Antevisão — Tour de France

Se há melhor que isto, eu não acredito. Se me disserem finjo que não ouvi, se me mostrarem finjo que não vejo. Venha de lá a Grande Boucle.

Antevisão — Tour de France

Introdução

C'est le Tour, compinchas, amigos, seguidores, camaradas. O apogeu deste desporto que nos une, o palco dos mais históricos momentos. Quer se goste quer não, não há nenhuma prova como esta. São 3 semanas de tensão, de velocidade, de decisão e de grandes histórias.

Por falar em grandes histórias, há duas que inevitavelmente vão marcar este Tour. Primeiro, a continuação da rivalidade entre Jonas Vingegaard e Tadej Pogačar. O duo que marca esta geração vem de fazer primeiro e segundo em cinco edições consecutivas, e a tendência será para aumentar a contagem, assim não sofram nenhum infortúnio de maior. É verdade que Pogačar arranca como ultra favorito, mas também assim era quando, em 2022, Vingegaard surpreendeu o mundo e fez quebrar aquele que parecia inquebrável. Se Pogačar vencer, iguala as 5 vitórias do atual recorde, já de olho em quebrar o mesmo em 2027. Se for Vingegaard, mostra que as certezas no ciclismo são sempre temporárias. Desde 2020, tem sido duas vezes a cada. E se mantivermos o registo, este é o ano do dinamarquês. Há por aí quem acredite nestas coisas esquisitas dos números?

A segunda grande história: Paul Seixas. O francês chega a Barcelona para arrancar rumo ao seu primeiro Tour depois de muita discussão em torno da sua participação, levantando-se questões sobre a sua juventude e o nível de pressão a que seria submetido com os seus precoces 19 anos. O jovem carrega nas costas o sonho gaulês de voltar a ver um conterrâneo vencer a sua corrida de casa, e este rapaz com raízes portuguesas parece ser a melhor hipótese do século. Se já este ano? Provavelmente não, mas isso pouco importa. Este ano vem dar-nos um vislumbre do que poderá fazer no futuro, ganhar experiência e andamento, enquanto espera que o seu tempo chegue. E está para breve, vos garanto.

Estas são as histórias que nós já sabemos que vão acontecer, mas as mais saborosas são as que nos surpreendem. Essas são, por definição, impossíveis de prever, mas são também as que estou mais ansioso por conhecer. A equipa pequena que engana os tubarões e vence numa fuga, o jovem que surge no top-10 sem ninguém ter visto isso como uma possibilidade, o dia dos abanicos, o camisola amarela provisório inesperado, a quebra de um favorito quando nada o fazia prever. É disso que se fazem as corridas de ciclismo e aqui tudo tem mais peso, mais força, mais impacto.

É o Tour, compinchas.

A gente diz que gosta mais do Tour of Hainan. Mas é mentira. Chiuuuuuuuuuu.

O percurso

Etapa 1 (TTT) — A abrir, um contrarrelógio por equipas com os tempos a serem contabilizados individualmente. Esperemos que desta vez acabe de dia. Nota para o favoritismo teórico da INEOS que traz uma série de motores (Ganna, Tarling, Foss, etc.) com a ambição de levar Vauquelin (?) à primeira camisola amarela. Pena para este evento que vá ser ofuscado pela corrida mais importante do dia, a Tigelinha Champions Classic, evento clássico onde os membros deste estimado projeto se juntam para correr desenfreadamente rumo ao bagaço do Senhor Gonçalves.

Jola de cristal — INEOS.

Barcelona — Barcelona (20km)

Etapa 2 — Passa em Montjuic mas não é bem o Montjuic que estamos habituados a ver na Volta à Catalunha. Diz-se por aí que é mais dura que o habitual, com rampas bem durinhas. Sendo assim, já podem imaginar quem será o favorito.

Jola de cristal — Tadej Pogačar.

