno Gomes — Se tem Florian, a minha bet está feita!
[O autor do artigo assume que falamos de Florian Sénéchal, pino da Alpecin.]

Nuno Silva — O Dries de Bondt disse-me que era o objetivo de época dele (podem seguir tudo no Cycling Predictors no X, no instagram é o THEcyclingpredictors).

Rogério Almeida — Tá Benoot tá.