Antevisão — Volta a Portugal

Saídas à portuguesa, chouriço na grelha, minis na mão. Espetáculo e caos. É isso a Volta, e é disso que o meu povo gosta.

Antevisão — Volta a Portugal

Introdução

A Volta é, antes de tudo, uma festa do povo. O povo sai à rua todos os dias, a corrida passa na porta de casa das pessoas, e isso é uma proximidade muito difícil de replicar em qualquer outro evento desportivo. Só assim se explica o sucesso e a implementação nacional que esta prova tem no seio do nosso país, que todos os Agostos parece tirar umas mini-férias do desporto rei para se concentrar nos heróis do pedal. A prova já passou por fases de maior e menor fulgor, com mais ou menos qualidade, mais ou menos escândalos, mas o povo nunca a abandonou e é pelo povo que ela continua na estrada.

São constantes mares de gente. É tanto povo. (foto: O Minho)

Num percurso com algumas novidades mas em que os pontos fundamentais são aqueles que já vamos conhecendo de outras edições, a grande novidade desta edição da Grandíssima prende-se com o facto de, pela primeira vez desde que me recordo e provavelmente de sempre, a melhor equipa do mundo se apresentar à partida. A UAE tem muitas ligações a Portugal e já festejou muitas vitórias dos nossos melhores compatriotas, e sentiu que era altura de dar um pouco de volta. É verdade que não apresenta a equipa A (claramente fruto da miaúfa que Tadej Pogačar tinha de levar um banho na Torre) mas traz-nos boas promessas, caras nossas conhecidas e, sobretudo, um Rui Oliveira campeão olímpico pronto para receber o amor do público e para finalmente quebrar o enguiço, estreando-se a vencer como profissional (afirmação discutível, a gente ainda se lembra do roubo).

As equipas portuguesas não se deverão deixar abalar pela presença desta imponente presença e procurarão não só festejar as vitórias diárias em disputa, como também lutar pela classificação geral. Dos favoritos falarei mais à frente em detalhe, mas é difícil ignorar o bi-campeão que se apresenta à partida com o objetivo de ser o primeiro ciclista desde David Blanco a ganhar por 3 vezes seguidas a Grandíssima.

Artem Nych à procura da história.

Há ainda mais uma novidade, a maior de todas, porventura. O falsoplano estará presente na corrida, com podcasts diários e alguma parvoíce pelo caminho, como seria de esperar. Fica o convite para nos acompanharem na maior aventura em que este projeto já se meteu. O episódio de Antevisão já está disponível.

Vai ser divertido. Já está a ser.

O percurso

Prólogo — A festa começa em Lisboa, com um curto esforço individual contra o relógio. É sabido que o dia inicial da Volta tem o nome de Rafael Reis marcado, tendo saído vencedor nas últimas 5 (!) ocasiões. Vamos ver se as equipas forasteiras ('tou-te a ver UAE) respeitem a tradição nacional.

Lisboa Lisboa (6km)

Etapa 1 — Não há sprints "limpos" nesta Volta, mas será nestes primeiros dias que os velocistas terão as suas principais oportunidades para buscarem a glória. Os últimos 40 quilómetros são bastante ondulados e culminam com uma descida que deverá ver uma chegada muitíssimo rápida.

Lourinhã — Beja (157km)

Etapa 2 — Mais um dia, a mesma receita, só que agora no Sul do país à beira mar plantado. A chegada a Albufeira volta a ser antecedida de algumas dificuldades e pode selecionar o lote de ciclistas a disputar a vitória final. Ou coroar vencedor um ousado atacante.

Sines — Albufeira (180km)

Etapa 3 — A primeira fugaça? É uma possibilidade, depende da confiança, da capacidade de resistência e do apetite dos homens rápidos, que depois da chegada a Elvas não terão tão cedo outra oportunidade. Etapa engraçada para nós, no sofá, já que o típico calor alentejano poderá provocar dificuldades extras aos ciclistas.

Beja — Elvas (182km)

Etapa 4 — Agora sim, sem desprimor por quem brilhar antes, começa realmente a Volta. A nossa tão famosa Torre faz a sua aparição na primeira semana e marca o primeiro dia onde as diferenças se poderão avolumar.