Tarragona — Barcelona (169 km)

Etapa 3 — Cheira a fuga na chegada a território francês. A fase mais dura da corrida, no topo da Collada de Toses (3.9km a 9%) fica ainda a 70 quilómetros da meta, pelo que acredito ser um dia talhado para premiar os atacantes. E muita atenção, que podemos ter aqui alguém a chegar à amarela e a mantê-la durante muitos dias.

Jola de cristal — Alex Aranburu.

Granollers — Les Angles (196 km)

Etapa 4 — Outra fugaça. Ou Mads Pedersen vai colocar a equipa a trabalhar na esperança de poder vencer num grupo reduzido. Essa será uma das lutas interessantes deste Tour: vermos qual o compromisso da Lidl com o objetivo verde de Mads, que terá de aproveitar ao máximo estas oportunidades.

Jola de cristal — Lennert van Eetvelt.

Carcassonne — Foix (182 km)

Etapa 5 — Finalmente, um belo de um sprint. Talvez ainda alguém tente descartar os mais frágeis naqueles topos a 40 quilómetros da meta, mas o mais provável é uma chegada em pelotão compacto e o primeiro teste aos cavalões deste Tour.

Jola de cristal — Tim Merlier.

Lannemezan — Pau (158 km)

Etapa 6 — Primeiro etapón deste Tour. A passagem no Tourmalet faz tremer qualquer um, e a chegada num belíssimo falso plano de 18 quilómetros tanto pode fazer os favoritos pensar duas vezes antes de se lançarem, como pode aumentar e muito as diferenças. Já sabemos que é no falso plano que se vê quem tem pernas. É o primeiro pano que vai passar sobre os homens que chegam aqui com ambições de pódio/top-10, e alguns vão desde logo ter de redefinir a sua estratégia.

Jola de cristal — Tadej Pogačar. Foi giro este Tour, até para o ano.

Pau — Gavarnie-Gèdre (186 km)
Será nesta montanha que ficará claro quantos dias de luta pela vitória no Tour teremos direito nesta edição.

Etapa 7 — Bordeaux é champanhe. E antes do champanhe cai bem uma sesta, que é o nível de atenção que esta etapa me vai merecer até aos 5 quilómetros finais.

Jola de cristal — Tim Merlier.

Hagetmau — Bordeaux (175 km)

Etapa 8 — Os sprinters demoraram a chegar mas têm aqui duas etapas seguidas para se fazerem valer.

Jola de cristal — Tim Merlier.

Périgeux — Bergerac (180 km)

Etapa 9 — Etapa rompe pernas, perfeita para uma bela fuga de roladores com grandes motores. Ou, mais uma vez, para Madszão.

Jola de cristal — Raúl García Pierna.

Malemort — Ussel (186 km)

Etapa 10 — Etapa bem puxada e a fazer lembrar a última vez em que Vingegaard bateu Pogi. Média montanha que tanto pode servir para, ao fim de vários dias fora da discussão, ataques dos homens da geral como pode servir para mais uma fuga vingar. Tem tudo para ser caótico e alguém vai apanhar uma desilusão grande neste dia.

Jola de cristal — Ben Healy.

Aurillac — Le Lioran (167 km)

Etapa 11 — Isto parece ser meio a descer, sprint para gente pesada.

Jola de cristal — Em Vichy mandam os alemães. Phil Bauhaus.

Vichy — Nevers (162 km)

Etapa 12 — Mais um dia para os homens rápidos. Nota para o facto de que numa destas etapas que tenho resumido simplesmente dizendo que vão ser sprints, vai-se dar um caos dos diabos com uma ventania desgraçada e vai acabar por ser uma super etapa. Se eu podia ir ver quais são as etapas mais propícias a esse acontecimento e transmitir-vos essa informação? Podia. Mas também calma, né, isto é de borla.

Jola de cristal — Jasper Philipsen.

