Cycling Fantasy — Tour Auvergne - Rhône-Alpes
Este artigo é sobre filosofia e comédias românticas do Adam Sandler. Se eles mudam o Critérium, nós também ficamos sem nenhum.
Introdução teórica
O filósofo Bertrand Russell defendia que um nome deve nomear alguma coisa ou não é um nome. Desculpem começar um artigo de fantasy de ciclismo assim, mas ando obcecado por filosofia da linguagem ultimamente e este é o único sítio onde posso despejar sem parecer (ainda) mais estranho. Ora, o Russell dizia, assim por alto para não cansar, que ou um nome cumpre o seu atomismo lógico — isto é, designa qualquer coisa — ou falha por completo no seu propósito semântico — isto é, fica mais inútil que o Ben O'Connor numa chegada em alto.
Por falar nisto, sabiam que, no Brasil, o filme "O Padrinho" se chama "O Poderoso Chefão"? Ou que o título original de "A Minha Namorada Tem Amnésia" é "50 First Dates", um título muito menos óbvio e explicativo do que o português, que em poucas palavras explica toda a premissa do desafio que Adam Sandler enfrenta durante 1h39 de pura comédia romântica?
Seria de esperar que os franceses, fartos de saber que as coisas são mais apelativas com um bom título, não trocassem o nome a uma das corridas mais históricas do calendário do ciclismo. Mas trocaram. O mítico Critérium du Dauphiné é agora o sensaborão Tour Auvergne - Rhône-Alpes. Porquê? Os organizadores dizem que o novo nome reflete agora melhor o contexto da corrida e o local onde toma lugar, uma das 18 regiões francesas. São amigos do Russell, portanto.
Ora, eu digo que um nome não precisa de refletir exatamente todo o seu propósito. Foi assim que, ao longo de séculos, os humanos nomearam os Jogos Olímpicos em vez de "Competições Mundiais Que Acontecem Muito em Atenas". Que inventaram palavras vagas e confusas como "cenas", "isto" ou "coise". Que criaram toda uma dinâmica relacional designada por "é complicado". Porque se dar nomes às coisas fosse para ser fácil e óbvio, não haveria surpresa. E se não há espaço para o desejo e para a surpresa, o que é que estamos a fazer aqui?
A jogar provas de fantasy de ciclismo não estaríamos, de certeza. Tudo perde a piada no dia em que é assim tão certo. Boa sorte para a vida. E para escolher nove.

Análise ao percurso: ver Antevisão — Tour Auvergne - Rhône-Alpes.
Shortlist falso plano
(Nota: Em protesto pela troca de nome da organização, falso plano também muda o nome aos ciclistas em prova, estilo PCM.)
1200:
- Isaco del Torre* — Esta corrida não é para meninos, tipo B Fachada, mas há muita juventude a querer mostrar serviço. É um dos dois sérios candidatos à vitória pela UAE Embirrates (é como eu lhes chamo cada vez que correm sem o Pogacar).
- Botta Lum* — Ainda no pico de febre com o Eulálio, temos Almeida de volta em prova. No papel, teria tudo para um bom resultado. Mas entre doenças e incerteza na forma... desculpa, João. Desta vez, vou deixar de fora.
- Juan Ai Uso* — Primeira corrida desde a queda tremenda no País Basco. Líder indiscutível da Lidl e um percurso bem ao jeito daquelas explosões na montanha. Candidato à best team, certeza de render muitos pontos.
1000:
- Matteus Jorge-Anção — Líder da Visma. Com mais alta montanha do que ele talvez gostaria. E com um preço mais alto do que estou disposto a pagar.
- Vou-te Vanar-te — Sem grandes sprinters à partida, serve bem. Aposta sólida a pontos entre as etapas 2 e 5. E até está mais barato que o costume.
- Oscar Onleyfan* — Gostas de picks? Esta vai ser uma bem privada.
- Matias Skjelmoço — No País Basco e na Catalunha, fez montanha junto aos melhores (incluindo Seixas e Eulálio). Como é evidente, não levo.
800:
- Paulo Seixo* — Candidato à Geral, a etapas e à Juventude. Nunca um ciclista de 800 pareceu tanto um preço de saldos.
- Doriano Godot — Se não acreditam na supremacia de van Aert, tem três etapas ao seu jeito.
- Matthew Ricciteller — Vem de vencer o Tour du Jura, mas aqui não vai ser uma aventura. O lançador de Seixas na montanha vai ter mais trabalho e menos liberdade para um bom resultado.
600:
- Iván Romeu* — O especialista em late attacks tem aqui boas ocasiões para apanhar o pelotão a dormir. Se uma vitória de etapa compensa a 600? Isso é convosco.
- Valentim Pare-e-Peintre* — Demasiado barato para não compensar ou demasiado caro para a qualidade acima? Nem o Descartes pensou tanto nesta.
- Bryan, o rei da Cocada — Não é grande dica, só gostei do trocadilho.
400:
- Daniel Felipe Martins — É "ano sim", meus tropas.
- Jorgen Nordasgen* — Não vai começar como líder da Visma, mas vai acabar assim.
- Cien Uijtdebrocas* — Montanheiro Movistar a preço razoável. Já começa a ser uma raridade.
- Axel Baudin* — A mesma coisa, mas para a EF.
- Ben Tolentino — Na estrada como nos livros, Tolentino é paixão que já rendeu mais pontos.
- Luke Plopp — Não acho que vá estar ao nível do início de época, mas terá pernas para uns top-10. Há opções melhores.
- Finn Fisher-Price* — Godon do Aldi.
- Matteo Trinta — Hot take: vai acabar na "melhor equipa" da prova.
200:
- Lucky Tuckwell* — Top-10 na Romandia e uma das minhas grandes apostas para o futuro desde o Baby Giro do ano passado. Para mim, é 20/20.
- Léo Bisoux-Bisoux* — O jovem da Decathlon está a andar bem. Depois de eu dizer mal dele no início do ano, entrou em 6 "melhores equipas", sempre com menos de 35 pontos. Se esbanjarem acima, pode ser um low cost fiável.
- Benoit Cornosaofrio — Em teoria, isto não seria prova para ele e viria para trabalhar muito para os dois líderes. Mas já viram a forma do homem? Ainda acaba a vestir de amarelo.
- Brady Gilmore Girls — Ter um sprinter-puncheur que passa bem dificuldades só naquela pode fazer a diferença.
- Jorge Zimmermann — Vitória em Frankfurt, numa clássica muito ao estilo das etapas 4 e 5.
- Clemente Berteto — Se fosse o NunApps a escrever este, diria que o ciclista da FDJ mostrou bons indicadores no Mercan'Tour dos Alpes Marítimos, demonstrando um bom rácio entre qualidade de subida e preço. Mas eu enganei-me e comecei a escrever este artigo por ele e já estava demasiado investido no monólogo filosófico e ainda o confundi com o Silva. Por isso digo só que vão querer ter levado este gajo.
*Conta para a classificação da Juventude.
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