Figueiró dos Vinhos — Torre (155km)

Agarrem-se bem e apertem os cintos que quem não tiver pernas aqui vai ter de encostar à box.

Etapa 5 (ITT) — Ainda com as pernas doridas da insana escalada protagonizada na véspera, os corredores arrancam para um contrarrelógio de 18 quilómetros, onde os trepadores podem sofrer a bom sofrer. É verdade que há um pequeno topo sensivelmente a meio da prova, mas não o suficiente para retirar a vantagem aos homens mais possantes do pelotão. Nota para o facto da etapa ir ter o seu início no Velódromo de Anadia, local histórico e essencial para o tão frutífero desenvolvimento do ciclismo de pista nacional.

Anadia — Águeda (18km)

Etapa 6 — Ora sobe, ora desce, ora sobe mais um poucochinho. Deve ser um dia para os combativos da Volta, com uma fuga grande a disputar entre si a vitória no dia que marca o início da segunda semana da Volta.

Santa Maria da Feira — Peso da Régua (133km)

Etapa 7 — Etapa muito interessante, rompe pernas e com duas montanhas a sério antes da chegada, belíssima, em falsoplano ao Gerês. Pode ser uma das etapas-chave da prova permitindo estratégias mais ousadas por parte de quem precisar de recuperar tempo.

Vieira do Minho — Termas do Gerês (153km)

Etapa 8 — A tradicional chegada a Fafe deverá ver uma fuga vingar, embora dê para brincar à GC na Montanha da Penha.

Melgaço — Fafe (167km)

Etapa 9 — Dia final para a luta pela classificação geral. A passagem no Alto de Carvalhais e o off-road que se segue são convidativos a termos muito espetáculo fruto de ataques de longe. Esperemos que haja essa ambição para tornar este dia num dia épico.

Paredes — Senhora da Graça (143km)

Se não se atacar de longe, as diferenças serão na mesma feitas, e bem feitas, na histórica subida à Senhora da Graça. São os 8 quilómetros e 400 metros mais famosos aqui do burgo.

Etapa 10 — Chegada a Montmatre, ah não, ao Porto. Um percurso acidentando no dia final, com um circuito ondulado que conta com partes em empedrado, faz lembrar a nova versão da etapa final do Tour. Só que é muito melhor que o que é nacional é bom.

Maia — Porto (137km)

O que esperar

Saídas à portuguesa, chouriço na grelha, minis na mão. Vão também existir ciclistas a pedalar, por entre todas estas peripécias, disputando a maior prova do calendário velocipédico nacional.

Uma corrida que começa a fundo e que no fim parece que está a começar, é isso que espero. Muito ritmo, muitos ataques, táticas questionáveis. Desentendimentos, gregários que acham que são líderes e líderes com pernas de gregários. As decisões serão feitas nos palcos do costume, já mencionados, mas o imprevisto está sempre a espreitar por entre a brecha da porta. Os ataques onde menos se espera muitas vezes são os mais bem-sucedidos. A luta dos galos grandes pode fazer com que estes se distraiam entre si e a vitória sorria ao patinho feio. Esta é a magia da Volta, a corrida onde tudo (e um par de botas) pode acontecer ao longo de 11 dias sob o tórrido calor de Agosto.

É isso, acima de tudo, que espero. Espetáculo e caos. Se me derem isso, não posso pedir muito mais. Fico já bastante satisfeitinho.

Eu queria destacar, até porque não encontrei outro espaço neste texto, a qualidade do pelotão de velocistas que por estes dias procurará a vitória em Portugal. Rui Oliveira, o nosso campeão olímpico, surge naturalmente na cabeça desta lista, mas há mais nomes a destacar. No panorama internacional temos gente muito rápida, como Itamar Einhorn e Daniel Cavia, ambos com provas dadas além-fronteiras. A correr pelas equipas nacionais temos o grande Santiago Mesa, tropa falsoplano, temos a sempre perigosa dupla da equipa com o melhor nome da história do ciclismo, composta por Leangel Linarez e João Matias a representarem a Tavfer-Ovos Matinados-Mortágua e temos ainda o jovem português João Martins, que depois de dar cartas na Volta à França do Futuro procura agora o seu primeiro grande resultado na Volta realmente importante.