Circuit de Nevers Magny-Cours — Chalon-sur-Saône (179 km)

Etapa 13 — Que etapa esquisita. A subida é dura e perto do fim o suficiente para existirem ataques entre os favoritos, mas a não ser que Pogi esteja mesmo em modo papão, a descida é capaz de o fazer retrair e dar mais uma oportunidade aos homens da fuga.

Jola de cristal — Thomas Pidcock.

Dole — Belfort (206 km)

Etapa 14 — Entramos no fim-de-semana com uma etapa onde as coisas podem começar a piar mais fino. Em 2024, Pogačar acabou com o Tour com um bis nas etapas 14 e 15. Este ano prevejo o filme a repetir-se.

Jola de cristal — Tadej Pogačar.

Mulhouse — Le Markstein (156 km)

Etapa 15 — Vimos bem a dificuldade desta subida no Dauphiné deste ano, onde Isaac del Toro venceu e alcançou a liderança da prova. É a primeira chegada em alto a sério deste Tour e possivelmente a mais dura de toda a prova. O dia em que começa, mesmo antes de começar, a "última semana".

Jola de cristal — Tadej Pogačar.

Champagnole — Plateau de Solaison (184 km)
Ca puta.

Etapa 16 (ITT) — Contrarrelógio individual, o único desta edição, ondulado e apenas de 26 quilómetros. (Se fosse de 260 quilómetros e plano talvez o Remco cumprisse o seu objetivo de vencer a corrida.) Espero algumas diferenças, claro, sobretudo porque numa fase tão adiantada da prova as pernas já doem, o que pode aumentar o impacto do esforço individual. Ainda assim, quase todos os grandes voltistas hoje em dia se defendem bem no contrarrelógio e não vejo este dia como decisivo.

Jola de cristal — Remco Evenepoel.

Évian-les-Bains — Thonon-les-Bains (26 km)

O sentimento depois do Remco vencer o contrarrelógio e ficar só a 9 minutos da amarela:

Desculpem a referência aleatória. Mas lembrei-me, ri-me e partilhei.

Etapa 17 — Podia ser sprint, mas sendo na última semana vão existir 1000 equipas sem vitórias a colocar toda a carne no assador desde o quilómetro zero e acredito que se pode formar um grupo grande e forte para disputar a vitória entre si. E termos depois uma bela duma fuga de la fuga.

Jola de cristal — Jonas Abrahamsen.

Chambéry — Voiron (175 km)

Etapa 18 — Não é duro o suficiente para os homens principais se movimentarem, até pelo que vão enfrentar nos dias que se seguem. Então acredito que pode ser mais um dia a premiar os atacantes, assim Pogi não queira chegar ao Cavendish já nesta edição.

Jola de cristal — Richard Carapaz.

Voiron — Orcières-Merlette (186 km)

Etapa 19 — Chegada emblemática às curvas do Alpe d'Huez abrem as hostilidades do combo de etapas que vão sentenciar este Tour. Etapa relativamente fácil até ao sopé da subida, facilitando ainda mais o trabalho de uma UAE, que sabendo que Pogi nunca ganhou aqui, não vai deixar créditos por mãos alheias.

Jola de cristal — Tadej Pogačar.

Gap — Alpe d'Huez (128 km)
É história desta modalidade.

Etapa 20 — 5600 metros de acumulado ao fim de 20 dias de competição. Que brutalidade. Vê-se que quem desenhou isto não vai ter que ir lá com as próprias perninhas percorrer este percurso. É duro no início e no fim parece o início. Crôix de Fer, combinação mítica Telegraphe, Galibier, depois Col de Sarenne e uma chegada ao Alpe d'Huez, embora a uma versão reduzida. A etapa rainha deste Tour e o último dia para se fazerem diferenças na geral. Como se diz em falsoplanismo, dia de sofá.

Jola de cristal — Lenny Martínez.

Le Bourh d'Oisans — Alpe d'Huez (172 km)

Etapa 21 — .Montmartre veio para ficar, como seria previsível depois do tremendo sucesso da edição transata. Algumas mudanças, afastando a última passagem pela subida da meta e abrindo assim mais o caminho a uma possível chegada em sprint.

Jola de cristal — Mads Pedersen.

Thoiry — Paris (130 km)

O que esperar

Este é um Tour um tanto ou quanto atípico na sua composição. Nos primeiros 14 dias, só contamos com uma etapa de dificuldade avultada, e mesmo essa não termina em alto.

A minha leitura desta opção por parte da organização é que a ideia foi não deixar Pogačar resolver a corrida na primeira semana e depois relaxar, um pouco à imagem do que aconteceu na edição transata. É uma opção que se compreende, dado o domínio recente e absoluto do esloveno.

Só que isto pode abrir portas a muitas histórias para nos alimentar durantes esses largos primeiros dias. Acredito que vamos ter um camisola amarela daqueles meio pokémon (hot take: Lennert van Eetvelt), algo que não tem acontecido no Tour. Isso pode criar dinâmicas interessantes, mas está sempre tudo dependente, como sempre, das vontades do senhor Tadeu. Pode vir aqui feito comilão, chegar à amarela na segunda etapa, rebentar com a concorrência no Tourmalet e depois para o ano voltamos à partida do Tour e voltamos a achar que é desta que vamos voltar a ter alguma competição. Já fui nesta cantiga algumas vezes. E gosto muito, faz parte do encanto. Depois é utilizar a sua magnífica equipa para escolher as etapas que quer ganhar (eu apontaria para 5 ou 6), o suficiente para ter a corrida completamente controlada mas sem entrar em grandes loucuras.

A responsabilidade máxima de evitar este cenário por demais previsível reside num Jonas Vingegaard que se apresenta, à partida, já com um Giro no bolso e, por isso, acredito que mais "leve". Pode tentar atacar, usar a sua forte equipa, jogar bem taticamente, mas para isso precisa de ter as pernas, que é o que lhe tem faltado nos últimos anos. Acreditemos que sim, que nos dê espetáculo. Ou que pelo menos nos permita a dádiva de nos julgarmos no direito de ter alguma emoção durante os primeiros dias.

A minha foto favorita deste duelo.

É verdade que a tendência é continuar a olhar para aqueles dois como ciclistas num patamar completamente à parte. E será provavelmente a visão certa, porém existe neste Tour uma profundidade de qualidade que não me lembro de presenciar nos tempos recentes.

Paul Seixas é um jovem irreverente com vontade de se dar a conhecer aos muito distraídos. Isaac del Toro está a ter uma época extraordinária e desengane-se quem pensa que chegará aqui apenas com o objetivo de auxiliar Pogačar. Juan Ayuso e Remco Evenepoel têm tanto a provar que a vontade de vingar só pode ser gigante. E, no meio de tanta estrela, temos Florian Lipowitz a querer mostrar que o pódio do ano passado não foi obra do acaso.

É uma lista profunda de candidatos ao pódio, com uma qualidade inesgotável, e à qual eu queria ainda somar o grande Thomas Pidcock. Surpreendeu meio mundo com o seu pódio na Vuelta passada, este percurso adequa-se às suas características e diz-se que se preparou como nunca. Não sei no que vai dar, é um ciclista imprevisível, mas gosto muito e vou estar bastante atento.

Jola de cristal — Pódio final composto por Pogačar, Vingegaard e Isaac del Toro.

É tempo de se provar contra os melhores. E quiçá, repetir a épica vitória no Alpe d'Huez (vá, exagerei um poucochinho).

Ainda há mais alguns nomes interessantes que se podem intrometer na luta pela classificação geral, e que normalmente seriam candidatos a um belo resultado, mas que sofrem aqui de síndrome de excesso de concorrência.