Desta não passa, Ruizão. (foto: UAE Team Emirates)

Favoritos

Artem Nych — É o bi-campeão em título e traz uma super equipa consigo. O gigante voltista (1.95m) é completo, bate-se muito bem no contrarrelógio e é muito difícil de fazer descolar quando o terreno inclina a sério. Também tem uma boa explosividade, tornando-se assim no pacote completo para a realidade nacional. Tem de ser o alvo a abater.

Adrià Pericas — Talvez o ciclista com mais potencial startlist, o jovem espanhol de apenas 20 anos terá aqui uma rara oportunidade de liderar a equipa. Há dúvidas sobre a sua capacidade no esforço contra o relógio (quer dizer, não há bem dúvidas, ele é mau) mas ninguém questiona a sua capacidade de escalar montanhas. Ainda em busca da sua primeira vitória como profissional, não me surpreenderia se começasse logo em grande estilo, vencendo na Torre ou na Senhora da Graça.

Tiago Antunes — A principal esperança lusa vem fazendo a melhor época da sua carreira, coroada com duas vitórias imponentes em provas do calendário nacional: Volta ao Alentejo e, mais recentemente, no Troféu Joaquim Agostinho. À equipa não faltam argumentos para disputar com a Anicolor o domínio da corrida, vamos ver se o Tiago terá as pernas para corresponder na estrada, sobretudo na alta montanha onde ainda restam mais dúvidas sobre as suas capacidades.

A não perder de vista

Alexis Guerin — O experiente gaulês chegou a Portugal e rapidamente se sentiu em casa. 2025 foi um ano de muito sucesso, com o pódio na Volta a somar-se às vitórias no GP Anicolor e no Troféu Joaquim Agostinho. Este ano também já festejou e tem primado por uma consistência de louvar e que poderá ser muito útil ao seu chefe de fila, quer para o ajudar, quer para assumir a liderança se algo correr mal com Nych.

Jesús David Peña — Quarto classificado da edição transata, é talvez o mais puro trepador do bloco da Efapel. Um ciclista de créditos firmados, com passagem pelo World Tour e que chega aqui com a ambição de melhor o seu resultado de 2025.

Lucas Lopes — Bem, a Efapel parece a Movistar dos seus tempos áureos. Nessa equipa reinava a desordem, cabe a José Azevedo colocar cada macaco no seu galho e colocar esta formação a trabalhar toda em torno de um objetivo comum. Vamos ver qual o papel de Lucas Lopes nessa dinâmica, mas é um jovem que acompanharei com bastante curiosidade.

Abner González — O Pódio em 2024, quando venceu na Senhora da Graça, levou-o durante um ano para fora de portas, mas bom filho à casa torna e o segundo porto-riquenho mais famoso por terras lusas terá de aproveitar a alta montanha para impor a sua lei. A época não tem sido brilhante mas não penso que isso o descarte da luta pela vitória.

Zac Marriage — Adora os ares portugueses e os ares portugues adoram-no a ele. Não é um trepador, embora se consiga defender, como prova o 11.º lugar em 2025. Está aqui mais para o Dias ser feliz, ele merece muito.

Hugo de la Calle— A Burgos traz uma equipa interessante a Portugal, na sua busca incessante por pontos UCI, e eu destaco o Hugo da Street. Trepador perigoso e ambicioso, procura aqui a primeira vitória como profissional.

Fábio Costa/Afonso Silva/Emanuel Duarte— Trio nacional cujos objetivos passarão por entrar no top-10 e que serão interessantes de acompanhar ao longo da Volta.

Apostas falso plano

André Dias — Está na calha, de la Calle.

Henrique Augusto — Tiago Antunes devolve a nossa bandeira ao lugar mais alto do pódio.

O Primož do Roglič — E se o Rui ganha? Torre e Senhora da Graça ao sprint.

Miguel Branco — "Deus está morto", já dizia Friederich Nych.

Miguel Pratas — Artem Nych não vacila.

Nuno Silva — Isto é uma corrida de Nych.

Rogério Almeida — Se a grandíssima é para gente grande, então ganha o Julius.

Vítor Ferreira — Ainda não estudei esse Nycho do mercado.