Cian Uijtdebroeks vem a fazer uma época interessante, Tobias Halland Johannessen idem aspas mas com mais provas dadas no Tour, onde fechou sexto na temporada passada (startlist incomparável). Ben O'Connor, Matteo Jorgenson, Antonio Tiberi e Kévin Vauquelin também podem rondar o top-10, mas mais do que isso acho que são aspirações em demasia.

O mais provável até é que metade destes nomes acabe por perder 37 minutos numa etapa e acabe na clássica disputa pela camisola das bolinhas, entrando em fuga atrás de fuga. Nos últimos anos, fruto da fome incessante de Pogačar, as oportunidades para vencer a partir da fuga nos dias montanhosos não têm sido muitas, mas a lista de candidatos presentes impõe respeito.

Destaco Lenny Martinez, está a andar bem este ano, na última edição fez terceiro na classificação e ainda não parece ter a consistência necessária para tentar a classificação geral. Também Richard Carapaz deverá participar nesta luta, acompanhado pelo seu colega Ben Healy. Thymen Arensman bisou na edição anterior e deverá tentar, sem sucesso, repetir a façanha, formando um duo perigoso juntamente com Egan Bernal.

Há mais malta, há sempre mais malta. As fugas do Tour parecem a GC das outras corridas. Mattias Skjelmose, Javier Romo, Valentin Paret-Peintre são tudo nomes que espero ver nestas andanças. Nota final neste departamento para algumas alterações na pontuação da camisola das bolinhas. Alterações feitas com um propósito que vocês podem tentar adivinhar por vocês (tentar evitar que um esloveno ganhe).

Jola de cristal — Egan Bernal chega a Paris todo vestido às bolinhas.

Este palhaço arranja sempre maneira de ser protagonista.

Viremo-nos agora para os homens rápidos, que também viram a sua classificação dos pontos sofrer alterações com o intuito de os favorecer ainda mais. Agora as etapas planas contam mais pontos e há mais sprints intermédios.

Apesar da ausência notória de Jonathan Milan e de Paul Magnier, ainda contamos com muitas opções válidas para a luta pelas etapas planas e, consequentemente, pela tão almejada camisola verde. Eu destaco, antes de todos os outros, Tim Merlier. O belga ainda soma "apenas" 3 vitórias no Tour na carreira, número curto para a sua qualidade e claramente prejudicado pela presença de outros grandes sprinters na sua equipa ao longo da carreira. Aqui tem, provavelmente, as melhores condições da sua carreira para reinar na corrida rainha, limpar várias etapas e levar a camisola verde. Bom comboio, equipa para ele e várias oportunidades.

Naquela que é, para mim, a segunda linha, surgem Jasper Philipsen e um regressado Olav Kooij. O ciclista da Alpecin nunca pode ser descartado, ainda para mais com Mathieu van der Poel para o lançar, e tem a versatilidade do seu lado face a Merlier. Já o neerlandês vem de uma longa paragem mas regressou desde logo vitorioso e tem aqui finalmente a oportunidade de se estrear na Grand Boucle, objetivo que já perseguia há muitos anos.

As listas para o Tour são sempre extensas e fortes, pelo que é preciso adicionar Biniam Girmay, nunca se sabe quando é que repete o extraordinário Tour que realizou em 2024. É também obviamente necessário mencionar Mads Pedersen, nome no qual eu aposto para ser um dos grandes agitadores da corrida, já que, sabendo não ter ponta final para os restantes nomes mencionados, vai tentar colocá-los em dificuldade em qualquer colina que se atravesse na estrada. Mathias Vacek, que chega em grande forma, poderá ser o seu fiel escudeiro e formarem assim uma dupla temível.

No mesmo registo de Mads temos ainda Dorian Godon, a fazer a época da sua vida. E depois temos bastantes nomes interessantes, que no dia certo podem surpreender, como Arnaud de Lie, se ainda não se tiver reformado, Søren Wærenskjold, Max Kanter, Phil Bauhaus, Milan Fretin, Pavel Bittner e, claro, el señor Fernando Gaviria Rendon que promete ser lançador de todo o pelotão na esperança eterna de que a etapa seja encurtada em 200 metros. E tão inspirador é ver alguém perseguir o impossível.

Jola de cristal — Merlier limpa 4 e a verde.

Acima tentei caracterizar os ciclistas de acordo com as suas características, mas nem todos cabem nessas caixas tão definidas, há muito mais gente que olha para esta prova com o objetivo de brilhar. Gente rápida e versátil, astuta nas fugas, como Alex Aranburu e sobretudo Magnus Cort Nielsen (em despedida) serão perigosos nas etapas que tiverem marcadas. Puncheurs do nível de Romain Grégoire, Mauro Schmid, Emiel Verstrynge e, acima de todos os outros, Mathieu van der Poel, farão tudo por tudo para picar o ponto. Roladores ao estilo locomotiva como Jonas Abrahamsen, Quinn Simmons, Joshua Tarling e Filippo Ganna assim que têm um metro de vantagem são o perigo à solta.

Julian Alaphilippe, sempre com um espaço no meu coração, é um nome demasiado grande para ser ignorado, mesmo quando as pernas já não parecem estar lá. Eu acredito, como sempre acreditei e como acho que sempre acreditarei, que ele ainda tem lá algo mais do que as pernas para poder sonhar com uma vitória, espero que sim.

Para fechar, salientar o indestrutível Nélson Oliveira. O português arranca para a sua 24.ª Grande Volta com o objetivo de escrever história, e para isso basta-lhe terminar a prova imaculado, já que seria o primeiro ciclista a participar em tantas provas de três semanas sem nunca desistir. Ao trabalho e eventualmente numa tentativa de fuga de roladores é onde veremos o Nélson em ação, mas a maior parte do seu mérito não aparece nas câmaras e é por esses méritos que tudo muda na Movistar, menos a presença do português.

Favorito

Tadej Pogačar — É a história em pessoa. E se por vezes é aborrecido testemunhar o seu domínio, nunca nos podemos esquecer do luxo que é presenciar um ciclista deste calibre a partilhar a geração connosco. Sendo o patrão da corrida, só não ganha se tiver azares ou se uma surpresa monumental acontecer. Ainda assim, tenho curiosidade acerca da sua postura na corrida, quer na luta pela vitória em etapas, quer na relação com Del Toro, quer na marcação a Seixas. Fã que é fã, arranja sempre motivos de interesse.

Candidatos ao pódio

Jonas Vingegaard — O homem deve rogar pragas todas as manhãs à sua data de nascimento que o fez coincidir no pico com Pogačar. Tem feito questão de se apresentar noutras provas de forma autoritária, e mostrar que só mesmo o esloveno o impede de dominar o ciclismo mundial a seu belo prazer. Eu tiro-lhe o chapéu: é o único que nunca corre para segundo, que mesmo sabendo que as probabilidades de sucesso são escassas, ataca Pogačar até à exaustão. Eu gostava que ele conseguisse, pelo menos mais uma vez na carreira, dar luta. E torço, sem grande convicção, para que seja este ano.

Paul Seixas — O fenómeno, o futuro, a esperança dos fãs e, sobretudo, dos franceses. Eu não quero colocar a fasquia demasiado elevada, não é justo para alguém de tão tenra idade, mas pelo que já mostrou não acho o pódio impensável. E a ousadia é tanta que pode ser mais um a não correr para o segundo lugar, o que é sempre apreciável, mesmo que possa ter consequências nefastas. Aconteça o que acontecer, faça pódio, perca tempo e lute por etapas, ande de amarela mas depois quebre num dos dias, Seixas irá dar espetáculo e deixar água na boca. Tudo com a benção falsoplanista, claro.

Depois disto, Seixas tem uma responsabilidade imensa sob os seus ombros.

Isaac del Toro — Super forma El Torito. Assumindo que Pogačar vai passear e vencer com facilidade, abre-se a porta à luta do pódio para o mexicano, assim como Adam Yates e João Almeida já tiveram essa liberdade no passado. As dúvidas na alta montanha parecem ter sido muito atenuadas com a sua prestação no Dauphiné e pode até aproveitar algumas hesitações dos dois principais favoritos para escapar rumo a uma vitória em etapa. Isto tudo se não se cruzar com Richard Carapaz, pois claro.

Florian Lipowitz — O patinho feio desta corrida ao pódio não se deve estar a queixar dos holofotes não residirem sobre si. Tem a seu favor a consistência e a discrição, vamos ver como lida com esses fatores, mas eu aponto-o indiscutivelmente como um sério candidato ao pódio.

A não perder de vista

Juan Ayuso — É sempre muito difícil saber, ou sequer imaginar, que Ayuso teremos numa corrida. É a primeira vez que se apresenta no Tour como líder, ainda que sendo líder de uma equipa com 17 objetivos na prova. O dinheiro, muito, investido no espanhol tem de ter retorno nos maiores palcos e a pressão é muita, quase tanta quanto o seu potencial. É a hora da verdade para o Don Juan.

Remco Evenepoel — Perdido nas montanhas, desaparecido. A fazer o quê? A malta imagina que a preparar-se como nunca para este objetivo. O discurso é, como sempre, ambicioso: o objetivo é ganhar. Sendo o objetivo tão deslocado do que eu acredito ser a realidade, só me resta inferir que é uma prova de confiança em si próprio e que podemos, pela primeira vez desde 2024, ver um Remco bastante forte na alta montanha. Resta a incógnita dos dias maus que parecem perseguir o belga, mas nós sabemos o perigo que ele significa para os rivais e nunca deve ser subestimado. Se sair da GC, será protagonista na mesma.

Thomas Pidcock — O meu joker para esta luta. O percurso é bom para ele e gosta de surpreender, pelo que o facto de estar a passar under the radar lhe pode ser benéfico. A personalidade e a qualidade são tantas que protagonista será. Vamos ver de que história.

Tim Merlier — 4 etapas, verde e o fim da discussão sobre o melhor sprinter do mundo são as minhas expetativas para Merlier neste Tour.

Lenny Martinez — GC ou fugas ou montanha ou o que for. O francês vai dar espetáculo e mostrar que não é só com Seixas que os gauleses se devem deixar entusiasmar.

Frits Biesterbos — FRITS BIESTERBOS em estreia numa grande volta. Se há melhor que isto eu não conheço, e se me disserem que há eu não acredito. Nas primeiras etapas deverá lançar Pavel Bittner (LOOOOL) mas depois os responsáveis da equipa vão perceber onde reside o verdadeiro diamante do plantel. Até ficam todos Frits.

Apostas falso plano

André Dias — Henok Mulubrhan vence a GC. Eu só reconheço um Tour no verão e é à volta do Lago Qinghai.

Fábio Babau — O Dane vai terminar de amarelo e trazer de volta a dúvida.

Henrique Augusto — O Ving vai dropar o Poga uma vez, nós vamos ter esperança, o Poga vai-se chatear e ganhar com 7 minutos.

O Primož do Roglič — O campeão voltou. Jonas Vingegaard.

Miguel Branco — A minha aposta para terceiro é Isaac del Toro.

Miguel Pratas — Pogi 5/8.

Nuno Gomes — Lipowatts fará melhor GC que Remco.

Nuno Silva — Paul Seixas faz terceiro lugar.

Rogério Almeida — É desta que Remco ganha o Tour, se os 5 melhores desistirem claro.

Vítor Ferreira — Isto começa logo mal, quando o vencedor não se chama PogaBike.